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Luís e a Ópera dos Três Vinténs
O Luís é uma daquelas pessoas que gostam dos frutos do trabalho, mesmo que sejam frutos ácidos e provindos do trabalho alheio. É assim desde pequenino, mais precisamente desde o dia em que subiu, esforçadamente, o Monte. Negro ficou, de repente, o céu e Luís assumiu que aquele era um sinal provindo do infinito e mais além. Mais tarde conheceu outras e outros que traziam consigo (nos seus genes e vísceras) o mesmo apetite pelo trabalho. Eram gente dinâmica, que pretendiam pôr todos os outros a trabalhar, para a economia crescer e a riqueza assentar nos cofres profundos da desigualdade.
O grande problema do Luís e do seu grupo de amigos era que viviam numa sociedade de hábitos parasitários, de gente que só queria praia, cerveja, férias e boa vida. Trabalhar está quieto! E o Luís entrou em desespero. Falou com a Maria, com o Joaquim, o Tó Leitão, o Paulo, o Miguel da Luz, o Gonçalo, o Castro, o Nuno, o Carlos, a Rita, a Margarida, o Fernando, a Ana, a Graça, a Ana Guida e o Zé Manuel, todos juntos, e decidiu que a Maria apresentaria um pacote cheio de trabalho e mais uma série de medidas para exterminar essa instalada cultura da preguiça.
Claro que a Maria andou meses a bater com a cabeça na parede. Afinal a cultura do trabalho é mesmo assim. É preciso trabalhar de forma dura e persistente, mesmo que não se saiba o que fazer, ou como o fazer. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. É esse o objectivo da vida. Com alegria ou com alergia, o importante é o trabalho! Mesmo que se ganhe pouco ou nada, isso não interessa! O que é preciso é que não andem a vagabundear pelas ruas, pelos cafés e esplanadas, a gastarem os subsídios pagos pelos contribuintes.
Com alegria ou com alergia, o importante é o trabalho! Mesmo que se ganhe pouco ou nada, isso não interessa! O que é preciso é que não andem a vagabundear pelas ruas, pelos cafés e esplanadas, a gastarem os subsídios pagos pelos contribuintes.
Esta cruzada do Luís, da Maria e dos seus amigos reporta o meu espírito para a Ópera dos Três Vinténs, libreto de Brecht e música de Kurt Weill. Não pela genialidade da obra do Luís e da Maria, antes pelo contrário (a genialidade está no libreto de Brecht e na música de Weill), mas porque o Luís e a Maria olham para a vida como um imenso purgatório onde o que conta é trabalhar até ao último dia de vida. Se possível morrer a trabalhar. E, acima de tudo, ganhar pouco. Três vinténs. E depois isto é assim: trabalhadores, mendigos, reformados e pensionistas é tudo uma cambada de preguiçosos e gente de ladroagem e de esquema fácil, conforme descrito na Ópera dos Três Vinténs.
O Luís e a Maria olham para a vida como um imenso purgatório onde o que conta é trabalhar até ao último dia de vida. Se possível morrer a trabalhar. E, acima de tudo ganhar pouco. Três vinténs.
Neste trabalho de Brecht e Weill, inspirado nos géneros da opereta e comédia musical, o público é levado a refletir sobre temas (improdutivos na óptica do Luís, Maria e resto do grupo) como a exploração da humanidade pelo trabalho. O final da 2.ª obra é uma típica reviravolta brechtiana, irónica, crítica e sarcástica: termina com a atribuição ao personagem principal (Mac da Naifa) de um título de nobreza e, pasme-se, uma pensão vitalícia... A estreia mundial foi em Berlim, nos finais de Agosto de 1928. Segundo as crónicas da época, a sala estava cheia. Tão cheia como cheios estamos, hoje, do Luís.
O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.
Rui Peralta
Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.
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