Mais uma Moeda, menos uma Volta
O verdadeiro drama social é ter as associações de moradores excluídas do conselho municipal de habitação, no qual estão representados os construtores civis, os agentes imobiliários e os proprietários.
Jorge Palma morreu. A frase custa a escrever, de tão absurdamente dolorosa. Precisei de um dia inteiro para perceber a verdadeira dimensão do que sinto. Dói mesmo. Durante décadas, Jorge Palma não foi apenas Jorge Palma, foi «o» Jorge Palma, com artigo definido atrás do nome, não apenas porque era nosso amigo mesmo sem o conhecermos pessoalmente, mas sobretudo porque definiu e moldou gerações inteiras, com a magia da sua poesia, da sua voz, do seu piano. Até o maldito cigarro parecia mágico.
O Jorge, seja então assim que o tratamos, foi uma daquelas presenças que fazem parte da mobília emocional do país. Da mobília cultural. Como o Tejo, a guitarra portuguesa, o vinho do Porto ou os pastéis de nata. Sabíamos que estava ali, para apreciar. Às vezes mais visível, outras menos. Mas estava. E, de repente, deixou de estar. Ou talvez tenha ficado de outra maneira. É nestes momentos que percebemos na pele que os imortais morrem, mesmo que nos fiquem cá dentro. Não é uma questão de acreditar que seriam biologicamente diferentes do resto da humanidade. Nada disso. Simplesmente ocupavam um lugar especial na nossa vida. Um lugar onde a velhice só existe para os outros. E o Jorge estava a caminho dos 80.
No meio desta dor, entra em cena Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal do Porto. Perdão, de Lisboa. O apelido devia ter servido de alerta. Porque quem tem moedas tem trocos.
A morte de um herói tem esse efeito de nos colocar à frente dos olhos a finitude dele e de nos recordar discretamente da nossa. É uma espécie de aviso enviado pelo universo. Agora foi o Jorge Palma. Um dia seremos nós. E, no meio desta dor, entra em cena Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal do Porto. Perdão, de Lisboa. O apelido devia ter servido de alerta. Porque quem tem moedas tem trocos. E Moedas trouxe-os todos. Numa única homenagem conseguiu trocar Jorge Palma por Sérgio Godinho, provando que há discursos fúnebres que começam como tributo e acabam como passatempo cultural. Faltou apenas agradecer a Fernando Pessoa pela autoria de «Frágil» e pedir uma salva de palmas para a extraordinária carreira de Rui Veloso nos Xutos & Pontapés.
Uma espécie de troco humano de uma doença cultural que anda por aí a circular, discreta mas persistente. É só recordar o igualmente brilhante Luís Montenegro, primeiro ministro de Espanha, perdão, de Portugal, a citar José Saramago na Assembleia da República, convencido de que estava a citar Sophia de Mello Breyner. Rui Tavares apontou-lhe o equívoco ali mesmo, no hemiciclo, com o brilhantismo de sempre.
O episódio seria apenas tragicamente cómico se fosse caso isolado. Mas talvez Moedas não seja o problema. Talvez seja apenas mais um sintoma. Uma espécie de troco humano de uma doença cultural que anda por aí a circular, discreta mas persistente. É só recordar o igualmente brilhante Luís Montenegro, primeiro ministro de Espanha, perdão, de Portugal, a citar José Saramago na Assembleia da República, convencido de que estava a citar Sophia de Mello Breyner. Rui Tavares apontou-lhe o equívoco ali mesmo, no hemiciclo, com o brilhantismo de sempre. Montenegro reagiu com o entusiasmo de quem acabou de descobrir que estacionou o carro em segunda fila, por falta de Moedas, e a EMEL está a aproximar-se.
E, sim, é verdade que todos nos enganamos. Todos somos capazes de confundir nomes. Quem nunca chamou Sofia à Catarina, António ao João ou Saramago à Sophia que atire o primeiro Nobel. Todos temos lapsos. Todos somos humanos, por muito artificial que seja a inteligência ao serviço de uma elegia fúnebre. O problema é outro. É a sensação crescente de que alguns dos nossos responsáveis falam da Cultura portuguesa da mesma forma que eu falaria de física quântica, isto é, com enorme respeito, mas com um conhecimento perigosamente superficial. E isso faz diferença.
O problema é outro. É a sensação crescente de que alguns dos nossos responsáveis falam da Cultura portuguesa da mesma forma que eu falaria de física quântica, isto é, com enorme respeito, mas com um conhecimento perigosamente superficial. E isso faz diferença.
Não é a mesma coisa confundir a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obra. Ou o autor de um despacho com o autor de uma canção, muito menos no momento da sua morte. Não é a mesma coisa trocar duas rubricas de um relatório com trocar Saramago por Sophia. Nem Jorge Palma por Sérgio Godinho. Da mesma forma que não seria a mesma coisa homenagear Amália Rodrigues citando versos de Camões e terminar o discurso a agradecer ao autor de Os Lusíadas por tudo o que fez pela culinária nacional. Embora, pensando bem, talvez ainda acabássemos a discutir nas redes sociais se Camões teria ou não condições para integrar o elenco do próximo MasterChef. Enfim.
E tudo isto traz-me à memória uma história deliciosa protagonizada pelo não menos imortal Robin Williams. Numa cerimónia de homenagem a Al Pacino, Williams afirmou que o actor recebera o Óscar pela extraordinária interpretação em Raging Bull. O problema é que Raging Bull era de Robert De Niro. A assistência riu-se, obviamente. Williams deixou a gargalhada assentar e rematou: «Estou em recuperação, mas continuo convencido de uma coisa: se colocarem Robert De Niro numa máquina de secar roupa, sai de lá Al Pacino.» A piada funcionava porque toda a sala conhecia suficientemente bem os dois actores para perceber o absurdo da comparação.
E é precisamente isso que torna estas nossas confusões nacionais tão desconfortáveis. Fica a sensação de que deixámos de conhecer suficientemente bem as nossas referências para perceber o absurdo. Como se a Cultura fosse um daqueles ecopontos gigantes onde se despeja tudo: vidro, papel, plástico, poetas, romancistas e cantautores. Depois fecha-se a tampa e espera-se pelo melhor. No fim, pouco importa quem fez o quê, desde que pareça vagamente familiar.
A Cultura não é um acessório cerimonial que se tira do armário para discursos de ocasião. É a memória colectiva de um povo. E a memória, como qualquer relação importante, exige intimidade, tempo, atenção e amor.
Ora, Jorge Palma merece muito mais do que isso. Saramago merece muito mais do que isso. Sophia merece muito mais do que isso. E Sérgio Godinho, que felizmente continua entre nós, merece igualmente muito mais do que isso. A Cultura não é um acessório cerimonial que se tira do armário para discursos de ocasião. É a memória colectiva de um povo. E a memória, como qualquer relação importante, exige intimidade, tempo, atenção e amor.
Jorge Palma morreu, e todos sabemos que continuará vivo através das suas canções, dos seus versos, dos seus discos e dos milhares de pequenas histórias pessoais que se cruzaram com a sua música ao longo de décadas. Quanto ao resto, talvez fosse bom começar a prestar um pouco mais de atenção às referências que citamos. Haja respeito. Um país que começa a confundir os seus poetas, os seus escritores e os seus músicos corre o risco de descobrir demasiado tarde que também está a perder a memória. E se Robin Williams confundiu propositadamente Al Pacino com Robert De Niro e fez rir uma sala inteira, foi porque conhecia ambos demasiado bem para os confundir. A graça estava aí.
Por cá estamos a aperfeiçoar uma técnica diferente. Saramago sai Sophia. Jorge Palma sai Sérgio Godinho. Camões ainda corre o risco de sair Amália. E, se colocarmos Luís Montenegro numa máquina de secar roupa, sai Carlos Moedas. O problema é que ninguém se está a rir.
Duarte Baião
Escritor
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O verdadeiro drama social é ter as associações de moradores excluídas do conselho municipal de habitação, no qual estão representados os construtores civis, os agentes imobiliários e os proprietários.
As palhaçadas da direita e da extrema-direita parecem-se cada vez mais com novelas turcas dobradas em castelhano e legendadas em português. E pelo meio, a música: um contraponto elétrico, uma orquestra autogerida e o minimalismo dos Telectu.
Podemos fazer mil e uma conferências sobre o futuro dos media, podemos ter membros do governo a dizer que se preocupam com a classe jornalística, podemos fazer tudo e mais alguma coisa. Mas, enquanto a questão não for realmente atacada e o jornalismo não for valorizado da forma que realmente merece — com condições, com investimento e com exigência — tudo não passa de pequenas tentativas de atrasar a detonação evidente de uma verdadeira bomba-relógio.