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Portugal, nem sei bem por onde começar...

Portugal, nem sei bem por onde começar...

«Nem sei bem por onde começar.»

É sempre uma excelente maneira de começar uma história. Aplica-se aqui, porque já nem sabemos se esta história teve um início ou se está a chegar ao seu final.

Não podemos continuar a sonhar os nossos sonhos. Ter uma casa, ter dignidade social, não deveria sequer ser um sonho. Mas, para mim e para parte da minha geração, é somente isso. Uma lotaria. Uma raspadinha. Algo de dogmático no seu objeto, porque esperam isso de nós como se fosse um ritual de passagem religioso, mas que, na sua forma, se revela impossível. Impraticável. Inconcebível.

Lamento se esta crise de meia-idade incomoda tanto a direita portuguesa, mas eu gostava de morar num sítio que pudesse dizer que é meu. Num mundo onde tudo se está a dilacerar, eu gostava de ter a minha Fortress of Solitude. Não vão os pseudo-Übermenschen sentir-se ofendidos por este desejo elevado ao expoente do capricho, mas que, curiosamente, está previsto na Constituição Portuguesa.

O direito à habitação. Esse será somente o meu ponto.

Não quero falar de vistos gold, de Passos, de Sócrates, de Montenegro ou de Costa. Quero-vos dizer que eu tenho o direito a ter uma habitação. A ter uma casa.

Os zeladores desse direito têm usufruído de várias sabáticas democráticas, todas elas ao belo jeito português: «Siga, logo vemos o que fazemos.» A arte do desenrascanço, quando todo o nosso futuro é feito de pensos rápidos no presente.

Eu já fui futuro. Agora sou só mais um. Eu já fui tanto e agora também tenho de ser tão pouco?

Amigos, portugueses de bem e de longe, do sul e do norte, do centro e do litoral, da Madeira aos Açores: tudo isto é por um direito. Tudo isto é por uma dignidade que eu desejo a cada um de vocês, povo. E o que espero? O mesmo. Nem mais, nem menos. Somente reciprocidade.

Política deveria ser sobre responsabilidade e honra. Não sobre a pirraça diária, a devassa, por vezes, de vidas públicas e privadas, que cria cisão e uma constante ansiedade existencial.

Eu não espero que o nosso país se entregue à realidade aumentada de uma caixinha de Petri imobiliária, propalada pelos cool kids dos partidos que subitamente viram demasiadas seasons de Shark Tank e pensam que renovar um apartamento é um achievement digno de atualizar o LinkedIn. Muito menos quero que, na hybris da sua ignorância, lhes seja dada a oportunidade de legislar, de planear, de projetar essa realidade aumentada que pode fazer com que os nossos filhos se tornem máquinas altamente capitalizadas e não façam aquilo para que nascemos: viver.

Pois. Tarde demais. E isto não foi o prometido.

Política deveria ser sobre responsabilidade e honra. Não sobre a pirraça diária, a devassa, por vezes, de vidas públicas e privadas, que cria cisão e uma constante ansiedade existencial.

Política não é legislar de uma Torre de Babel a preto e branco e pensar que a fronteira do Portugal real termina em Loures. O Portugal real não vive com 970,00 € mensais. Simplesmente não consegue. Não com a dignidade que lhe foi prometida e com os sonhos que lhe foram nutridos.

Política deveria ser um grupo de portugueses, democraticamente eleitos, a discutir de forma urbana todas as maneiras, todos os feitios de fazer deste país aquilo que sempre aspirou a ser. E sim, discordar faz parte. É essencial ao debate, ao pensamento crítico, à catarse. Porque sim, Portugal, podes errar. Podes mudar de opinião mediante os factos e ninguém pensará menos de ti. Não podes é esquecer-te dos teus.

Política não é legislar de uma Torre de Babel a preto e branco e pensar que a fronteira do Portugal real termina em Loures. O Portugal real não vive com 970,00 € mensais. Simplesmente não consegue. Não com a dignidade que lhe foi prometida e com os sonhos que lhe foram nutridos.

Política deveria ser feita de respeito e admiração por quem a faz e entre quem a faz. Dez milhões de pessoas confiam em ti. De nove milhões, novecentos e noventa e nove mil pessoas, tu. Tu foste o escolhido. Não pode ser um problema, nem uma expectativa vã, esperar que te comportes à altura de todo este país. E, não negando a pressão que a missão acarreta, digo-te: estamos todos a contar contigo, mas também estamos ao teu lado. E não é pressão. É dever.

O nosso país não anda porque o condutor pára demasiadas vezes o carro para mandar calar os putos nos bancos de trás. E, por mais que nos diga que estamos a caminho, a verdade é uma: nunca mais chegamos lá.

Portugal, será que sabes que os teus filhos estão a lutar contra os seus próprios pais? Que o voto daqueles que lhes deram a vida está também a matar os seus sonhos? Será que sabes que estás a tirar anos de vida a quem te queria dar futuro? Será que sentes o peso da indiferença como eu o sinto, quando, em todas as feiras de todas as semanas, me vejo empurrado com a barriga, tratado como uma má disposição que eventualmente irá passar? Será birra minha ou negligência tua?

E estou triste. Profundamente dividido e triste.

Ultimamente, tenho sido invadido por sentimentos de algum medo existencial. Como se a morte estivesse cada vez maior na linha do horizonte, gradual e lentamente, mas a chegar. Isso tem-me feito pensar imensas vezes sobre aquilo que deixamos. E preocupa-me que o borboto que tenho nos bolsos seja praticamente igual ao dinheiro que tenho na conta.

E, Portugal, eu tenho trabalhado. Eu tenho contribuído para ti na esperança de que possas olhar por mim. E o que me dás aos 38 anos? Nada. Nem tão-pouco um direito.

Mas pedes. Pedes que não esteja ao lado de quem pede por aquilo com que sempre sonhou, mas que nunca conseguiu alcançar. Pedes-me que aceite indubitavelmente a minha condição, que confie cegamente no teu juízo, mesmo que o teto a que me acondicionas só consiga estar pintado de estrelas e lavado de lágrimas pelos sonhos que acabei de sonhar.

Pedes-me que escolha uma ponta em detrimento do meio, só para que a minha posição fique clara. No entanto, não abdicas da tua verticalidade, nem desces às latitudes que nos fazem comuns. Que nos fazem povo. Que nos fazem portugueses.

Estamos órfãos dos valores de Abril, das cantigas de Sérgio Godinho e dos sonhos de Zeca Afonso. Não foi uma data em Abril ou Novembro. Foi um povo a querer ser mais povo e a proteger um futuro distante de um passado real. Mas até isso é hoje motivo de discórdia e divisão. Até o nosso momento mais brilhante conseguimos espezinhar e, na nossa indiferença, deixar erodir aquilo que um dia foi dito a uma só voz.

Hoje, como em tantos outros dias, penso no que deixarei. Se sempre conseguirei plantar aquela árvore para que outros usufruam da sua sombra. Se sempre terei um sítio a que chame casa. E se poderei fazer as memórias que me foram prometidas. Uma carga policial só acrescenta uma nova camada de violência à noite que antecede o nascer de um violento novo dia de um português comum.

Comecemos por revisitar a lei das rendas que seguiu para a especialidade e que não protege nem garante nada a quem mais precisa. Comecemos por desburocratizar o processo de construção e iniciemos processos de financiamento e estímulo à construção sérios, com objetivos reais para o português real. Regulemos mercados e iniciemos discussões sobre a base social que sustenta este sonho português.

Procuram-se culpados, enumeram-se causas, criam-se narrativas e desconstroem-se militâncias. Tudo por um direito consagrado na Constituição. Isto não é sobre alguns. É sobre todos nós. Comportem-se e deem abrigo a quem, apesar de ser diferente de vocês, é também parte daquilo que vocês são.

E talvez seja precisamente por tudo isto que, daqui em diante, me recuso a continuar indiferente. Libertarei o pensamento da condição e repensarei a minha militância. Não como força de oposição, mas como trampolim de ideias e ideais que fazem de nós melhores seres humanos.

A empatia não está sob o efeito da inflação. Aproveitem a promoção e sejam melhores.

Comecemos por revisitar a lei das rendas que seguiu para a especialidade e que não protege nem garante nada a quem mais precisa. Comecemos por desburocratizar o processo de construção e iniciemos processos de financiamento e estímulo à construção sérios, com objetivos reais para o português real. Regulemos mercados e iniciemos discussões sobre a base social que sustenta este sonho português.

Na adversidade há oportunidade também. E aqui podemos ser mais. Muito mais.

Ainda não sei se isto é o início ou o final, nem tão-pouco se a história vai a meio. Mas ainda vamos a tempo de sermos os heróis da história.

Façamos por isso. Juntos.

Jorge Dias

Jorge Dias

Agente cultural, co-fundador da gig.ROCKS!, agitador cultural e pensador livre sobre um mundo melhor para a cultura portuguesa. Trabalha na produção e internacionalização da música portuguesa, defendendo a cultura como instrumento de transformação social e participação cívica.

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