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Ouro, incenso e birra

Ouro, incenso e birra

Quando o meu filho, autista, tem uma crise, amiúde me perguntam por que razão está a fazer uma birra. E lá tenho eu de explicar a diferença entre uma birra e uma crise. Ou é porque entrou em sobrecarga sensorial num ambiente com demasiado ruído ou luzes várias, como um supermercado ou um centro comercial, a que agora somos obrigados a ir, dada a escassez de comércio local, fruto da descaracterização das lojas de rua e dos preços proibitivos das rendas que os arrendatários dos estabelecimentos foram obrigados a recusar e fechar negócios com décadas, para dar lugar às marcas da moda, iguais em qualquer parte do mundo e que enchem o bolso da mesma meia dúzia de proprietários. Ou porque a rigidez cognitiva não lhe permite uma rápida adaptação a uma brusca alteração de rotina, como, por exemplo, ir a um centro de saúde para uma consulta e, depois de horas de espera, não ter a dita, por não termos médico de família. E o Ministério da Saúde, em vez de reforçar o SNS com mais médicos, enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica, prefere gastar o dinheiro que deveria ser usado para tal na abertura de unidades de saúde privadas, fomentando, assim, o recurso aos privados, que sugam as fontes de financiamento alimentadas pelos contribuintes.

O Ministério da Saúde, em vez de reforçar o SNS com mais médicos, enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica, prefere gastar o dinheiro que deveria ser usado para tal na abertura de unidades de saúde privadas, fomentando, assim, o recurso aos privados, que sugam as fontes de financiamento alimentadas pelos contribuintes.

Não quero com isto dizer que o meu filho não tenha a sua birra de vez em quando, como é apanágio de qualquer criança de sete anos. No entanto, agora, já todos sabemos identificar o que é uma birra, e não vou ter de explicar a diferença vezes sem conta, não é? Não? Então, aquilo que o Cristiano Ronaldo fez quando abandonou o estágio da selecção nacional por Jorge Jesus não o ter deixado jogar a seu bel-prazer, pois toda a gente sabe que quem decide o rumo do jogo é um jogador individual e não o treinador e máximo responsável da equipa, não é? Isso é uma birra. Uma birra que resultou de um sentido de idolatria desmesurado que já não cabe no corpo e na mente de quem o carrega e que, de vez em quando, precisa de ser extravasado. A diferença é que vem de um homem com 41 anos e não de uma criança, cujo brinquedo preferido se partiu.

Ninguém nega o papel fundamental que teve ao longo de mais de duas décadas ao serviço da selecção nacional masculina de futebol, todavia, um jogador, sempre e também em fim de carreira, deveria ter a urbanidade de acatar as decisões do treinador e, até, dar exemplo aos jogadores mais jovens que virão ocupar o lugar que foi outrora seu. Mas a birra está feita, todos temos direito aos nossos cinco minutos de alarido por coisa nenhuma. Esse direito, contudo, extingue-se na esfera futebolística, e o resto da sociedade não tem de ser contaminada dias a fio com novos episódios da novela Cris e Jesus nas parangonas das capas dos jornais ou na abertura dos espaços noticiosos televisivos.

Em Espanha, milhares de pessoas lutam pelo direito a habitação; em França, os estudantes saem à rua em defesa da escola pública; no Brasil, assistimos a uma perigosa ascensão da extrema-direita, com a enorme ingerência dos Estados Unidos da América no processo eleitoral. Por cá, todos estes problemas nos assolam, aos quais se junta agora o Orçamento do Estado para 2027, que vem agravar ainda mais o custo de vida: reduzir o orçamento para a saúde, algo que não se via desde os tempos da Troika; descongelar o tecto máximo das propinas no ensino superior, para elitizar ainda mais o acesso ao mesmo e garantir que apenas os mais favorecidos financeiramente têm acesso a este nível de ensino; reduzir as verbas para a ciência e a inovação, porque o conhecimento é perigoso e pode trazer luz nas trevas em que nos movemos, entre tantas outras medidas que não cabem na carteira do povo, mas que irão, certamente, favorecer a fatia, cada vez mais fina, dos mais abastados, para os quais este governo tem trabalhado de modo incessante e incansável.

O tamanho da conta bancária não dá o direito a ninguém de se pôr à frente do grupo em que está inserido nem de prejudicar aquele em prol do gáudio individual.

Em tempos de crise, Luís Montenegro pede-nos para termos a «mentalidade Cristiano Ronaldo». Mas o que significa isso? Amuarmos quando não temos o que queremos? Fazer birra por irmos aquecer e, afinal, a bem do sucesso colectivo, não entrarmos em campo? O tamanho da conta bancária não dá o direito a ninguém de se pôr à frente do grupo em que está inserido nem de prejudicar aquele em prol do gáudio individual. Se todos passássemos a ter «mentalidade Cristiano Ronaldo», como pede o primeiro-ministro, neste momento estaríamos todos a não ir trabalhar até termos condições justas para tal, a não pagar a renda até garantir o contrato de arrendamento, a permanecer na Universidade até garantir que saímos de lá com um diploma, independentemente do nosso rendimento, a ir para um centro de saúde e não sair de lá sem um médico de família.

Talvez, se todos tivermos a «mentalidade CR7» que ele tanto apregoa, consigamos um país mais justo e equilibrado para todos e não apenas para o grupo de privilegiados para quem ele trabalha.

Rafaela Lacerda

Rafaela Lacerda

Bióloga, investigadora, escritora.

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