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Tirando isto a ideia é boa

Tirando isto a ideia é boa

No final dos três mandatos à frente da autarquia do Porto, Rui Moreira deixou dois legados: um é tangível e amplamente conhecido, goste-se ou não; outro é intangível e radica nos incontáveis projetos que imaginou e apresentou à cidade, sem nunca avançar na sua concretização.

E acreditem que este presidente intangível era bem diferente do que – assim mais em concreto – ameaçou cancelar estátuas, encerrou o Teatro da Vilarinha e tentou acabar com o STOP. 

Porque para este Rui Moreira, que a história não recordará, a imaginação não tinha limites, avançando com projetos tão disruptivos como uma rede de bosques mágicos, uns Campos Elísios na circunvalação e um destapar de ribeiras encanadas em séculos anteriores, como se quisesse fazer do Porto uma utopia do urbanismo; eu gostava, confesso, gostava mais deste presidente intangível, sem obra feita, do que do outro que vocês conheceram.

E vem isto a propósito de Jorge Sobrado – candidato pelo dream team do Partido Socialista, agora Vereador de Pedro Duarte na CMP – ter anunciado, nesta primavera, o início de uma rede municipal de centros artísticos, de que o arrendamento de um espaço na Rua do Almada seria o primeiro passo.

É difícil perceber o que pretende o Executivo, porque este apresenta-nos apenas a superfície de uma ideia, que num relance parece boa para logo nos encher de dúvidas.

Ora bem, em abstrato adoro a ideia –  tanto como adorava os bosques, alamedas e ribeiras de Rui Moreira – e subscrevo a necessidade de disponibilizar espaços a coletivos formais e informais para práticas de criação, investigação e formação artística e cultural, de forma descentralizada e autónoma, em todas as freguesias da cidade; portanto, só poderia gostar de ver estas ideias a deslizarem para a direita.

Isto se fosse a mesma coisa, mas sinceramente não parece, tanto mais que é difícil perceber o que pretende o Executivo, porque este apresenta-nos apenas a superfície de uma ideia, que num relance parece boa para logo nos encher de dúvidas. Explico.

Primeiro, a descentralização: é que ao enunciar a «sobrelotação do Campus Paulo Cunha e Silva», como argumento, ficamos logo a pensar que esta rede será mais do mesmo, não uma descentralização do poder de decisão mas apenas uma desconcentração do poder do Teatro Municipal, dividindo-se em novos polos e ameaçando-nos com uma distopia em que a Câmara Municipal monopoliza a produção cultural, ocupando até as suas margens.

Depois a desconcentração: convenhamos que inaugurar a dita rede com uma sala a meio caminho entre Rivoli e Carlos Alberto, não augura nada de bom para os munícipes que habitam de Campanhã a Aldoar, passando por Paranhos e Ramalde, e que mais uma vez são chamados a vir ao centro histórico para ter acesso a serviços públicos na área da cultura, que a Constituição da República aponta como universais.

Finalmente, alguma estranheza com a alegria do vereador, quando nos confessa a habilidade da autarquia a jogar com o mesmo mercado de arrendamento que especula com outro direito constitucional – o da habitação.

Nada de novo aqui, já que também Rui Moreira se deixou levar por afetos perante a família proprietária do Batalha, optando por arrendar um espaço em que a autarquia investiu uma importância muito considerável.

Prefiro discutir políticas culturais a partir de inaugurações do que de encerramentos.

Valha-nos que, à primeira vista, o «espaço da Mala Voadora», apesar de ir custar quase um milhão em rendas, não nos deverá custar milhões em obras, certo...? Ou então, não, e até calha de ser curioso que depois de Moreira ter querido fechar o STOP, invocando razões de segurança, Duarte decida arrendar um espaço em função das suas valências para apresentação de espetáculos, quando esse espaço tem uma black box em que, na plateia, a única saída disponível implica atravessar a zona de cena.

Portanto, tirando o carácter vago do projeto, a descentralização do poder, a desconcentração de espaços e a segurança de pessoas, tirando isto, a ideia é boa e vale a pena estarmos atentos ao modo como o delfim de Manuel Pizarro vai concretizá-la; e, seja como for, prefiro discutir políticas culturais a partir de inaugurações do que de encerramentos.

Carlos Costa

Carlos Costa

Artista, escritor e docente universitário.

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