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28.09.2026 Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor Sociedade Tecnologia Política Opinião

Quem tem medo de Virginia Woolf? A Meta. O esvaziamento como aculturamento às redes sociais

Quem tem medo de Virginia Woolf? A Meta. O esvaziamento como aculturamento às redes sociais

O encantamento com a tecnologia é um sintoma de esperança na espécie humana para os que tendem mais para o lado de Rousseau do que de Hobbes. Gonçalves Correia nela viu o caminho para a salvação e Marinetti, de uma forma diferente, também. Também nós, mesmo antes do COVID que julgámos fazer de nós melhores humanos, louvámos a tecnologia como ferramenta de libertação para uns e de democratização para outros.

Mas a Primavera Árabe foi o momento de viragem nessa fantasia destinada a ser de curta duração, simultaneamente construindo a ilusão de liberdade nas redes sociais e funcionando como ensaio para um constrangimento, mascarado de neutralidade, por corporações cuja escala suplanta os meios de comunicação tradicionais, sem qualquer sujeição ao mesmo escrutínio público de cidadãos e instituições.

No caso das redes sociais, não só estamos cada vez mais longe de deter os meios de produção como nos submetemos voluntariamente ao seu feitiço.

No caso das redes sociais, não só estamos cada vez mais longe de deter os meios de produção como nos submetemos voluntariamente ao seu feitiço, desconsiderando a irrefutável verdade de Audre Lorde sobre as ferramentas do mestre serem inúteis para desmantelar o seu quartel-general.

Não é um acaso que a derrapagem acelerada da política para a extrema-direita coincida com a predisposição dos algoritmos nesse mesmo sentido. É agora claro como é parte de uma estratégia concertada onde Musk e Zuckerberg trabalham para distorcer a nossa percepção da realidade - numa crescente dependência de ecrãs -, fabricando um clima de medo constante que parece colocar-nos na obrigatoriedade de escolher entre segurança e liberdade, quando uma depende da outra.

Se parte do plano passa por empolar a comunicação da machoesfera, da fachoesfera e da achoesfera num suporte autoritário, a face menos visível é o silenciamento da esfera oposta. Não apenas asfixiando a exposição pública das suas ideias, habitualmente relacionadas com lutas pelos direitos humanos, mas também criando uma indiferença ao seu desaparecimento, também através do empolamento de questões sem expressão, aparentemente fracturantes mas sem efeito prático no quotidiano, hasteando-as como bandeiras ideológicas que afinal servem de véu sobre a crescente degradação das condições de vida.

Não é um acaso que a derrapagem acelerada da política para a extrema-direita coincida com a predisposição dos algoritmos nesse mesmo sentido.

Aqui se encaixam assuntos como a ideia de corrupção do Outro, o antagonismo cultural e outras fabricações cujo efeito duplo é capturar a atenção mediática e digital, conferindo relevância ao dramaturgo-mor, e ocultar medidas dificilmente reversíveis como a privatização da segurança social.

Essa dramatização surge também aliada ao esmagador sentimento de impotência individual perante a sucessão de acontecimentos, ora absurdos, ora inacreditáveis, em permanente cascata diária.

O efeito dessa conjugação é uma reconfiguração, primeiro das nossas ideias e depois da nossa linguagem, não repentina e obviamente, mas instalando-se antes por habituação e numa escala micro.

Se parte do plano passa por empolar a comunicação da machoesfera, da fachoesfera e da achoesfera num suporte autoritário, a face menos visível é o silenciamento da esfera oposta.

É no subtexto que o apagamento linguístico e cultural se opera, em pequenas cedências e numa escala de cedência quase imperceptível, mas que modela progressivamente o nosso comportamento.

Esta semana, uma companhia de teatro inglesa viu o seu anúncio rejeitado pela Meta, por considerar o tema de uma peça de Virginia Woolf como questão social – no caso, o feminismo. Na semana anterior, a minha editora viu o anúncio do livro de Mosab Abu Toha rejeitado por mencionar a palavra Palestina. Em 2024, anúncios para um jogo sobre a história do Supremo Tribunal americano e outro sobre o sufrágio feminino foram rejeitados por alegadamente abordarem questões sociais sensíveis. Em 2020, uma livraria canadiana tentou promover o lançamento do livro de Desmond Cole sobre racismo e resistência negra e o Facebook rejeitou o anúncio ao abrigo das regras sobre questões sociais. Estes são apenas alguns dos casos mais conhecidos, mas há muitos mais e todos com uma coisa em comum, já antes da directiva da Meta de 2025, sobre rejeitar anúncios relacionados com questões sociais: partem de uma perspectiva igualitária.

Trata-se, de acordo com a Meta, não das ideias, mas das palavras, o que nos coloca perante um dilema de onde é impossível sair vencedor. Ou aceitamos a decisão da Meta e vemos assuntos relacionados com direitos humanos afundados pelo algoritmo em detrimento dos influencers da extrema-direita ou aceitamos evitar palavras como direitos das mulheres ou Palestina, apagando os termos e com eles o seu significado histórico, substituindo-os por expressões suficientemente vagas para serem aceites, como «certas questões de género históricas» ou «o enclave no Médio Oriente onde a situação é crítica».

Desta forma, esvaziamos a palavra e cedemos a uma forma sofisticada de censura digital com as mesmas lógicas que Zeca Afonso foi obrigado a contornar ao empregar expressões como Avô Cavernoso para se referir a Salazar.

Embora não haja risco de prisão devido às ideias, não é esse o único traço de uma ditadura, sobretudo quando a omnipresença da Meta e da Space X é global, multidimensional e está infiltrada nos mecanismos governamentais que deveriam salvaguardar-nos deste mesmo cenário.

Desta forma, esvaziamos a palavra e cedemos a uma forma sofisticada de censura digital com as mesmas lógicas que Zeca Afonso foi obrigado a contornar ao empregar expressões como Avô Cavernoso para se referir a Salazar.

Depois do êxodo dos públicos do real para o digital e da insistência dos media tradicionais em permanecerem um circuito fechado não representativo da sociedade - com a agravante de serem detidos por conglomerados económicos a reproduzir o esquema das redes sociais -, as associações, produtoras, editoras e artistas independentes a trabalhar ideias progressistas veem reduzidas as já pequenas hipóteses de promover o seu trabalho, sofrendo o equivalente a uma obliteração.

O resultado final será um trágico tríptico, já em formação.

Primeiro, com a expressão das ideias do fascismo do fim dos tempos, como Naomi Klein lhe chama, a surgir enquanto novo bom senso. Depois, com a redução dramática de alcance e exposição de opiniões que lhe são combativas e finalmente, e de modo mais subtil, com a nossa aculturação às redes sociais.

Nelas e por elas, só sacrificámos não só a nossa concentração e apreciação do mundo exterior, como criámos uma novilíngua para melhor adequação ao seu ambiente.

Esse dialecto em permanente restrição percorre o caminho inverso da linguagem, que se quer viva e dinâmica. Oferece um espaço cada vez mais reduzido para certas palavras e ideias sob pena de invisibilidade dos seus autores, num acto de extorsão tendo como único propósito o cancelamento por obsolescência programada.

Ao abandonar a gramática revolucionária (onde podem incluir-se medidas reformistas de progresso social), abrem-se frestas para os regimes totalitários, ideológicos e/ou económicos se apoderarem dela.

Tal aconteceu durante anos com expressões como luta de classes e anticapitalismo, ambas arredadas há muito do léxico das esquerdas e de parte da sociedade civil. Ou com a palavra revolução, primeiro pervertida pela indústria publicitária e agora cooptada pelos, outrora, reaccionários.

Ao abandonar a gramática revolucionária (onde podem incluir-se medidas reformistas de progresso social), abrem-se frestas para os regimes totalitários, ideológicos e/ou económicos se apoderarem dela.

Devido ao seu excesso, caímos no erro de acreditar que não, mas as palavras são instrumentos determinantes para moldar a nossa interpretação da realidade. Basta apreciar todas as mudanças de nome propostas por Trump e a forma como, subrepticiamente, alteram a geopolítica e a nossa relação com o mundo ou o significado de alterar o nome de uma ponte, de Salazar para 25 de Abril.

Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor

Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor

Escritor, tradutor e editor da Traça Edições.

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