Hugo Gonçalves: «O que vem da extrema-direita é de um vazio tremendo»
Nesta entrevista, Hugo Gonçalves viaja pelo universo do mais recente romance, O Império do Fim, mas também pela atualidade social e política.
Empatia radical foi um termo cunhado pelo filósofo britânico Matthew Ratcliffe em 2012, então aplicado à esfera pessoal, como forma de superar a crescente fragmentação do mundo. O seu pressuposto implica a aceitação do Outro como ser que experiencia o mundo de forma radicalmente diferente da nossa, ao contrário da empatia convencional, onde o princípio é o das estruturas partilhadas.
Seria o equivalente a abandonar a visão eurocêntrica do mundo em situações onde os contextos são diametralmente diferentes dos da nossa realidade e, ao invés, de apresentar soluções para situações como a da Palestina, trazer os visados para a discussão.
Nina Power, filósofa e crítica cultural, ressignificou politicamente a expressão, aquando da primeira eleição de Trump, a partir da quantidade absurda de mortes de negros às mãos da polícia, questionando a razão de tão pouca indignação, embora os EUA sejam tradicionalmente mais reivindicativos do que Portugal. Basta comparar os casos de Rodney King ou George Flanders com os de Cláudia Simões ou Odair Moniz.
Teremos um problema colectivo de inteligência emocional ou meramente organizativo? Precisamos de situações-limite como ditaduras, a troika ou catástrofes naturais para desenvolver empatia, ligeira, moderada ou radical?
Olhando para o que aconteceu recentemente em Madrid com Maricarmen, quando meio milhão de pessoas se juntaram, não apenas para defender o seu direito individual à habitação mas o geral, acampando na praça das Portas do Sol, é imperativo repensar Portugal à luz da nossa inépcia, inércia ou letargia. Teremos um problema colectivo de inteligência emocional ou meramente organizativo? Precisamos de situações-limite como ditaduras, a troika ou catástrofes naturais para desenvolver empatia, ligeira, moderada ou radical?
Assistindo ao que acontece com os estudantes franceses, vítimas do mesmo descalabro estrutural dos portugueses, aos quais se juntam os universitários, família e amigos, fica claramente demarcada a linha que separa reivindicações unicamente pessoais, como a progressão de carreira, da vontade de reformular todo o ensino, não para nos preparar melhor para o mercado de trabalho, mas para nos preparar melhor para lidar com a sua autocracia.
O efeito catártico e consumidor de força anímica que o futebol exerce, consumindo mais do nosso tempo colectivo a discutir o significado e o pretenso impacto da saída de CR7 da selecção em vez da nossa permanência no banco no único jogo onde podemos fazer diferença - o do quotidiano - não pode ser a única explicação, pois há países tão apaixonados pela modalidade que tanto vitórias como derrotas costumam redundar em violência.
No seu discurso sobre empatia radical, Nina aponta a insuficiência da empatia, dada a incapacidade de algumas pessoas se imaginarem no lugar do outro, perpetuando assim a inacção. Esta pode ser uma pista para a habitual apatia de Portugal perante o seu descalabro multimodal, aliada ao cansaço por overdose via sobreexposição permanente a todos os problemas que afectam simultaneamente o mundo.
A audição no Parlamento sobre as questões LGBT ilustra na perfeição a nossa deficiência empática actual, quando a argumentação dos críticos dos direitos trans se fundamenta na aplicação do erário público e numa decrépita versão da moralidade cristã, afinal a sua perversão.
A radicalidade torna-se necessidade, por um lado para contrabalançar a crescente tendência para o ódio e, por outro, para evitar os efeitos perversos da empatia, que podem resultar no apagamento ou desvalorização do outro, ao considerar a sua resposta desproporcionada face ao que cada um de nós considera uma atitude razoável.
A audição no Parlamento sobre as questões LGBT ilustra na perfeição a nossa deficiência empática actual, quando a argumentação dos críticos dos direitos trans se fundamenta na aplicação do erário público e numa decrépita versão da moralidade cristã, afinal a sua perversão.
Ninguém é mais capacitado para falar sobre a sua própria condição do que pessoas trans, e talvez as directamente envolvidas no processo de mudança de género. As restantes têm o direito à incompreensão e até à oposição, mas esse direito termina quando oprime, interfere ou esmaga o Outro, precisamente porque esse exercício da autodeterminação de género não colide em rigorosamente nada com a existência de terceiros.
Franz Fanon, enquanto psiquiatra, demonstrou como as metodologias supostamente racionais e neutras definham os nossos sentimentos. Quando dava consulta a uma idosa, compreendeu quão profundamente a sua posição de analista objectifica o outro e destrói a capacidade de ser afectado pela experiência e pela pessoa, circunscrito por um modelo meramente teórico, intocado pelo real.
É urgente abolir a distância entre nós, de forma a sermos tocados e contagiados pelo outro, permitindo que a transformação aconteça, não só por fricção, o modelo em voga, mas por identificação.
Esse episódio revela como é urgente abolir a distância entre nós, de forma a sermos tocados e contagiados pelo outro, permitindo que a transformação aconteça, não só por fricção, o modelo em voga, mas por identificação. Ou compaixão, como diria Dōgen, mestre zen japonês do séc. XII.
Algo crescentemente mais difícil, dada a nossa interacção se resumir aos meios digitais, comerciais ou ambos. Esterilidade e frieza atribuídas por Fanon aos meios de avaliação psicológicos ecoam no nosso presente ultratecnológico, com a internet a substituir a experiência multissensorial e encerrando o Outro em categorizações fundadas na sua personagem virtual.
Tal como Bell Hooks, no seu livro Raving, McKenzie Wark, uma mulher trans da academia, constrói a crítica social a partir dos sentidos na relação com o Outro, sobre a qual se edifica um lugar político para o sentimento, sem se cingir apenas ao intelecto. Esta ideia torna-se tão mais importante quando mais se institui a desmaterialização cultural da humanidade, num processo de expropriação da sua existência corpórea e dos artefactos culturais pelo totalitarismo das Big Tech, entidades supra-estatais para lá do alcance de qualquer escrutínio político, quanto mais popular.
Seja qual for a ideia de natureza humana que advoguemos, a de Hobbes, a de Rousseau, a de Papalagui, a de Kondiaronk ou a sua multipluralidade, em todos os cenários a nossa indiferença perante o sofrimento alheio e consequente abandono do comunitarismo acabará, em última instância, por nos ser fatal no cenário Mad Max assolado por crises de petróleo, violência extrema e guerras pela água que começa a instalar-se.
Mesmo aí a solitária e vingativa personagem de Mel Gibson compreendeu que necessitava de aliados, parceiros, amigos e, quem sabe, amantes.
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Nesta entrevista, Hugo Gonçalves viaja pelo universo do mais recente romance, O Império do Fim, mas também pela atualidade social e política.
O tamanho da conta bancária não dá o direito a ninguém de se pôr à frente do grupo em que está inserido nem de prejudicar aquele em prol do gáudio individual.
Não é um acaso que a derrapagem acelerada da política para a extrema-direita coincida com a predisposição dos algoritmos nesse mesmo sentido. É agora claro como é parte de uma estratégia concertada onde Musk e Zuckerberg trabalham para distorcer a nossa percepção da realidade.