A cidade e as serras: a mesma lição de soberania popular
A crise da habitação que empurra milhares de famílias para as ruas e o avanço da mineração a céu aberto que ameaça desalojar as comunidades rurais partilham a mesma matriz estrutural: a transformação do espaço outrora destinado à vida num ativo financeiro subordinado às lógicas da acumulação e da especulação.
Quer se trate do solo metropolitano entregue à especulação imobiliária, ou do subsolo serrano alienado ao extrativismo, estas dinâmicas desaguam rigorosamente nas mesmas restrições à participação pública. Quando as cidades e os territórios rurais deixam de ser compreendidos como lugares de pertença e ocupação social para passarem a ser geridos como mercadoria, o Estado encara o escrutínio cívico, as garantias constitucionais e a soberania das comunidades não como pilares democráticos inalienáveis, mas como custos de transação que é necessário contornar.
No final de outubro de 2026, perante a tentativa da britânica Savannah Resources de avançar com perfurações em terrenos de gestão comunitária, a comunidade local respondeu com um bloqueio civil.
O conflito que envolve o projeto da Mina do Barroso, no concelho de Boticas, tornou-se num dos retratos mais nítidos deste cerceamento institucional. No final de outubro de 2026, perante a tentativa da britânica Savannah Resources de avançar com perfurações em terrenos de gestão comunitária, a comunidade local respondeu com um bloqueio civil. Esta é apenas a demonstração mais recente do descontentamento de uma aldeia que luta há mais de oito anos e o último recurso perante o silêncio do Estado e das suas estruturas ambientais. Durante três dias consecutivos, dezenas de habitantes de Covas do Barroso montaram uma vigília na serra, que travou fisicamente o avanço das máquinas de perfuração.
A resiliência no terreno e a solidariedade de aliados vindos de vários pontos do país deram visibilidade a uma mobilização popular que forçou a retirada dos equipamentos da promotora. Ficou evidente que a defesa de uma região classificada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como um Sistema Importante do Património Agrícola Mundial (SIPAM) não é um mero detalhe burocrático, mas uma causa enraizada na dignidade de quem cuida da terra há gerações.
Bruxelas sublinhou que os projetos estratégicos têm de cumprir critérios objetivos de aceitação pública e demonstrar o envolvimento real das populações afetadas, admitindo a reavaliação formal do estatuto concedido.
A relevância desta resistência no terreno ecoa com força crescente na esfera política europeia. Muito embora a Comissão Europeia tenha atribuído ao empreendimento a classificação de «Projeto Estratégico» sob o Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas (CRMA) para acelerar procedimentos de licenciamento, o próprio executivo comunitário admitiu recentemente que esse estatuto não é definitivo nem incondicional. Bruxelas sublinhou que os projetos estratégicos têm de cumprir critérios objetivos de aceitação pública e demonstrar o envolvimento real das populações afetadas, admitindo a reavaliação formal do estatuto concedido. A designada «licença social para operar» não pode ser um conceito decorativo de relações públicas corporativas. É um parâmetro regulatório vinculativo e fundamental. A ausência persistente de aceitação social demonstra que a eventual viabilidade jurídica e económica do projeto não se sustenta à revelia do consentimento democrático local.
A designada «licença social para operar» não pode ser um conceito decorativo de relações públicas corporativas. É um parâmetro regulatório vinculativo e fundamental.
A oposição da comunidade não resulta de um impulso de recusa infundada, mas apoia-se num rasto documental denso de irregularidades e ilegalidades atestadas pelas próprias instituições de supervisão. Em Portugal, o Ministério Público emitiu um parecer ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Mirandela sustentando que a Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada padece de vício de violação de lei, compromete as obrigações internacionais de preservação do SIPAM e omite deliberadamente a avaliação dos impactos cumulativos com a vizinha Mina do Romano.
No plano internacional, o Comité de Cumprimento da Convenção de Aarhus deliberou, em setembro de 2025, que entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a CCDR-Norte violaram o tratado ambiental ao ocultarem informação técnica essencial de forma injustificada e ao encurtarem os prazos de consulta pública. Paralelamente, têm sido ignorados, de forma ostensiva, pareceres científicos independentes, nomeadamente a análise do Dr. Steven Emerman, que demonstrou a instabilidade da infraestrutura de armazenamento de resíduos mineiros e o risco real de colapso catastrófico sobre a bacia hidrográfica do rio Douro, e o relatório do Dr. Douw Steyn, que expôs insuficiências grosseiras na monitorização da qualidade do ar e ausência de avaliação sobre poeiras tóxicas.
[...] o Estado tem recorrido a instrumentos coercivos excepcionais, como servidões administrativas e a ameaça de expropriações forçadas de baldios, as terras geridas democraticamente pelo povo local há séculos, colocando a máquina pública e as forças policiais ao serviço de interesses privados.
A resposta das autoridades a este impasse expõe um novo estágio do autoritarismo institucional. Em vez de travar um processo eivado de vícios e associado aos meandros políticos que estiveram na origem da queda do governo anterior na «Operação Influencer», o Estado tem recorrido a instrumentos coercivos excepcionais, como servidões administrativas e a ameaça de expropriações forçadas de baldios, as terras geridas democraticamente pelo povo local há séculos, colocando a máquina pública e as forças policiais ao serviço de interesses privados.
Sempre que ceder implica travar a especulação dos grandes fundos imobiliários nas cidades ou frustrar os compromissos multimilionários assumidos com indústrias extrativas nos corredores governamentais, o custo de escutar a população torna-se, para o poder, inaceitável.
A experiência acumulada em Covas do Barroso e nos bairros urbanos desmente amplamente a narrativa oficial de que a repressão do Estado resulta da violência ou da veemência com que os cidadãos protestam. Na verdade, a intensidade da resposta repressiva do poder público não depende de quão ordeira, pacífica ou disruptiva é a manifestação popular, mas decorre, exclusivamente, de uma avaliação fria sobre o preço político e económico de ceder às reivindicações do povo. Sempre que ceder implica travar a especulação dos grandes fundos imobiliários nas cidades ou frustrar os compromissos multimilionários assumidos com indústrias extrativas nos corredores governamentais, o custo de escutar a população torna-se, para o poder, inaceitável. É esse cálculo utilitário que desencadeia a desqualificação política dos ativistas, o estreitamento das vias de participação cívica e o recurso à intimidação burocrática e policial, quer o protesto tome a forma de uma vigília pacífica num lameiro transmontano, quer seja uma Acampada por rendas justas no Rossio ou nos Aliados.
Manifestação no Porto pelo direito à habitação. Foto: Hélder Sousa
O direito à habitação nos centros urbanos e o direito à preservação ambiental e territorial no interior são expressões inseparáveis de uma mesma exigência da soberania popular que recusa o desmantelamento das suas condições de vida. A resposta aos dilemas sociais e climáticos do nosso tempo não pode residir no endurecimento autoritário das respostas do Estado nem na submissão das leis aos lucros corporativos. Deve procurar-se no aprofundamento da democracia local, no escrutínio intransigente dos atos públicos e na solidariedade comunitária entre todos os que, na serra ou na cidade, afirmam o direito inegociável de viver e decidir sobre o seu próprio chão.
Procuram-se culpados, enumeram-se causas, criam-se narrativas e desconstroem-se militâncias. Tudo por um direito consagrado na Constituição. Isto não é sobre alguns. É sobre todos nós. Comportem-se e deem abrigo a quem, apesar de ser diferente de vocês, é também parte daquilo que vocês são.
Única Professora negra da Faculdade de Letras de Lisboa, Inocência Mata tem sido uma das vozes mais presentes na denúncia do racismo estrutural da sociedade portuguesa. Contundente nas críticas ao Governo quanto ao desinteresse na luta contra as discriminações e por ir a reboque do discurso de ódio da extrema-direita, afasta também a forma xenófoba como os imigrantes estão a ser responsabilizados por todos os males da sociedade portuguesa.
É mais do que tempo para sermos bem claros: os montenegros, os neves, os soares a começar por hugo, os duartes que começam por pedro e outros afins, não nos representam. Vivem ocupados com os seus interesses, com as suas vidinhas, com os seus poderzinhos.