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De Riot Grrrl a Girlboss - Sobre «Girl on girl», de Sophie Gilbert
Tudo o que é velho parece novo outra vez.
Perante a descontextualização do real, as narrativas bafientas surgem como inovações individuais encarnadas por machos latinos com roupas hipster coloridas, cujo interior é tão cinzento como o céu da Londres da revolução industrial visitada por Orwell.
Essa morte do contexto é alimentada por um pós-feminismo, mais idêntico ao apocalipse do que à revolução, sustentado no individualismo e num hedonismo reduzido à vertente consumista, onde a pornografia é a modeladora da visão do mundo e das relações, a partir da reificação masturbatória do Outro.
O nosso presente ainda é o do eterno retorno, depois de um período de aparente graça, onde os anos 90, cinzelados por duas forças opostas, o tradicionalismo e o voyeurismo, pareciam ter ficado para trás. Com eles, o tempo em que as mulheres do rock foram postas de lado pelas da pop, mais jovens e menos opinativas, da mesma forma que as top models deram lugar a modelos heroin chic em subserviência absoluta. Também o Girl Power das Riot Grrrls, cooptado pelo mercado, devolvido somente como mercadoria desbravadora do caminho para a autorrealização, aliado à glorificação da misoginia no hiphop, depois da sua despolitização, está de regresso, na era Girlboss.
O nosso presente ainda é o do eterno retorno, depois de um período de aparente graça, onde os anos 90, cinzelados por duas forças opostas, o tradicionalismo e o voyeurismo, pareciam ter ficado para trás.
É este o ambiente descrito por «Girl on Girl», o último livro de Sophie Gilbert, redactora da publicação The Atlantic, onde cartografa, de forma irrepreensivelmente rigorosa, o trajecto desde o início deste século, quando nasceu a cultura porno gourmet, até às actuais autocracias culturais da dominação masculina.
Sophie apresenta Terry Richardson como a inauguração desse momento, em que a pornografia beneficiou de um rebranding enquanto forma de arte. Assim, foi concedida à elite da moda a validação dos gestos misóginos, habitual e erradamente associados às classes baixas, para quem a emancipação apenas chega quando estão ajoelhados em reza, em felácio ou ambas.
Sophie apresenta Terry Richardson como a inauguração desse momento, em que a pornografia beneficiou de um rebranding enquanto forma de arte.
A reprodução da pornografia enquanto manual de normas para a esfera da cultura em toda a sua latitude não lhe deixou outra hipótese a não ser avançar as suas fronteiras para territórios cada vez mais extremos, num claro paralelo com a deslocação do centro político para a direita.
A partir daí, a comédia «American Pie» surge como um evento de reciclagem da fixação pela cultura adolescente, numa sociedade hipnotizada por uma forma de sexualidade e de juventude em que todas as mulheres estão obrigadas a ser desejáveis e os homens a ser invejáveis. Esse é um dos pontos de partida sugerido pela autora para a análise da cultura misógina dos anos 90, onde o sexo é apresentado como um inalienável direito masculino, negado pelas mulheres e, com ele, qualquer possibilidade de redenção.
Sophie tece minuciosamente essa tapeçaria de efemérides culturais, aparentemente irrisórias, esquecíveis e isoladas, representando em conjunto a cristalização da moral porno no universo pop.
Também os reality shows representaram uma solidificação dos vários estereótipos femininos que, no fundo, redundam no costumeiro binário virgem/prostituta, desaguando inevitavelmente na realização do desejo masculino. Essa auto-sujeição a ser mero veículo de concretização surge travestida do cumprimento da profecia de Warhol sobre os 15 minutos de fama, onde a sua condição basilar é aceitar a lama, sabendo que nenhum lótus nela florescerá. A partir de e para esse universo, a cirurgia estética como a suprema alienação do corpo alienado para atender à vontade de eternidade numa sociedade sem morte torna-se a única alternativa.
Sophie tece minuciosamente essa tapeçaria de efemérides culturais, aparentemente irrisórias, esquecíveis e isoladas, representando em conjunto a cristalização da moral porno no universo pop.
Então, o bodyshaming new age fornica desalmadamente com o metaegocentrismo para parir o guia de vigilância de autoaperfeiçoamento capitalista.
Daí em diante, as Kardashians são a viragem da autoaceitação das mulheres para ponto de fuga em direcção ao velho ardil de vender produtos para emagrecer, restringindo a fórmula vitoriosa às mulheres que cumprem o ideal da construção masculina, reencarnando as características tipo do género.
Ao longo da história contada por Sophie fica claro como o sexo tem menos relação com o próprio acto sexual do que com o mercado, o poder, o domínio e a invasão territorial, cuja coroação foi a metamorfose das celebridades de alvos dos paparazzi em sujeitos expostos voluntariamente.
Ao longo da história contada por Sophie fica claro como o sexo tem menos relação com o próprio acto sexual do que com o mercado, o poder, o domínio e a invasão territorial.
No fim, a única conclusão possível é uma questão em aberto: como distinguir o que realmente desejamos do que nos é apresentado no ecrã?
O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.
Hugo Filipe Lopes aka Cobramor
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