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Casa-teatro
Tenho pensado sobre o que uma casa de teatro pode ser. Se precisássemos de refazer as nossas casas de teatro, como quereríamos que fossem? Pensemos na ideia de casa. E na ideia de teatro. O teatro não desapareceria ainda que o último teatro do mundo desaparecesse. Uma casa de teatro não é um edifício. Não é instituição. É uma tecnologia da convivência humana, onde podemos ensaiar outras formas de co-existir. Mas se pudermos imaginar um lugar (e estamos a precisar de lugares para estarmos em conjunto, ao vivo) imaginemos um que nos acolha, que nos proteja, onde podemos descansar o corpo, comer, beber, usar como esconderijo, para adormecer acompanhados, esperar alguém, convidar amigos, ficar depois do fim de tudo, permanecer. Ou desejar permanecer.
Na casa-teatro dizemos o que fora dela não conseguimos. Dentro dela, vemo-nos e deixamo-nos ver e somos tão profundamente sós quanto parte de algo maior do que o nosso frágil tamanho de ser. De lá saímos, potencialmente, um pouquinho diferentes do que quando entrámos. E todas as pessoas têm direito a lá entrar, todas são tratadas com respeito, delicadeza, afecto, senso de propósito, espírito de colaboração, compromisso, cumplicidade, porque todas têm direito ao espanto, ao milagre do tempo sem tempo, ao momento em que os vivos dão de cara com aparições, à possibilidade de ser afectadas pelo que ainda não se conhece. Não há elitismo, não há bilhete para comprar, não é para bem comportados, para bem vestidos, bons malandros, bem-pensantes. Não há escuro, nem pedidos de silêncio antes do espectáculo começar. Não há separação entre o palco e a plateia. Há direito a resposta, desobediência, reparação. Pateadas, bravos, reboliço e celebração. O teatro como se em praça pública, como se na vida, que se move fora de muros e além deles, ao encontro do invisível, deslocando-se. Um pacto contra as fronteiras.
Na casa-teatro dizemos o que fora dela não conseguimos. Dentro dela, vemo-nos e deixamo-nos ver e somos tão profundamente sós quanto parte de algo maior do que o nosso frágil tamanho de ser. De lá saímos, potencialmente, um pouquinho diferentes do que quando entrámos. E todas as pessoas têm direito a lá entrar, todas são tratadas com respeito, delicadeza, afecto, senso de propósito, espírito de colaboração, compromisso, cumplicidade, porque todas têm direito ao espanto, ao milagre do tempo sem tempo, ao momento em que os vivos dão de cara com aparições, à possibilidade de ser afectadas pelo que ainda não se conhece.
Os sistemas de poder desconfiam daquilo que não conseguem controlar por completo. Precisam de julgamento e binaridade. Precisam de desenhar uma determinada memória colectiva e uma sua visão específica de como contar a História e o seu registo para o futuro. São suas as opressões, os silenciamentos e as violências, impostas para nos isolar, nos assustar, para que nos percamos de propósito, empobrecendo o nosso espírito. Lugares como uma casa-teatro resistem ao imediato. Não sabemos exactamente ao que vamos nem o que esperar deles e das pessoas que os habitam. Não são produtivos, nem eficientes. Pertencem a essa categoria de coisas inúteis, que não precisam defender o porquê da sua existência, sem as quais a vida se torna insuportável. São, portanto, lugares radicais, que têm perguntas a fazer. Um mundo que não reserva espaço para o inútil começa, lentamente, a tornar inúteis as pessoas que não consegue medir. Nesse mundo tudo é feito para evitar o incómodo, a espera, o desacordo e o acaso. A forma como esse mundo trata os seus espaços de imaginação e fruição diz-nos muito sobre aquilo que acredita ser uma vida digna.
Os sistemas de poder desconfiam daquilo que não conseguem controlar por completo. Precisam de julgamento e binaridade. Precisam de desenhar uma determinada memória colectiva e uma sua visão específica de como contar a História e o seu registo para o futuro. São suas as opressões, os silenciamentos e as violências, impostas para nos isolar, nos assustar, para que nos percamos de propósito, empobrecendo o nosso espírito. Lugares como uma casa-teatro resistem ao imediato.
As casas-teatro são perigosas, porque são dissidentes, não-normativas, alternativas, ambíguas, múltiplas, causam desconforto, questionam narrativas oficiais, e pior, fazem as pessoas sentir. Elas não operam apenas no plano da lógica e não pretendem nenhuma verdade absoluta. São um acontecimento colectivo. Cada vez que alguém se junta a alguém para ver, escutar, dizer ou imaginar a vida de um outro modo, algo importante recomeça. É nessas casas pensadas, e ainda por pensar, que eu quero - que nós podemos desejar - viver.
Junho, 2026.
Casa do Sol.
A autora escreve sem usar o Acordo Ortográfico.
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