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Vânia Couto: «Sinto a esperança de ver o povo a acordar»

Vânia Couto: «Sinto a esperança de ver o povo a acordar»

Vânia Couto é música e, em palco, tem a força de exércitos inteiros. Em 2022, na ressaca da pandemia, criou em Coimbra o Coro das Mulheres da Fábrica, um coletivo dedicado a música tradicional que, a partir daí, nunca mais parou de crescer, conhecendo momentos marcantes, como a residência artística e espectáculos com A Garota Não ou a presença para cantar no Parlamento. Nesta entrevista, revisita o processo e não poupa nas críticas ao Governo e às violentas intervenções contra as manifestações pela Habitação. E também aborda o imparável movimento Primavera dos Coros: está aí o Coro das Mulheres do Bairro, na Figueira da Foz, e em março/abril nascerá o Coro do Mar, na Madeira.


É a maestrina do Coro das Mulheres da Fábrica: como nasceu este coro?

O Coro das Mulheres da Fábrica nasceu há cerca de quatro anos. Isto foi na época pós-pandemia, mais ou menos. Na altura, sentia vontade de pertencer a alguma coisa, a algum coletivo. Eu e, talvez, a grande maioria das pessoas. Eu sou música, faço a minha música, a minha vida profissional, fui recebendo umas mensagens mais ou menos assim: «Gostava muito de integrar um coro de música, mas queria que fosse de música tradicional, não queria que fosse gospel, não queria que fosse clássico...» E pensei: «Olha, nós não temos isso aqui, na verdade.»

O Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC), que é a minha escola, trabalha na dança e na música, mas não há um coro propriamente. Há uns anos, no próprio GEFAC, tentei fazer um coro de mulheres, uma polifonia, mas a escola considerou que, de acordo com os seus estatutos, não fazia sentido, porque tinha um outro tipo de trabalho, depois apareceu o Covid, enfim... Eu até nem tinha pensado num coro, tinha vontade de pertencer a algo, mas até pensei em juntar-me a uma equipa de hóquei feminino, era o que estava na minha cabeça [risos]...

Como recebia aquelas mensagens, pensei que podia falar com alguém para arranjar um espaço. Pensei em vários e lembrei-me de uma pessoa a quem admiro muito pelo seu trabalho, a Élia Ramalho, que tinha aberto há pouco tempo uma galeria - o Atelier Fábrica - numa antiga fábrica de camisas e que se transformou num espaço de arte. Lembrei-me que ela é super disponível, abre a porta a toda a gente, não há cores, bandeiras ou tipos de artes. Aí, decidi marcar um ensaio, coloquei uma coisa no Facebook e noutras redes sociais para as quartas-feiras e lancei a ideia de um coro comunitário intergeracional e de um modo mais agregador.

No fundo, não importava que cantasse bem ou mal, o que importava era gostar de cantar. Seria aberto, com música popular do mundo, não só portuguesa, desde que fosse tradicional era bem-vinda. E escrevi assim mesmo - Coro das Mulheres da Fábrica, porque se é na fábrica, é um coro e é de mulheres, faz todo o sentido! Claro que já tinha, ao longo da minha vida enquanto música, um intenso trabalho ao lado no que respeita à ação e à procura da igualdade de direitos e de género e pensei: «Ok, vou aqui misturar as coisas.»

Pensei que iam aparecer umas seis/sete pessoas... E, no dia a seguir, apesar de eu ser só uma pessoa insignificante aqui neste mundo, tive indicação de umas 40 partilhas, não sei quantos likes...

E, de repente, aquilo foi um choque para mim, porque não esperava. Nessa quarta-feira do ensaio, quando cheguei lá, em vez de ter seis pessoas, porque pensei que ia fazer uma pequena bandinha para me divertir, tinha quarenta e tal mulheres à minha frente. Fiquei superfeliz, mas também muito nervosa, porque nunca na minha vida tinha regido um coro, não tive direção artística nem nada, e de repente percebi que havia dezenas de mulheres a quererem o mesmo que eu: estar juntas, cantar juntas, encontrarem-se.

Falei com elas, começaram a partilhar o que gostavam que isto fosse. Lembro-me, inclusive, de uma mulher, a Katrine, uma alemã que está cá há muitos anos, neste momento até noutro coro, mas que na altura disse: «Sempre quis fazer parte de um coro e queria cantar algo que me diz muito, a Canção Sem Medo, onde se fala sobre feminicídio, uma canção interventiva.» E eu respondi: «Pronto, então é neste coro que o vais fazer.»

Foto: Meru Freire

E isso foi muito importante, porque aí começámos a definir as canções e, de repente, aos bocadinhos, eu própria fui desafiada pelas mulheres: «Nenhuma de nós percebe muito de música, tu és a única, portanto, deves ser a maestrina.» E eu: «Ok, então pronto, vamos fazer isso.»

E agora, passado este tempo, têm 100 mulheres no coro. Ou mais?

Neste momento, são tenho cerca de 120 mulheres inscritas. Normalmente nos concertos temos entre 80, 90, às vezes 60, depende. É isso um coro aberto a todas as mulheres, em que cantamos o que elas querem, e tornou-se cada vez mais, interventivo. E não apenas em função dos direitos da mulher, mas falamos de todos os direitos - a velhas questões sobre a paz, o pão, habitação, saúde, educação, como na canção do Sérgio Godinho, o ser jovem, está tudo incluído.

E já cantaram em locais como o Parlamento, embora, por certo, cada reunião vossa seja um momento alto para vocês? Porque é ir ao encontro do sonho, ou se calhar até mais do que sonharam...

Sem dúvida, já ouvi dizer que somos uma espécie de utopia... Isso é muito bonito, uma utopia, aliás, um jornal até nos classificou assim e isso ficou connosco. É um coletivo e, quando se junta para cantar, é isso mesmo, muito emotivo. Cantamos todas juntas e isso dá-nos uma força incrível. Como também no trabalho que fazemos, não só nos encontros quando vamos cantar a um lugar. Antes disso trabalhamos a canção, o tema: porque é que estamos a cantar? O que é que diz esta poética? Se estamos a cantar uma canção alentejana, não vamos cantá-la de uma forma lúdica, até porque o cantar alentejano não é claramente lúdico - é um ato político, na minha opinião, e é isso que fazemos no coro.

A Cátia, A Garota Não, com quem tivemos oportunidade de trabalhar, disse algo de que nunca mais me esqueci sobre nós: «Vocês são uma vaga.» É uma palavra muito bonita, é a sensação de que realmente chegamos como se fôssemos uma grande onda e, de repente, esta onda explode e não há como pará-la.

A Cátia, A Garota Não, com quem tivemos oportunidade de trabalhar, disse algo de que nunca mais me esqueci sobre nós: «Vocês são uma vaga.» É uma palavra muito bonita, é a sensação de que realmente chegamos como se fôssemos uma grande onda e, de repente, esta onda explode e não há como pará-la. Uma onda como a da Nazaré, digamos assim.

Estou dentro, tenho muita dificuldade em dizer o que se sente do lado de fora. Mas, lá dentro, sinto uma pertença imensa, sinto que cresci muito como mulher, sinto que aprendo imenso a estar em coletivo. Falamos de utopia, mas é óbvio que há discussões, debates, stress, porque somos mulheres e discutimos, debatemos, discordamos, decidimos - isso é o coro, não é só cantarmos juntas. Nesse aspecto, sim, temos uma força imensa quando cantamos, porque somos 80 ou 90 mulheres em cima de um palco, a dizer e a cantar.

Estamos a falar de pessoas que trabalham, domésticas, outras cuidadoras, docentes universitárias, secretárias de hospital, outras têm trabalhos completamente distintos. E, de repente, às vezes estão nas suas vidas, no seu trabalho, e alguém lhes diz que «o Coro da Fábrica é incrível, obrigada pelo seu trabalho». E elas sentem que são vistas. Essa capacidade de podermos ser vistas, enquanto mulheres no plano coletivo e no individual, mas também de podermos dizer aquilo que queremos a cantar ou a falar nos concertos, dá-nos uma voz. É com essa voz que nos transformamos quando cantamos e penso que aí ganhamos essa dimensão da vaga a que se refere a Cátia.

Compreendo essa ideia da vaga, porque vos vi em Coimbra e noutras ocasiões e a impressão com que fiquei foi logo a de que transmitem uma energia e uma força enormes a partir do palco. Como foi essa experiência de convidarem a Cátia para uma residência artística e de tudo o que resultou daí?

Eu não tenho palavras para descrever isso, não consigo. Mas o que posso dizer é que, quando fizemos a residência, na verdade foi um convite que veio da Blue House, uma produtora que existe cá em Coimbra e faz um trabalho maravilhoso. Ligou-me e disse-me assim: «Eu queria muito que tu e a Cátia, um dia, cantassem juntas. E, se fosse assim, um dia ia haver domingo no mundo.»

Achei muito bonita essa expressão, desde sempre adoro A Garota Não, é uma das minhas principais influências, e, de repente, ter essa oportunidade foi maravilhoso! Falámos, disse-lhe logo «claro que sim, isso seria incrível!». Entretanto, fomos falando, falei também do Coro das Mulheres da Fábrica, porque fazia ainda mais sentido do que propriamente ser apenas eu. E depois acabou por haver esse encontro e foi maravilhoso, porque a Cátia, nessa altura, ainda não tinha, e ainda bem, a visibilidade que tem - e acredito que ainda vai crescer muito mais!

Então, o encontro foi muito bonito. A Cátia de há dois anos é a mesma de hoje: superatenta ao mundo, atenta a todas, inclui toda a gente, observa e traz isso para as suas canções, em qualquer lugar, e ninguém é distinto. E tem uma presença incrível! Esse lugar da Cátia, muito humano, muito humilde, juntamente com o nosso, trouxe um encontro que não tem explicação.

Essa residência foi a primeira dela, dizia que estava super-nervosa e nós também, claro... Foi um abraço grande que demos umas às outras. Aquilo que a Cátia escrevia e as coisas que nós fazíamos tinham muito em comum. E a nossa forma de ser, sobretudo isso, permitia criar aquele espetáculo. E as pessoas ainda hoje vêm ter comigo e falam-me daquele concerto na residência artística de Coimbra. Ainda agora, quando fui fazer o Coro das Mulheres da Ilha, houve gente a falar-me disso, porque tinham vindo cá ver.

O Coro das Mulheres da Fábrica em Coimbra com A Garota Não

E, depois, ao longo do tempo, nós e A Garota Não encontrámo-nos mais vezes, fizemos o 25 de Abril, durante três dias, com ela e faço questão de dizer: tratou-nos como artistas também ao nível de orçamento, alimentação, estadia - ela arranjou isso tudo para 70 mulheres! Não é brincadeira, não é qualquer pessoa que faz isto e com um respeito imenso.

Mais do que cantar, e quero deixar isto bem claro, se calhar se nos entregamos daquela forma, e cantamos daquela maneira, é porque há um enorme respeito mútuo entre a Cátia e o coro, ou seja, não estávamos ao serviço da Cátia, nem a Cátia estava ao nosso serviço.

Mais do que cantar, e quero deixar isto bem claro, se calhar se nos entregamos daquela forma, e cantamos daquela maneira, é porque há um enorme respeito mútuo entre a Cátia e o coro, ou seja, não estávamos ao serviço da Cátia, nem a Cátia estava ao nosso serviço. Fizemos concertos juntas, e esse encontro prolongou-se com os convites que foram surgindo e com muita felicidade nossa. Esses concertos refletem aquilo que o público diz, crescemos muito enquanto mulheres e enquanto cidadãs, enquanto Coro das Mulheres da Fábrica. Isso deu-nos muita força. Continuamos a ser um conjunto de mulheres a cantar às quartas-feiras e isso é a beleza de tudo isto.

Claro que sabemos que temos impacto, e esse impacto dá-nos responsabilidade, não nos aumenta o ego como se agora fôssemos muito importantes. Somos só um coro que, quando canta, sabe que exerce impacto com responsabilidade. E a Cátia tem isso também, porque, quando canta, faz tudo com um sentido, e nós igual. Então, isso permitiu-nos criar um laço muito forte.

Posso partilhar que, no dia do concerto no Palácio Baldaya, em Benfica, antes de entrarmos no palco, fazemos um aquecimento. E a Cátia veio fazer connosco o aquecimento - podia estar no seu cantinho, sossegada, a preparar a sua voz, mas não, abraçou-nos a todas e tivemos um momento em que cantámos e chorámos. Mas esse choro não é de todo vulnerável; é um choro humano, é um choro de quem quer cantar junta para dizer e fazer alguma coisa neste mundo, cada vez mais distante de si mesmo e da humanidade. Quando cantamos somos muito humanas, a humanidade vem ao de cima, e as pessoas do outro lado também o sentem. Essa vulnerabilidade de chorar, de rir, essa vulnerabilidade que é tão humana: é isso que precisamos trazer de novo.

Acredito que um dia haverá o movimento das Forças Cantadas, assim como foi o movimento das Forças Armadas. E vejo o Coro da Fábrica e os restantes coros assim.

A música tradicional, estas Mulheres Unidas, e a Cátia nessa altura, tudo isso permitiu-nos ter esses momentos que são um prato de esperança. Como costumo dizer, acredito que um dia haverá o movimento das Forças Cantadas, assim como foi o movimento das Forças Armadas. E vejo o Coro da Fábrica e os restantes coros assim.

Que avaliação faz às manifestações no Porto, em Lisboa, em Coimbra, a propósito da crise na Habitação? E também da situação do ponto de vista não só da habitação, mas daquilo que é a subida do custo de vida e a forma como as pessoas estão a tentar sobreviver às dificuldades de todos os dias?

Sinto-me completamente indignada com tudo isto, e creio que todos nos sentimos, porque estamos a falar dos direitos básicos de vida, e é impossível não sentirmos alguma empatia. Nem tenho uma palavra para dizer em relação ao Governo. E não falo só do Governo, mas também de uma parte da oposição. Penso ser necessário unir e sinto que há muita desagregação entre as próprias comunidades políticas.

Nem comento aquilo que Montenegro e os restantes ministros têm feito, inclusive estas últimas afirmações relativamente às nossas manifestações... Porque nós somos o povo e o povo é quem decide, seja qual for a decisão. Somos nós que pagamos a estas pessoas para estarem na Assembleia, somos nós que contribuímos para que isto continue a acontecer. Ouvir um ministro dizer que são gritos, e que não vão ouvir esses gritos, mas também o facto de falarem de egoísmo - claramente a lembrar o Passos Coelho, que decidiu agora reaparecer de uma forma completamente ridícula... Porque não nos esquecemos que nos mandaram emigrar, não nos esquecemos da austeridade, e daquela grande manifestação a propósito da TSU, isto não se esquece e eu não me esqueço como cidadã. E nem falo enquanto música, porque esse meu trabalho é um serviço público, assim como os políticos e governantes o deveriam fazer.

A esperança que sinto é de que o povo está a acordar, a perceber o que está a acontecer e quer sair à rua e dizer o que entende ter a dizer.

Por outro lado, sinto uma grande esperança, porque este tipo de discurso, este ataque do próprio Governo, que devia ouvir as chaves a tilintar nas manifestações, e escutar aquilo que está a ser dito, leva-nos a agir: por exemplo, a realidade de rendas completamente absurdas, e só quem é dono de mais de 55 propriedades é que pode ter uma ideia diferente. A esperança que sinto é de que o povo está a acordar, a perceber o que está a acontecer e quer sair à rua e dizer o que entende ter a dizer. E se, como Passos Coelho, não nos derem ouvidos, as coisas podem ficar mais problemáticas. E não só para o Governo, mas em função do que está a acontecer com a extrema-direita, muito assustador e preocupante.

Irmos para a rua, termos as pessoas a cantar e a manifestar-se porque sentem e precisam de respirar, é uma forma de dizermos que tem de ser possível viver num país com direito a uma casa para viver e a comida para comer. Não estamos a pedir muito, estamos a pedir direitos básicos.

[A carga policial no Porto] foi inadmissível, desumana, contra a nossa Constituição, contra as nossas leis básicas, contra aquilo que são os valores de Abril. Foi criminoso! Foi intolerável a atitude da polícia contra pessoas que não estavam a manifestar-se de forma violenta.

E como avalia as palavras iniciais do presidente da Câmara do Porto, dizendo que seria implacável com a situação na Praça Dom João I, e depois aquela carga policial sobre manifestantes?

Eu creio que o povo é que vai ser implacável perante essa resposta. E espero que o abaixo-assinado para a sua demissão produza resultados. Foi inadmissível, desumano, contra a nossa Constituição, contra as nossas leis básicas, contra aquilo que são os valores de Abril. Foi criminoso! Foi intolerável a atitude da polícia contra pessoas que não estavam a manifestar-se de forma violenta. E se fossem violentos, se calhar até tinham motivos porque ação gera reação. Mas não vamos seguir esse mau exemplo e vamos continuar a ter a nossa atitude não violenta. Porque enquanto houver democracia, e enquanto os valores de Abril existirem, vamos continuar a erguer a voz! Há uma canção de que gosto muito, tenho ouvido nas ruas e é assim: «Se eu for presa por cantar/não calarei a garganta/Eu sou como o passarinho/que até na gaiola canta.»

Foto: Coro das Mulheres da Ilha (Ponta Delgada, Açores)

Entretanto, os protestos em Lisboa e no Porto foram desmantelados pela PSP: que conclusões retira dessas intervenções?

Acordar de manhã com os telejornais e as rádios a darem notícia da violência às 5 da manhã, de forma completamente inesperada, em desacato e em relação a pessoas que estão apenas a fazer uma manifestação sem incomodar ninguém, mantendo tudo limpo, mantendo a ordem, mantendo uma cozinha comunitária, é desolador. E considero extraordinário que este Governo seja surdo, implacável com os seus próprios cidadãos e com quem o escolheu. A violência é inaceitável. E se alguma vez o Montenegro disse que estávamos a ficar influenciados pelas atitudes de Espanha e França, parece-me que eles é que estão a ficar influenciados pela forma como a extrema-direita e como os governos desses países têm sido implacáveis, violentos, corrosivos e desumanos face à nossa liberdade para nos manifestarmos. E sobretudo por uma causa que é de todos ou, pelo menos, daqueles que não têm 55 imóveis e só querem uma casa para viver. Entram pelas nossas casas, retiram-nos tudo, violentam-nos de todos os modos, na comida, nos combustíveis, no modo de estar, na saúde, na possibilidade de ir ao médico, mas isso parece que não chega e ainda rebentam com as nossas tendas. Olham para nós como fazem com os sem-abrigo que, infelizmente, também não têm casa. E o modo como agiram é um crime, é desmoralizante, vindo de um Primeiro-Ministro que não tem valores. Como cidadã e como parte do Coro das Mulheres da Fábrica, vamos continuar a lutar por valores básicos da nossa vida, pelos valores de Abril e por aquilo que a Constituição exige. Enquanto operária da voz, continuarei a usar a minha de cada vez que houver uma injustiça. E esta é bem clara.

Entram pelas nossas casas, retiram-nos tudo, violentam-nos de todos os modos, na comida, nos combustíveis, no modo de estar, na saúde, na possibilidade de ir ao médico, mas isso parece que não chega e ainda rebentam com as nossas tendas.

Em paralelo, também construíram o movimento da Primavera de Coros por esse país fora: em que ponto está?

O movimento Primavera de Coros nasceu através da Matilde Simões, uma das mulheres do Coro da Fábrica, que decidiu criar esta plataforma no ano em que o Coro foi cantar ao Parlamento. Neste momento, há mais de 60 coros por todo o país. E tudo começou porque a Matilde decidiu fazer uma plataforma no Whatsapp, uma coisa simples, em que pudéssemos unir as pessoas de todos os coros do país. As pessoas juntaram-se, e estamos a falar também de alguns coros que já existem há décadas e de coros criados há menos tempo... No 25 de Abril apareceram mais de 40 coros para cantarmos juntos! Desde então, esse tem sido o nosso encontro principal, mas também temos feito encontros regionais. Para dar exemplos: temos em Lisboa, no Porto, em Coimbra, e depois temos as regiões - Beira Interior, Algarve e por aí fora. Por isso, o meu sonho é que, um dia, quando for preciso sair à rua em massa, todos os coros estarão unidos. Também por isso lhe chamo o Movimento das Forças Cantadas.

Queremos que o Governo nos ouça, mas, já que não gosta de nos ouvir gritar, então cantamos.

Estes coros são todos independentes, não têm qualquer ligação a partidos políticos. Agora, com este movimento em relação à habitação, os coros também aumentaram de expressão. Começámos com cerca de 200 pessoas e já estamos perto das 3.000 a cantar juntas. Queremos que o Governo nos ouça, mas, já que não gosta de nos ouvir gritar, então cantamos.

Esse movimento, e a forma como as pessoas se juntam para cantar, é uma espécie de progressismo em ação?

Sim, penso que sim. Acima de tudo, vejo-o como um conjunto de pessoas desesperadas até por estarem juntas, porque a forma como são usadas as redes sociais e as tecnologias nos conduziu a isto. Há uma grande solidão. Há um conjunto de convenções e de preconceitos que nos fazem ser uma pessoa em determinados sítios, no trabalho, na vida, mas ali, naquele encontro do coro, costumo dizer que estamos nus. Não há extrato social, não há convenções, não há nada que nos impeça de estarmos em união. E isso é tão difícil nos tempos de hoje. Porque as coisas são pretas ou são brancas; é claro ou escuro. Mas ali é cinzento e esse cinzento significa que temos algo para dizer: estamos cansados e queremos recuperar os valores de Abril, a democracia, a Constituição, que é tão bonita e não precisa ser alterada.

Estamos cansados e queremos recuperar os valores de Abril, a democracia, a Constituição, que é tão bonita e não precisa ser alterada.

Não tem a ver com bandeiras nem com ideologias. É inclusivo, estão pessoas de todos os lados, de todos os tipos, com ou sem necessidades educativas, com ou sem deficiência. Estão lá todas. Isso dá-nos muita força, está a crescer a cada dia que passa e temos de agradecer ao Governo por nos inspirar ao fazer aquilo que não deve. Pretendemos unir. E temos pessoas de todos os quadrantes políticos. Nós nem sabemos, porque não é isso que nos importa. Ainda agora, em Coimbra, tínhamos a CGTP, o Partido Comunista, o LIVRE e outros partidos. Por exemplo, no Coro da Fábrica, temos pessoas de direita, de centro e de esquerda. E isso permite-nos chegar mais longe na forma como construímos uma canção. Ou do que queremos dizer. Sei que é uma manifestação de que as pessoas necessitam, porque querem um sentimento de pertença e pretendem ser ouvidas. Além disso, sentem empatia por verem pessoas a ser despejadas; as cidades corrompidas pelo turismo em excesso; as rendas exorbitantes que estão a destruir-nos as vidas; no fundo, os cartazes e as canções que vemos dizem tudo.

Também preciso de sentir esperança e de ver que há muita gente a pensar e a cantar como eu e que não estou maluca! Porque insisto: queremos a paz, o pão, habitação, saúde, educação.

É insuportável e não dá mais! Há sempre motivos para ir para a rua e, quando saem, as pessoas emocionam-se, sentem-se felizes, sentem a esperança de que não estão sozinhas nas suas opiniões. Aquilo que é dito nas redes sociais não é bem o que acontece na realidade, também há muita sensação e não a verdade. Sentimo-nos um pouco perdidos e, por isso, andamos à procura. Também preciso de sentir esperança e de ver que há muita gente a pensar e a cantar como eu e que não estou maluca! Porque insisto: queremos a paz, o pão, habitação, saúde, educação.

Foto de capa: Tiago Cerveira

Paulo Jorge Pereira

Paulo Jorge Pereira

Nasceu a 13 de agosto de 1970 em Lisboa. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH), a paixão pelo Jornalismo levou-o a trabalhar, a partir de 1992, em jornais como A Bola, Record, Diário Económico e Jornal Económico. Em 2017 trabalhou no Sindicato dos Jornalistas e publicou o romance "Filhos da Primavera Árabe". De janeiro de 2018 a maio de 2019 foi chefe de redação do semanário Contacto, jornal português no Luxemburgo. Publicou, em outubro de 2020, o livro "Murro no Estômago". Em maio de 2021 entregou a Carteira Profissional de Jornalista e, até maio de 2024, foi assessor de imprensa do Ministério do Ambiente e da Ação Climática. Em novembro de 2023 publicou o romance "Filho da PIDE". Desde setembro de 2024 é assessor de imprensa do Grupo Parlamentar do LIVRE.

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