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25.10.2026 Paulo Jorge Pereira Sociedade Política Opinião

Escondidos atrás de bastões

Escondidos atrás de bastões

Quem dá ordens para que se agridam pessoas pacíficas por dá cá aquela tenda, não percebe nada de política. Esconde-se atrás de bastões. Entende o diálogo como a arte de bem arremessar granadas de gás lacrimogéneo contra pessoas. Atiça cães e balas de borracha contra gente desarmada. Mas, sobretudo, não percebe nada de Cultura, nem de Direitos Humanos, nem de Cidadania, nem de Sociedade. Não percebe nada do povo que supostamente deveria representar.

É mais do que tempo para sermos bem claros: os montenegros, os neves, os soares a começar por hugo, os duartes que começam por pedro e outros e outras afins, não nos representam. Vivem ocupados com os seus interesses, com as suas vidinhas, com os seus poderzinhos. Convivem mal com o escrutínio ao que têm andado a fazer e muito bem com autoritarismos, cargas policiais, brutalidade e alegado suporte legal. Olham para a Constituição com o incómodo de quem a considera um aborrecimento, uma chatice, um problema constante.

É mais do que tempo para sermos bem claros: os montenegros, os neves, os soares a começar por hugo, os duartes que começam por pedro e outros e outras afins, não nos representam. Vivem ocupados com os seus interesses, com as suas vidinhas, com os seus poderzinhos.

São os mesmos que dizem «não é não» e passam o tempo a fazer acordos com a extrema-direita. São os mesmos que não acertam uma quando tentam citar Sophia e sai-lhes Saramago. Ou arriscam Hemingway e, afinal, para surpresa da mente iluminada, era John Donne. Importante é a coleção de imóveis que fazem, enquanto acusam imigrantes de desequilibrar os setores da Habitação e da Saúde e nos tentam fazer passar por parvos. O outro, o perdido dos passos, também por aí anda outra vez a tentar o mesmo. Como se tivéssemos todos deixado escapar a memória da ida além da troika, da acusação de sermos piegas, da recomendação para que seguíssemos para o estrangeiro e outras pérolas que o ex-jota de trazer por casa foi juntando até ser corrido.

Ser eleito envolve, à partida, a escolha de quem elegeu. Mas não se esgota aí: é uma exigência de responsabilidade, de governar para toda a gente e não apenas para alguns, de dedicação ao país e não a minúsculas parcelas.

Liderar não é apenas mandar. Tal como ouvir ordens não é apenas obedecer. Voltámos a uma fase da História em que encontramos capatazes onde deveriam estar estadistas. Em que alguns homens e mulheres de farda se tornaram autómatos, enquanto as fardas se esvaziavam de alma. A uns e a outros, aos que vociferam «Ataquem!» e aos que ficam cegos ao seu próprio povo, vale a pena lembrar: o Holocausto, maior fonte de horrores e barbárie na História da Humanidade, foi construído assim.

Ser forte com os fracos e fraco com os fortes pode durar anos. Pode até passar pela ilusão de que se está no rigoroso cumprimento do estritamente legal. A quem disso está convencido, vale a pena recordar os versos de Sérgio Godinho na canção «Que força é essa». E a ideia de que todo o poder é efémero. Sobretudo para miniaturas de políticos como aqueles que, neste momento, parecem mandar. Nada mais ilusório.

Paulo Jorge Pereira

Paulo Jorge Pereira

Nasceu a 13 de agosto de 1970 em Lisboa. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH), a paixão pelo Jornalismo levou-o a trabalhar, a partir de 1992, em jornais como A Bola, Record, Diário Económico e Jornal Económico. Em 2017 trabalhou no Sindicato dos Jornalistas e publicou o romance "Filhos da Primavera Árabe". De janeiro de 2018 a maio de 2019 foi chefe de redação do semanário Contacto, jornal português no Luxemburgo. Publicou, em outubro de 2020, o livro "Murro no Estômago". Em maio de 2021 entregou a Carteira Profissional de Jornalista e, até maio de 2024, foi assessor de imprensa do Ministério do Ambiente e da Ação Climática. Em novembro de 2023 publicou o romance "Filho da PIDE". Desde setembro de 2024 é assessor de imprensa do Grupo Parlamentar do LIVRE.

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