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Estará a nascer o Movimento das Forças Cantadas?

Estará a nascer o Movimento das Forças Cantadas?

Nascem coros pelo país como cravos no mês de Abril. Desses coros nasce uma vontade: sermos muitos e muitas mil a cantar nas ruas, defendendo os valores de Abril. Nasce a Primavera de Coros, o Movimento das Forças Cantadas. Nasce no dia 25 de Abril de 2025 e é a minha sementeira de esperança no mundo.

E porquê as Forças Cantadas?

Se já se fez uma revolução com flores, não poderemos fazer uma revolução a cantar?

Foto: Luísa Sales

Ao longo da História, a cantiga está presente, associada a uma memória coletiva em momentos históricos. Há sempre uma canção relacionada diretamente a um grande momento de mudança do mundo. Porquê? Porque cantamos! Sempre cantámos, nós, seres humanos, como forma de nos expressar e como forma de comunicar. Cantamos sozinhos, cantamos juntos... O poder transformador de cantar em conjunto não se liga só com a parte física ou espiritual, associada há muitos anos aos rituais religiosos ou pagãos; o facto de cantar junto alimenta a sensação de pertença, porque, mesmo sem conhecermos todas as pessoas que estão ao nosso lado, partilhamos algo em comum naquele momento!

Disse-me o Zeca Medeiros, numa das suas longas conversas, em Março, num pequeno restaurante da Ilha de S. Miguel: «A cantiga não é uma arma, porque as armas e a canção não têm nenhuma relação. Eu sei bem o que é uma arma, e as armas... As armas servem só para fazer danos, a guerra, a morte. A cantiga nunca se pode dizer que é uma arma!»

E eu achei aquilo muito bonito, muito curioso e muito bonito. Realmente também pensava que a cantiga poderia ser uma arma e também eu cantarolava «A cantiga é uma arma... E eu não sabia ... » Desde aí, sempre que ouço esta canção do GAC, fico na expectativa de encontrar uma reflexão sobre esta posição tão vincada do Zeca sobre isto. Também considerei que este movimento assim o seria, uma grande arma de canto coletivo contra alguma coisa... Mas a verdade é que agora, quanto mais nos vejo a crescer e cantar por cada canto e por cada praça, a cada semente que vejo crescer em mais alguém, mais descubro que é mesmo o oposto! As armas não se combatem com armas, a violência não se combate com violência e, por isso, a cantiga pode parecer o nosso motor de combate, mas estou com o Zeca: não é nem nunca será uma arma.

As armas não se combatem com armas, a violência não se combate com violência e, por isso, a cantiga pode parecer o nosso motor de combate, mas estou com o Zeca: não é nem nunca será uma arma.

Ouvi também da boca da Vânia Couto uma frase que percebi que veio de outras vozes de Coimbra: o ato de cantar junto é em si mesmo um ato revolucionário - e eu achei aquilo o mote perfeito. Então, e não é que é mesmo? Começar a cantar junto encerra em si uma grande mudança, uma grande proposta de transformação. O primeiro passo é sair de casa e ouvir as ideias de outras pessoas reais sem ser através de um telemóvel - esse, hoje em dia, já é um grande passo!

Da possibilidade de estar e de pensar junto há duas semanas nasceu a Praça da Acampada: fica no Porto e traz a esperança no bolso!

Se ainda não passaram por lá, vão conhecer - é um regalo para os olhos, canta-se por lá todos os dias, tudo está bem organizado e limpo, há sempre sorrisos e abraços para receber quem vem por bem. Além disso, também há espaço para dizeres o que pensas, dares ideias para construir uma sociedade mais justa!

Foto: Júlio Santos

Parece um sonho, mas é real e está viva a Praça da Acampada! Já a tentaram demover, mas ela resiste e resistirá!!

Hoje, a Primavera de Coros - movimento que junta mais de 40 coros desde o Alto Minho até Portimão - aparece a cantar como um verdadeiro movimento das Forças Cantadas. Cantamos diariamente às 18h00 na Praça da Acampada do Porto e também a acompanhar cantores como Manuela Azevedo, B-Fachada, Capicua; com a Acampada de Lisboa também se canta diariamente no Rossio às 18h00 e estamos a juntar-nos à Orquestra da Acampada, uma orquestra com 50 músicos.

Vamos atuar já este domingo dia 1 de Novembro, mas não nos ficamos por aqui, vamos mais longe: saímos à rua para cantar em Braga, em Castelo Branco, em Aveiro, em Leiria, em Coimbra, nas Caldas da Rainha, em Portimão e em Lagos. Convidamos todas as pessoas a cantar junto, com ou sem experiência musical. Continuaremos a estar presentes a ocupar o espaço público de uma forma que nunca poderá ser considerada violenta - a cantar em conjunto.

A Garota Não diz que o Coro das Mulheres da Fábrica é uma vaga. E é mesmo.

Eu achei que a vaga podia ser ainda maior e decidi criar pontes, reportório comum e momentos de encontro entre todos estes coros. Digo que a Primavera de Coros é o novo Movimento das Forças Cantadas, onde participam já mais de mil pessoas e que, um dia, havemos de encher as ruas, as praças e as pontes a cantar a mesma canção.

Matilde Simões, fundadora do Movimento Primavera de Coros. Foto: Tiago Pereira

Eu achei que a vaga podia ser ainda maior e decidi criar pontes, reportório comum e momentos de encontro entre todos estes coros. Digo que a Primavera de Coros é o novo Movimento das Forças Cantadas onde participam já mais de mil pessoas e que, um dia, havemos de encher as ruas, as praças e as pontes a cantar a mesma canção.

Atrevo-me a dizer que as vozes, mais do que afinadas, são afiadas!

Encontrámos no canto coletivo, no estar junto e no trazer outro amigo para perto, uma forma de pertencer e uma forma de resistir ao mesmo tempo que pensamos e construímos o que está por vir.

Nasceu o Movimento das Forças Cantadas.

Foto de capa: Joana Duarte

Matilde Simões

Matilde Simões

Fundadora do Movimento Primavera de Coros.

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