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30.06.2026 Hélder Verdade Fontes Cultura Sociedade Reportagem

Entre cerveja, limão, Deus e o burnout: a tarde atribulada (e cheirosa) de Byung-Chul Han no Porto

Entre cerveja, limão, Deus e o burnout: a tarde atribulada (e cheirosa) de Byung-Chul Han no Porto

No fim das contas, o cheiro que encheu o jardim prometeu e cumpriu. Num cenário cada vez mais comum na sociedade pós-industrial, e num jardim com uma fábrica de cerveja mesmo ao nosso lado, a espera para o início da palestra de Byung-Chul Han quase se tornou mais tolerável pelo envio de uma brisa de cereais a fermentar.

A fragrância foi o primeiro elemento da intervenção de Byung-Chul Han. E todos nós o pudemos sentir, mas com percepções completamente diferentes. O público, com o cheiro a cerveja (ou pão a levedar, para os mais inocentes); o filósofo, com o cheiro a limão de uma magnólia que colheu no jardim e fez questão de levar para o púlpito. O olfacto foi, provavelmente, o sentido mais utilizado nesta sessão.

E, se assim é, parte do papel do filósofo foi cumprido, não fosse este o autor de «O Aroma do Tempo», uma análise sobre a passagem do tempo, a sua aceleração e o aroma na vida que estamos a perder. O que não foi nada acelerado foi o atraso de praticamente 1h30 para o início da sessão. E quando Byung-Chul Han, por fim, subiu ao púlpito e começou a falar em alemão, naquela que é a sua língua adoptiva, o público começou a vaiar. Aparentemente, o filósofo tinha sido o único ali a adoptar o alemão como língua.

Talvez Byung-Chul Han saia do Porto com inspiração para escrever «A Sociedade da Incompetência».

A audiência praticamente toda precisou de auscultadores para a tradução simultânea e, durante a hora e meia de espera, nenhum elemento da organização se lembrou de os distribuir. O filósofo teve de esperar mais 30 minutos para recomeçar e aproveitou esse tempo para apreciar novamente o jardim pelo qual já tinha passeado. Durante esse tempo, nenhum de nós perdeu o aroma do momento: um cheiro a nervosismo no ar para saber se, de facto, os aparelhos iam funcionar ou se os havia em número suficiente. Para o autor d'«A Sociedade do Cansaço» ou «A Sociedade da Transparência», com esta experiência, talvez Byung-Chul Han saia do Porto com inspiração para escrever «A Sociedade da Incompetência».

Byung-Chul Han disse-nos que Deus não está morto, numa evidente resposta a Nietszche: «morto está o Homem a quem Deus se revelou».

Duas horas depois do previsto, Byung-Chul Han retomou e brindou-nos com uma sessão que passou num estalar de dedos - nem o aroma no ar impediu a aceleração do tempo. As temáticas foram as mesmas de sempre, pese embora o foco inicial tenha estado no seu mais recente contributo para a filosofia: conversas sobre Deus, uma apologia a Simone Weil. O filósofo disse-nos mesmo que Deus não está morto, numa evidente resposta a Nietszche: «morto está o Homem a quem Deus se revelou». Não é que a nossa humanidade esteja a definhar - ela já está mesmo morta. Numa também evidente resposta ao pós-estruturalismo, Byung-Chul Han disse-nos que «não somos escravos de Deus se nele acreditarmos. Antes, ficamos divinos.» A tese, apesar de se perceber a intenção, tem algumas dificuldades: se ficamos divinos ao acreditar em Deus, não perderá Deus aquilo que faz dele… Deus? Como pode a concepção tradicional de Deus (a que Byung-Chul Han invoca) subsistir se estamos todos no mesmo plano? As questões ficaram, porém, sem resposta.

Segundo o filósofo, sustentabilidade não é restaurar a terra, não é sermos um ser que faz parte dessa mesma terra: é marketing.

Aproveitando o facto de estarmos num jardim, Byung-Chul Han utilizou a beleza espacial para referir o quão bonito é o custo da entrada em todas as conferências deste evento ser um livro. Apesar de algumas críticas ao consumismo, digamos que há consumismo e consumismo. E penso que nem Jean Baudrillard criticaria esta pequena, mas relevante, parte do evento. Julgo, inclusive, que Byung-Chul Han se referiu à criação de uma comunidade através da leitura e da paixão pelas letras. Por contraste à paixão, o ódio: «odeio a sustentabilidade». Segundo o filósofo, sustentabilidade não é restaurar a terra, não é sermos um ser que faz parte dessa mesma terra: é marketing, jogo de luzes para ignorar o facto de a continuarmos a destruir como se nada fosse.

Sobre os temas clássicos, do burnout aos transtornos de défice de atenção, Byung-Chul Han provocou-nos: disse que os médicos e psiquiatras deveriam receitar menos medicamentos e mais poemas, livros, passeios e jardins para contemplação. Digo já ao leitor: ficar pela crítica fácil a esta frase é… fácil. Como é óbvio, Byung-Chul Han não nos diz para deixarmos de seguir qualquer prescrição da medicina convencional. Determo-nos nesta crítica, à falta de melhor termo, contraria tudo o que Byung-Chul Han nos pede, da contemplação à densidade. O que quer Byung-Chul Han dizer-nos?

Uma primeira resposta é que aponta para complementos que são úteis, não só para várias perturbações e doenças do foro mental, mas também para a nossa alma. Bom, mas isso, de certa forma, já o sabemos. E, hoje, vários médicos receitam estes complementos. Não é nada de propriamente novo. Esta resposta não nos satisfaz. Tem de haver algo mais profundo na provocação.

Para Byung-Chul Han, os médicos e psiquiatras deveriam receitar menos medicamentos e mais poemas, livros, passeios e jardins para contemplação.

Byung-Chul Han não é médico. Não está, necessariamente ou primordialmente, preocupado com a parte fisiológica do nosso corpo: está absorto naquilo que nos faz ser quem somos. E na forma como aquilo que somos reage aos estímulos do que não faz parte de nós. Essa preocupação, que é tanto individual como social, dá-lhe graus de liberdade para dizer coisas que nos chocam. Byung-Chul Han está pouco interessado no problema individual que aflige uma só pessoa: procura as raízes para a proliferação dessas doenças e transtornos de forma generalizada. E encontra parte delas na auto-exploração da sociedade pós-disciplinar. Antigamente, éramos escravos e os mestres utilizavam os chicotes para nos obrigar a trabalhar. Hoje, somos, simultaneamente, mestre e escravo, e chicoteamo-nos até à exaustão. Pior: saímos dessa situação como se fôssemos vencedores porque conseguimos comprar o chicote. Pouco importa que seja para nos flagelar: conseguimos comprar o objecto da nossa escravidão e somos, agora, um só. De chicote na mão.

Byung-Chul Han tocou-me especialmente ao dizer que hoje a liberdade é vista como a falta de compromisso ou «ausência de dar satisfações a alguém».

Já muito perto do fim, e ligando-se a tudo isto, não pôde faltar a contemplação sobre a liberdade. Numa nota mais pessoal, Byung-Chul Han tocou-me especialmente ao dizer que hoje a liberdade é vista como a falta de compromisso ou «ausência de dar satisfações a alguém». De forma clara, disse, naquele que foi o apogeu da sessão, «só somos livres em vínculos com os outros». Esta ideia, que não é nova em Byung-Chul Han, expressa desta forma, liga-se (ou vincula-se) bem à visão de Karl Polanyi: «Como podemos ser livres apesar da sociedade? E não só na nossa imaginação, não só abstraindo-nos da sociedade, negando o facto de estarmos entrelaçados com as vidas dos outros.»

Esta é, em suma, a cola que une tudo o que Byung-Chul Han nos disse. Não somos livres no vácuo. Não há tal coisa como liberdade apenas por nós. E tentarmos que assim seja é o maior erro que cometemos enquanto humanos, porque nos agarramos às falsas promessas do neoliberalismo. As doenças de uma sociedade reflectem as condições materiais e imateriais dessa mesma sociedade: é um dos principais ensinamentos d'«A Sociedade do Cansaço». Talvez estejamos já demasiado cansados para o interiorizar. Ou exteriorizar, na verdade.

Não somos livres no vácuo. Não há tal coisa como liberdade apenas por nós. E tentarmos que assim seja é o maior erro que cometemos enquanto humanos, porque nos agarramos às falsas promessas do neoliberalismo.

Disse, no início deste pequeno apanhado, que o cheiro cumpriu exactamente aquilo que prometeu. O cheiro a cerveja no ar, numa tarde em que esteve algum calor, não se materializou num copo gelado com um líquido âmbar, com muita pena minha. Mas ficamos igualmente bêbedos com as palavras de Byung-Chul Han. E, se tudo correr bem, passaremos a vida a curar esta ressaca. Temos tempo e, naquele jardim, enquanto a fábrica por lá estiver, ele terá aroma.

  • O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.

Hélder Verdade Fontes

Hélder Verdade Fontes

30 anos, engenheiro químico e mestre em filosofia e política económica. Faço muita coisa a tempo parcial, tento ser progressista a tempo inteiro.

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