Chego ao Rossio às 19h, depois de um dia de trabalho. Vim sozinha, mas sei que hei-de encontrar muitos amigos, rever alguns com quem não me cruzo há muito tempo.
A estátua de D. Pedro IV está coberta de cartazes que pedem uma vida digna. De um lado, é preparada uma grande panela de comida, do outro lado, crianças brincam, fazem desenhos, conhecem os primeiros «amigos da luta». Durante a tarde houve aulas de boxe popular, oficinas de zines, espalhou-se por todos o novo jornal da Acampada e muitos sentaram-se ao sol a ler em voz alta as opiniões, poemas e reflexões sociais. Há um grupo de amigos que toca os seus instrumentos e quem passa junta-se sem pudor e outro grupo está sentado num canto a desenhar num pequeno caderno como devem ser feitos os arruamentos entre as tendas. Enquanto se passeia pela Praça e se experienciam todos estes momentos, é impossível esquecer a causa que nos trouxe ali: o Direito à Habitação.
Naquela praça, suspendemos a dura realidade do quotidiano e damo-nos permissão para escutar, para dançar fora de quatro paredes, para refletir, para estarmos juntos.
Os dias vão passando e, entre assembleias populares, grandes manifestações e cargas policiais, já passou pelo Rossio um leque de oferta cultural como já não tínhamos em Lisboa há muito tempo: diverso, com várias formas de falar português e sobretudo acessível para todos.
Quantos locais em Lisboa ainda nos dão espaço e oportunidade para isso? Não será a programação cultural da acampada também uma grande (senão a maior) forma de protesto?
Os dias vão passando e, entre assembleias populares, grandes manifestações e cargas policiais, já passou pelo Rossio um leque de oferta cultural como já não tínhamos em Lisboa há muito tempo: diverso, com várias formas de falar português e sobretudo acessível para todos. Acho que, nestas últimas duas semanas, vi mais concertos de artistas portugueses do que o ano inteiro. Assisti a concertos da Ana Moura, do Xullaji, do B Fachada, do Goya, da Sallim, do Coro da Achada, e tantos outros que encheriam este texto. Com uma tela e um projetor no meio da praça, pudemos ver filmes que não passam nos cinemas dos centros comerciais, ouvir e participar em discussões políticas, sociais e pensar juntos no futuro que queremos construir.
O meu pai brinca que há muito tempo que não se via tantos portugueses na Baixa, e é verdade. Há muito tempo que não ia tantas vezes até ao Rossio. Trabalhei dois anos naquela zona e sempre senti que não podia estar ali fora das horas de deslocação casa-trabalho-trabalho-casa. As ruas da Baixa da nossa cidade cobrem-se de lojas de experiências requintadas, de souvenirs, de oportunidades para fotografias meticulosamente pensadas e é cada vez mais comum sentirmo-nos deslocados no bairro onde crescemos, e que agora está moldado para os que visitam.
Este sentimento espalhou-se por toda a cidade quando a crise da habitação saiu apenas das casas e foi bater à porta dos «terceiros espaços». Passa por Lisboa uma onda de encerramento de espaços culturais que já não aguentam a renda, outros que estão permanentemente em risco de fechar, espaços que foram empurrados para fora da cidade e assim temos cada vez menos oferta cultural e espaços de lazer na cidade. Isto já não é novidade para ninguém, não preciso de me alongar a explicar a crise de gentrificação e turistificação que Lisboa tem sofrido nos últimos anos. É impossível que até os mais «distraídos» não tenham reparado nisso, nem que seja porque o bar onde iam sempre ouvir música às quintas é agora uma pastelaria - perdão, uma Coffee House - com matcha latte e croissants de sementes de girassol a 13€.
Passa por Lisboa uma onda de encerramento de espaços culturais que já não aguentam a renda, outros que estão permanentemente em risco de fechar, espaços que foram empurrados para fora da cidade e assim temos cada vez menos oferta cultural e espaços de lazer na cidade.
A nossa geração que está constantemente a contar trocos, parece que pôr um pé fora de casa significa automaticamente que temos de gastar dinheiro. Numa sociedade que romantiza viver para o trabalho e glorifica o burnout, ter numa das praças mais icónicas e centrais de Lisboa a oportunidade de encontrar amigos e conversar depois de um dia de trabalho é uma grande forma de manifestação. Dançar ao som de Anti-Fado com uma tigela de sopa na mão e discutir a seguir o que sonhamos para o nosso futuro, é um grito bem alto pelo direito ao acesso à Cultura, pelo direito ao descanso, pelo direito a estarmos juntos.
A realidade pisca o olho ao cómico quando nos apercebemos que o maior inimigo da Acampada de Lisboa é o Mercado de Natal do Rossio, um evento que espelha perfeitamente o que esta cidade está a sofrer. Depois de 19 dias de protestos sobre a Habitação, depois de momentos graves de violência policial, o Presidente da Câmara Engenheiro Carlos Moedas abre disponibilidade para falar com os manifestantes. Para responder às preocupações das pessoas sobre os preços das casas? Para anunciar novas soluções? Claro que não. Está preocupado com a imagem que a manifestação dará aos turistas que querem beber a sua tradicional Piña Colada natalícia a 15€ e pede que a Acampada mude de sítio. Não acha, caro Presidente, que já pediu aos lisboetas para saírem dos seus espaços demasiadas vezes?
A luta pela Habitação nunca foi só sobre casas para viver. Também é sobre ter espaços para a Cultura. Impedir e regular esta subida exorbitante das rendas vai poder devolver à cidade, além dos espaços de convívio e consumo cultural, os seus espaços de criação cultural, as salas de ensaios, os ateliers de pintura, os estúdios de fotografia, os estúdios de música - as Casas da Cultura.
Eu prefiro - e orgulho-me - que as praças da minha cidade tenham um leque diverso de concertos, que tenham espaço para as crianças brincarem, que tenham coros a ensaiar, flautistas a dar música para amigas que bailam juntas. Prefiro que seja tudo acessível, que não tenhamos de gastar uma nota larga só porque saímos na estação errada na Linha Verde do metro.
A luta pela Habitação nunca foi só sobre casas para viver. Também é sobre ter espaços para a Cultura. Impedir e regular esta subida exorbitante das rendas vai poder devolver à cidade, além dos espaços de convívio e consumo cultural, os seus espaços de criação cultural, as salas de ensaios, os ateliers de pintura, os estúdios de fotografia, os estúdios de música - as Casas da Cultura. Uma cidade com arte para todos e todas é uma cidade que cresce, que tem acontecimentos, que recebe gente, é uma cidade que reflete sobre si mesma e sobre o mundo, é uma cidade que se exalta. Quem me dera que Lisboa fosse uma cidade com arte para todos e todas. Para já, resta-nos a Acampada a resistir, a resistir.
Foto de capa: Joana Pereira