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01.07.2026 Carlos Kangoma (Lucy) Cultura Política Sociedade Opinião

A importância da descolonização mental

A importância da descolonização mental

Numa altura em que assistimos a um enorme retrocesso nas relações interculturais, é de extrema importância falarmos de um fantasma que nunca abandonou a mentalidade colectiva da sociedade portuguesa: a mentalidade colonial.

Tivemos uma «descolonização» relativamente recente, passaram apenas 52 anos após o 25 de Abril, e a sociedade ainda não evoluiu da última teoria sociológica aplicada pelo Estado Novo: o conceito transformado em propaganda do lusotropicalismo. Embora se tenha libertado a população da ditadura, mantém-se um cordão umbilical do saudosismo imperialista, uma concepção social dos «heróis-do-mar», conquistadores expansionistas que levaram a civilização ocidental e o cristianismo ao longo do globo. Algo que, imediatamente na sua premissa, desumaniza os povos que foram invadidos, violentados, escravizados e vendidos como mercadoria durante o período dos «descobrimentos» e comércio transatlântico de escravos.

Continua a apresentar-se uma retórica de bravura e conquista acerca daquele que foi considerado, pelas Nações Unidas, numa votação quase unânime, como o maior crime da História da Humanidade.

De facto, continua a apresentar-se uma retórica de bravura e conquista acerca daquele que foi considerado, pelas Nações Unidas, numa votação quase unânime, como o maior crime da História da Humanidade. E Portugal, que teve o papel mais preponderante nessa prática, escolheu abster-se na votação, demonstrando mais uma vez incapacidade de assumir os crimes cometidos pelo seu império.

Esta falta de reconhecimento dos crimes reflete-se nos manuais escolares e conteúdos programáticos, prosseguindo uma endoutrinação das gerações mais jovens sobre o mito do «bom colonizador», do império português de brandos costumes que se misturava com a população nativa, numa espécie de sociedade democrática, quando na realidade estava longe disso. São ocultados os nomes dos revolucionários nativos proeminentes no contexto da história da Revolução dos cravos de 1974, figuras importantes em todos os aspectos das lutas de libertação e resistência anti-colonial, mas remetidos para notas de rodapé quando o seu papel foi fulcral na queda da ditadura.

Nos dias de hoje, devido especificamente a essa falta de reconhecimento, temos uma sociedade portuguesa que mantém os comportamentos racistas e discriminatórios. Muitos por opção, outros por falta de conhecimento real dos acontecimentos históricos, visto que a ocultação dos eventos e a falta de assumir a responsabilidade destes crimes garante uma leveza mental sobre o período mais hediondo da história humana.

Nos dias de hoje, devido especificamente a essa falta de reconhecimento, temos uma sociedade portuguesa que mantém os comportamentos racistas e discriminatórios.

A verdade é que, em contexto histórico, não se pode escolher apenas o que nos interessa. Nesse sentido, e para podermos evoluir como sociedade, uma descolonização mental é imperativa.

  • O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.

Carlos Kangoma (Lucy)

Carlos Kangoma (Lucy)

Ativista e músico. Faz parte do coletivo Vida Justa.

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