Saltar para o conteúdo

Mais uma Moeda, menos uma Volta

Mais uma Moeda, menos uma Volta

«Drama Social.» Foram estas as palavras de Carlos Moedas a propósito do sistema Volta. Que veio criar um drama social e, por isso, pede a sua eliminação o mais rápido possível. Também eu peço a sua eliminação, mas não pelos mesmos motivos. Peço-a por este atirar para cima do consumidor final o ónus de pagar pela reciclagem, quando compete aos grandes grupos económicos responsáveis pela produção massificada de contentores para bebidas, sejam garrafas ou latas, a sua correcta recolha e reaproveitamento, de modo a minimizar os danos no ambiente. Não é o consumidor que tem de arcar com o custo dessa pretensa reciclagem. «Ah, mas o valor do depósito é devolvido», dir-me-ão os defensores do sistema. Não. O valor é devolvido na forma de um vale a ser usado em compras na rede de lojas de que faz parte o retalhista onde foi paga a caução, donde se depreende que o dinheiro já não sai daquele grupo. Este é o verdadeiro drama social criado pelo sistema Volta, que torna evidente que o capitalismo não é verde, como tentam apregoar. Aquele de que o presidente do executivo camarário fala não foi criado por este sistema. Já existia e foi criado pelas políticas neoliberais de executivos como aquele a que preside.

É, de facto, um drama social sem precedentes, as pessoas andarem a vasculhar caixotes do lixo por dez cêntimos a lata para tentar pôr uma côdea de pão bolorento na mesa dos filhos, para estes não irem deitar-se com o estômago vazio. Contudo, não percebo este choque repentino do senhor presidente da câmara de Lisboa, já que ele e o seu executivo são parte fundamental da culpa de isto estar a acontecer. Mas é desagradável à vista, não é? Este revolver dos caixotes a céu aberto estraga-lhe o parque de diversões para turista ver.

O apatetamento hodierno a que esta cidade está votada em nome do lucro é tal que um caixote despejado em busca de umas quantas garrafas em bom estado pode pôr em causa a vista da cidade maravilhosa.

O apatetamento hodierno a que esta cidade está votada em nome do lucro é tal que um caixote despejado em busca de umas quantas garrafas em bom estado pode pôr em causa a vista da cidade maravilhosa. Já se livrou dos pobres e dos sem-abrigos. Não que lhes tenha dado condições de vida, casas ou emprego. Isso dá muito trabalho e custa dinheiro — e o erário público camarário tem destinos muito mais consentâneos com a minoria dos seus munícipes, como os Chic-niques, os Tribecas, os Kaloramas ou as Web Summits. Limitou-se a tirá-los, e às tendas que lhes serviam de abrigo, das rotas turísticas para não parecer mal. Afinal, Lisboa é tão linda, esta menina e moça encantada, pejada de tuk-tuks, esse veículo característico da cidade, de brunches e sunsets em rooftops, que não merece ter pobres a estragar-lhe a paisagem, a vista ribeirinha, entrecortada por um outro edifício de dimensões tão pouco maneirinhas, pertença de quem não se coíbe de mostrar quem manda na cidade.

Mas, também, para quê tanta preocupação? Da maneira como estamos a ser (des)governados, os empregos dos pais estão por um fio e vagas nas escolas é coisa que não há, por isso, está tudo bem encaminhado.

Quem pode pagar uma renda também já foi embora, porque a não pode pagar em Lisboa. Há que dar lugar aos alojamentos locais para acolher os turistas e aos apartamentos para os imigrantes, perdão, que lapso tacanho de linguagem, os ex-pats e os nómadas digitais, que podem comprar um T1 por 800 mil euros ou arrendar um T2 numa água-furtada por dois mil e quinhentos, porque é tão giro viver meia dúzia de meses em Lisboa. E os senhorios agradecem, pois, sem limites impostos aos valores das rendas, podem despejar quem pagava 650 € para albergar o novo inquilino, esquecendo-se de que isso custou o dia-a-dia a uma família, que foi obrigada a mudar-se para um arrabalde a duas horas de caminho dos locais de trabalho e das escolas dos miúdos. Mas, também, para quê tanta preocupação? Da maneira como estamos a ser (des)governados, os empregos dos pais estão por um fio e vagas nas escolas é coisa que não há, por isso, está tudo bem encaminhado.

O verdadeiro drama social é ter as associações de moradores excluídas do conselho municipal de habitação, no qual estão representados os construtores civis, os agentes imobiliários e os proprietários. E os moradores? Não deveriam ser os primeiros a ser ouvidos e tidos em consideração no que à cidade diz respeito? Não deveria ser para eles, os munícipes, que o executivo trabalha? Afinal, elegemos um presidente de câmara para representar o povo da cidade e os seus interesses e bem-estar, não os dos grupos económicos que patrocinam o executivo.

O verdadeiro drama social é ter as associações de moradores excluídas do conselho municipal de habitação, no qual estão representados os construtores civis, os agentes imobiliários e os proprietários.

Escrevo este texto no dia em que choro a morte de Jorge Palma, tão filho e tão crítico desta cidade como eu. No mesmo dia em que, na nota de pesar, além de todos os bacocos lugares-comuns, o presidente do executivo camarário cita uma canção de Sérgio Godinho. Até onde vai a falta de noção, Sr. Presidente? «Com todo o respeito…», claro.

Rafaela Lacerda

Rafaela Lacerda

Bióloga, investigadora, escritora.

Artigos Relacionados

Quem tem Moedas tem trocos

Moedas confunde Jorge Palma com Sérgio Godinho como Montenegro citou Saramago a julgar que era Sophia. Um país que começa a confundir os seus poetas, os seus escritores e os seus músicos corre o risco de descobrir demasiado tarde que também está a perder a memória.

23.09.2026 Duarte Baião Opinião

Fragmentos Alternativos

As palhaçadas da direita e da extrema-direita parecem-se cada vez mais com novelas turcas dobradas em castelhano e legendadas em português. E pelo meio, a música: um contraponto elétrico, uma orquestra autogerida e o minimalismo dos Telectu.

09.09.2026 Rui Peralta Opinião