Saltar para o conteúdo

Por que jogamos tudo fora?

Por que jogamos tudo fora?

Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
– Aos que vierem depois de nós, Bertolt Brecht

Dormi a pensar no crescimento do extremismo nacional-populista mundo afora — Estados Unidos, Israel, Hungria, Itália, Polônia, Alemanha, França, Índia, Brasil — e em como Portugal, que eu pensava ser um oásis nesse deserto, vai pelo mesmo caminho. Há dias, li no Público: «Desde que nasceu, em 2019, o partido [Chega] subiu a cada eleição. Em seis anos, passou de 1,3% para quase 23%. Teve 68 mil votos em 2019; 400 mil em 2022 (7,2%); 1,2 milhões em 2024 (18%) e, nas presidenciais, André Ventura recebeu mais de 1,3 milhões de votos.» Que fenômeno é esse?

Muitos são os filósofos, cientistas políticos, sociólogos e historiadores debruçados sobre essa questão. Também eu quero saber. Fui buscar respostas em quem viveu um período análogo ao nosso e pensou a respeito: Wilhelm Reich, Umberto Eco e Hannah Arendt.

Reich parte da psicologia, Eco da história e da cultura para pensar os fascismos, enquanto Arendt parte de uma visão política e social para analisar os totalitarismos.

Na adolescência, achei que me tornaria terapeuta reichiano. Nos meses que passei pela faculdade de estudos sociais, resumi os livros de Reich que encontrei na biblioteca, inclusive A psicologia de massas do fascismo1 — que, à época, não me impressionou. Que garoto, discípulo do Rajneesh2, no início dos anos 80, antes da AIDS, pensaria no fascismo daquela forma? Eu estava mais interessado no orgon, essa energia vital, universal e transcendente que, em tudo, nos guia. O fascismo, descrito como sentimento latente em qualquer pessoa e não como qualidade exclusiva dos apoiadores da ARENA3 ou dos militares que mandavam no país, não me interessava. Em 1995, Umberto Eco escreveu O Fascismo Eterno4. Li faz poucos dias. E quem nunca ouviu falar de «banalidade do mal»? Até aqui, não havia lido Eichmann em Jerusalém5, livro em que Hannah Arendt desenvolveu o conceito. É daquelas obras que, sem tê-las lido, a gente pensa que conhece e que percebe o seu sentido. Tácito, mais errado do que certo, alguma coisa fica. Por coincidência, sem saber das minhas leituras, um sobrinho me recomendou o episódio O fascismo e a terapia reichiana, do podcast Terapia Reichiana, com Augusto Souza e Silva como convidado. Foi ele quem amarrou a visão dos três autores. Voltei a Reich, a Eco e encontrei o livro de Arendt que me interessava disponível na internet. E tudo faz sentido.

Reich parte da psicologia, Eco da história e da cultura para pensar os fascismos, enquanto Arendt parte de uma visão política e social para analisar os totalitarismos. Os três apontam para manifestações de massa que podem ser o resultado de sentimentos intensos e difusos — insegurança, nostalgia, abandono, desamparo, humilhação, ressentimento, frustração, impotência, medo — e da irracionalidade ante essas emoções, os discursos, teorias conspiratórias e soluções simplificadoras que as geram ou potencializam. Os autores concordam que é um fenômeno mutante e supraideológico:

Para Reich, o fascismo não é uma ideologia nem um fenômeno político exclusivo de certos países, regimes ou culturas. É, antes, a reação moral, física e psíquica do homem e da mulher educados sob o autoritarismo patriarcal e repressor, que leva ao desenvolvimento de pessoas submissas à autoridade, ressentidas e prontas para canalizar a sua agressividade sobre bodes expiatórios. Segundo essa visão, todos temos o gênio fascista em nós e, a depender de certas condições, estímulos e crenças, ele se revela: frustração, impotência e medo são os seus propulsores. Ódio é a sua resposta. Por essa visão, toda a gente é potencialmente fascista.

Para Eco, o fascismo também não é uma ideologia estruturada, mas sim um conjunto contraditório de traços emocionais e simbólicos recorrentes. Nasce do culto à tradição e ao passado idealizado. Rejeita a razão, glorifica a ação cega e alimenta-se da humilhação e da frustração dos que se sentem decadentes ou excluídos — como quem perde prestígio, lugar ou identidade — e converte essa insatisfação em aversão à diferença, ressentimento e ódio. Oferece como identidade a pátria, a conspiração e o líder forte; como missão, a guerra permanente contra os inimigos externos e seus cúmplices, os degenerados e a vida. Exalta a hierarquia, despreza as mulheres, os fracos e as minorias, erotiza a violência, forja um povo homogêneo que só existe como espetáculo e encontra nas telas a ilusão de unanimidade. Não importa a forma: o Fascismo Eterno reaparece sempre que o medo e a carência de ordem e obediência encontram alguém, com vocabulário empobrecido e sintaxe elementar, que prometa proteger a família e a pátria, restaurar os valores morais e devolver ao «Povo» o seu passado utópico. Segundo o autor, o Fascismo Eterno nos cerca, às vezes à paisana, e pode reaparecer sob os mais inocentes disfarces, sobretudo quando há negligência com a democracia.

Para Arendt, os agentes do mal extremo não precisam de uma motivação singular (um desejo próprio, inveja, ira), nem de desvairada ideologia. Também não precisam ser demônios ou perversos desajustados, como os vilões de Shakespeare. O mal pode brotar da absoluta indiferença e da ausência de pensamento crítico, da renúncia à dúvida e à reflexão. Adolf Eichmann, o oficial da SS encarregado de um mal sem precedentes, é apresentado no livro como um homem medíocre, típico da classe média da Alemanha totalitária de então, que tudo fazia preocupado com a própria carreira e imagem. Apesar da fala rasa e cheia de lugares-comuns, não era burro ou ignorante — era um técnico eficaz, um burocrata aplicado, obediente e servil ao Reich. Alegava não ser antissemita e confessou ter tido uma amante judia na Áustria, no período em que foi bem-sucedido ao organizar a «emigração forçada» dos judeus naquele país. Esse «palhaço», sem imaginação nem originalidade, tornou possível a deportação e o extermínio de milhões de pessoas. Eichmann serviu a Arendt como paradigma da «banalidade do mal»: o cidadão de bem que, movido por certas circunstâncias, abdica de pensar moralmente sobre seus próprios atos.

Os alemães internalizaram o medo e a lógica do regime e, fosse por ódio aos judeus, indiferença ou submissão, ninguém se opunha.

A certa altura do julgamento, em sua própria defesa, Eichmann diz algo do tipo: «Eu não deveria estar sendo julgado. Ao contrário, eu deveria ser premiado, porque cumpria com a minha obrigação. Em 1944, quando Himmler [um comandante da mais alta patente na SS nazista] disse para eu parar com as deportações, porque ele queria trocar judeus por caminhões, eu não obedeci. Sabia que essa não era a vontade do Hitler...». A descrição de Eichmann feita por Arendt dialoga com o conceito de «trabalhar para o Führer», concebido por Ian Kershaw7. Por esse conceito, os subordinados procuravam se antecipar ao líder, pensavam ler nas entrelinhas dos seus discursos o que o Führer queria dizer e, por iniciativa própria, empenhavam-se na execução daqueles desejos — frequentemente com tal zelo que, no início, nem o próprio Hitler imaginaria ir tão longe. Essa lógica era adotada por toda a sociedade alemã, em todos os níveis. Os alemães internalizaram o medo e a lógica do regime e, fosse por ódio aos judeus, indiferença ou submissão, ninguém se opunha.

O mal está na ausência de pensamento crítico, que se cala; no automatismo e no isolamento das câmaras de eco6, que impedem as pessoas de confrontar diferentes perspectivas e desenvolver um julgamento moral sólido, contribuindo para a propagação de ideologias totalitárias. É nessa situação de total entrega ao regime que o mal se torna banal, cotidiano, impessoal, burocrático e… devastador.

As condições econômicas e sociais estão criadas: a impotência dos governos; a irrelevância das fronteiras; o empobrecimento da classe média; as indústrias e seus postos de trabalho transferidos para a Ásia; a mão de obra sem especialização, mal paga e precarizada — praticamente toda — é só mão imigrante; as inovações tecnológicas, que sempre roubaram trabalho aos menos escolarizados, agora ameaçam empregos dos especialistas; o desamparo crescente nos serviços públicos, nos cuidados de saúde, educação e segurança social; o susto com a COVID-19; o temor da guerra de volta à Europa; a inflação que rouba os salários; nas melhores cidades, a enchente de turistas que invade as casas nos melhores bairros; enquanto, nos piores, são os vizinhos imigrantes que encarecem o preço dos aluguéis; a frustração, a impotência e o medo espalhados on-line e as bolhas sociais reprisando sempre, sempre e sempre o mesmo refrão: o passado utópico, a prerrogativa da maioria, as conspirações, os culpados de sempre, a defesa da pátria, o chamamento à ação, a irracionalidade, a insensatez do senso comum, a virilidade e a truculência, a vitória redentora com o líder salvador e o simplismo das suas soluções.

O mal está na ausência de pensamento crítico, que se cala; no automatismo e no isolamento das câmaras de eco, que impedem as pessoas de confrontar diferentes perspectivas e desenvolver um julgamento moral sólido, contribuindo para a propagação de ideologias totalitárias. É nessa situação de total entrega ao regime que o mal se torna banal, cotidiano, impessoal, burocrático e… devastador.

Os autores indicam caminhos possíveis para prevenir ou combater os fascismos. Reich acredita que indivíduos com relações plenas e menos bloqueios emocionais são mais resistentes à influência de figuras autoritárias. Eco nos aconselha a desconfiar dos discursos que idealizam um passado glorioso e a ordem. Enfatiza que é preciso perceber e denunciar os primeiros sinais do fascismo (pequenos gestos, símbolos, frases, memes) antes que seja normalizado. E, como, segundo ele, o fascismo detesta ambiguidade e cerceia o raciocínio complexo e crítico, propõe o humor, o gosto pela dúvida, a cultura e a educação como instrumentos de resistência. Arendt aponta a obediência automática e a indiferença como pilares do mal banal. Resgatar o pensamento autônomo e a reflexão sobre a condição do outro é central no seu combate.

Em seus versos, escritos no final dos anos 1930, exilado da Alemanha, Bertolt Brecht8 atira-nos — a nós que viemos depois — o tanto que viu, as dores que sentiu, os males que sua geração teve de suportar «quando havia só injustiça e nenhuma indignação». E lembra que nós, chegados após a torrente que os submergiu, não provamos daquilo que os sustentava sob a opressão, enquanto presenciavam o horror. Fruto da nossa incompreensão, inquieta-lhe as críticas que talvez façamos ao alheamento deles, no início, à fraqueza dos que, depois, calaram, e pede a nossa indulgência antes do julgamento; porque aqueles que não foram indiferentes e resistiram tiveram desfigurados os rostos, endurecidas as falas e não puderam ser bons. E lamenta-se: perdemos o presente a preparar o futuro. 

Do legado que recebemos à herança que deixaremos, temos um compromisso com Reich, Brecht, Arendt, Eco e tantos outros que nos abriram o caminho, e uma dívida com aqueles que virão depois de nós. Por que, então, estamos jogando tudo fora?



Notas:

1 Wilhelm Reich (1897–1957), médico e psicanalista austríaco, foi um dos primeiros discípulos dissidentes de Freud. Durante o Terceiro Reich, exilou-se na Escandinávia e depois nos EUA, perseguido por nazistas e comunistas. A Psicologia de Massas do Fascismo, escrito em 1933 e publicado no mesmo ano na Dinamarca, analisa o fascismo como expressão da estrutura psíquica autoritária e sexualmente reprimida das massas. A obra une psicanálise, marxismo e crítica cultural.

2Bhagwan Shree Rajneesh (1931–1990), mais tarde conhecido como Osho, foi um líder espiritual indiano que, a partir dos anos 1970, criou um movimento internacional centrado em ideias de iluminação espiritual, bem como de libertação emocional e sexual. Atraiu milhares de seguidores ao redor do mundo, especialmente ocidentais, em busca de sentido, comunhão e transcendência. Em 1981, fundou com seus discípulos a comuna Rajneeshpuram, no Oregon (EUA), que se tornou alvo de controvérsias legais e sociais — parte delas retratada no documentário Wild Wild Country (Netflix, 2018). Após sua morte, o movimento continuou a influenciar práticas contemporâneas de meditação e espiritualidade.

3O bipartidarismo no Brasil foi instituído após o golpe de 1964 pelo Ato Institucional nº 2, de 1965. Implantado como instrumento político da dominação autoritário-militar, visava, sobretudo, concentrar prerrogativas de controle político no Executivo, sobre o qual as Forças Armadas possuíam completo poder. O sistema permitia apenas dois partidos: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), de apoio ao governo militar, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). A ARENA representou o papel de braço partidário-parlamentar do autoritarismo vigente, dentro de um Congresso igualmente despido de suas prerrogativas clássicas. Como partido governista, submeteu-se docilmente às iniciativas legislativas do Executivo, defendendo-o sistematicamente das críticas da oposição, sem, no entanto, lograr ser um verdadeiro partido de governo (Atlas Histórico da América Latina e Caribe – FGV, verbete “ARENA”, disponível em: https://atlas.fgv.br/verbete/5735. Acesso em: 23 maio 2025).

4O escritor Umberto Eco (1932–2016), crescido na Itália de Mussolini, viveu na infância o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrocada do regime fascista — experiência que conta, em jeito de autobiografia, no seu ensaio «O fascismo eterno» (1995). Nele descreve quatorze características do fascismo como fenômeno atemporal, mutante e sempre à espreita. O texto, originalmente apresentado numa conferência na Universidade de Columbia, pouco após o atentado de Oklahoma City, foi um alerta contra formas de fascismo que podem renascer sob novas roupagens, inclusive democráticas, desde que mantenham certos traços essenciais: o culto à tradição, o medo da diferença, o apelo ao ressentimento social, a oposição ao pensamento crítico e o populismo.

5Hannah Arendt (1906–1975), filósofa judia alemã, foi aluna de Heidegger e Jaspers. Detida em Berlim pela Gestapo, em 1933, fugiu para Paris, onde, em 1940, foi presa pelo regime colaboracionista francês. Mais uma vez foragida, embarcou em Lisboa, em 1941, para Nova York. Naturalizou-se americana em 1951. Desenvolveu um pensamento autônomo, “sem corrimão”, e contribuiu com análises sobre totalitarismo, responsabilidade moral e ação política. É autora de obras como Origens do Totalitarismo (1951), A Condição Humana (1958), Entre o Passado e o Futuro (1961) e Eichmann em Jerusalém, onde formulou a tese da «banalidade do mal». Em 1961, Arendt cobriu o julgamento de Adolf Eichmann para a revista The New Yorker. Em maio de 1963, publicou a primeira edição do livro. Eichmann foi oficial da SS e um dos principais organizadores da logística de execução do plano de extermínio dos judeus da Europa (a “Solução Final”). Fugido para a Argentina após a guerra, foi capturado pelo Mossad em 1960. Entre abril de 1961 e maio de 1962, foi julgado, condenado e enforcado em Jerusalém.

6Em Republic.com 2.0 (2007) e Going to Extremes (2009), Cass Sunstein explica como as redes sociais e os algoritmos criam «câmaras de eco» — as «bolhas» —, ambientes em que o indivíduo é exposto apenas a opiniões semelhantes às suas, o que reforça posições extremas e isola o sujeito de visões divergentes.

7Ian Kershaw, professor de História Moderna na Universidade de Sheffield, biógrafo de Adolf Hitler, especialista em Alemanha nazista e no Terceiro Reich, desenvolveu o conceito Trabalhar para o Führer, segundo o qual “os subordinados antecipavam o patrão. Hitler representava ideias-chave que outras pessoas colocavam em prática”. Não só funcionários públicos, mas também médicos, juízes, empresários e cidadãos alemães não esperavam ordens diretas do Führer: interpretavam-nas e agiam por iniciativa própria — radicalmente. Essa dinâmica criou um ambiente em que iniciativas extremas eram não apenas toleradas, mas encorajadas, levando à escalada de políticas repressivas e genocidas. Cf. KERSHAW, Ian. Working Towards the Führer, 1993.

8Bertolt Brecht (1898–1956), dramaturgo, poeta e encenador alemão. Criador do teatro épico e da técnica do distanciamento, defendia uma arte crítica e engajada, que rompesse com a passividade do espectador. Casado com a atriz judia Helene Weigel, exilou-se em 1933, vivendo em vários países até que, fugindo do macarthismo, deixou os EUA para fixar-se em Berlim Oriental. Influenciou decisivamente o teatro político do século XX. Mãe Coragem e Seus Filhos, O Círculo de Giz Caucasiano e A Vida de Galileu estão entre suas obras mais encenadas.

Osvaldo Alvarenga

Escritor

Newsletter

progressistas.pt

Newsletter

«Artigos. Opiniões. Novas ideias. Crónicas. Envia-nos as tuas.»
info@progressistas.pt

Artigos Relacionados

Casa-teatro

As casas-teatro são perigosas, porque são dissidentes, não-normativas, alternativas, ambíguas, múltiplas, causam desconforto, questionam narrativas oficiais, e pior, fazem as pessoas sentir. Elas não operam apenas no plano da lógica e não pretendem nenhuma verdade absoluta. São um acontecimento colectivo.

09.07.2026 Sara Carinhas Opinião

A importância da descolonização mental

Embora se tenha libertado a população da ditadura, mantém-se um cordão umbilical do saudosismo imperialista, uma concepção social dos «heróis-do-mar», conquistadores expansionistas que levaram a civilização ocidental e o cristianismo ao longo do globo. Algo que, imediatamente na sua premissa, desumaniza os povos que foram invadidos, violentados, escravizados e vendidos como mercadoria durante o período dos «descobrimentos» e comércio transatlântico de escravos.

01.07.2026 Carlos Kangoma (Lucy) Opinião