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Tudo é permitido. Mas nada é possível. Sobre «Hiperpolítica», de Anton Jäger
Anton Jäger, um historiador do pensamento político, interessado sobretudo na relação do capitalismo com democracia, arranca no seu livro Hiperpolítica, aos ombros de Jean Baudrillard. Usa 2016 como referência, o ano da primeira eleição de Trump e do Brexit para contestar a ideia de Debord de um mundo unificado por um mercado com momentos de disrupção, ao invés da disrupção como continuidade.
Parte da queda do muro de Berlim, a incontestável referência que inaugura verdadeiramente o séc. XXI, para demonstrar como a aparência do progresso económico, permitiu o surgimento dos problemas individuais, ou, traduzido por miúdos, como nos desligámos da colmeia para voar a solo.
Jäger propõe a hiperpolítica como a sucessora da política de massas dos anos 70, da pós-política dos anos 90 e da antipolítica do início do século, onde se confunde o privado com o público, imbuindo de carácter político, mesmo que de forma difusa e não doutrinal, actos, outrora de execução simples.
Uma vez colonizados todos os espaços, também as instituições públicas, culturais ou de outras índoles, sucumbem ao mesmo hedonismo niilista e militante, onde o prazer é o fim aparente mas o lucro surge como fim ausente.
Tal não só não é impeditivo de um hedonismo exacerbado ao qual tudo se verga, como também assiste na construção de uma lógica de vida onde tudo nele desagua, consolidando um quadro mental de modelos temporários, invadindo todas os círculos da vida, onde a única saída converge inevitavelmente no mercado.
Uma vez colonizados todos os espaços, também as instituições públicas, culturais ou de outras índoles, sucumbem ao mesmo hedonismo niilista e militante, onde o prazer é o fim aparente mas o lucro surge como fim ausente.
Nesse enfraquecimento da vida colectiva, abre-se o vácuo que permite à mercantilização rédea solta para escavar novas vias, oferecendo alternativas que são uma e a mesma: a da gratificação imediata.
Tanto causa como efeito, o fim dos laços sociais acelerado pela expulsão das famílias para os subúrbios em zonas concebidas para a supremacia do automóvel como extensão da propriedade privada. Assim terminaram os bairros às mãos dos centros de consumo, única democratização efectiva sujeita ao poder económico, e as auto-estradas e a TV acentuaram a desagregação social, cristalizada no abandono do voluntariado pelo trabalho, levando à acumulação de cargos, fantasma e legais, por parte das mulheres.
Nesse enfraquecimento da vida colectiva, abre-se o vácuo que permite à mercantilização rédea solta para escavar novas vias, oferecendo alternativas que são uma e a mesma: a da gratificação imediata.
Concentrados todos os esforços nessa gratificação imediata ou na luta pelo seu acesso, o contexto histórico esfumou-se e com ele o elemento de tradução e inserção em princípios de comum acordo, criando, daí em diante, eventos sem cronologia ou continuidade, resultando em refúgios de solidão.
Essa solidão, onde se corroem os restantes laços sociais, agravando a luta pela sobrevivência e tornando-a parte do ego, permite aos representantes políticos formas diferentes de retenção do poder, para usufruto próprio, pois a governação é efectivamente feita do e no vazio.
Jäger termina a propor uma transposição das fronteiras de classe como factor de agregação, algo tão necessário como o reconhecimento de que continuam a existir duas classes em luta permanente, ideia que não subscreve.
Numa delas, o proletariado, os seus próprios fragmentos estão alojados na espinha e precisam de ser atendidos com urgência para que os anticorpos não os encarem como inimigos, criando uma doença autoimune.
O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.
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