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A festa é um protesto: os artistas estão a reacender o ativismo político?
Enquanto os movimentos de extrema-direita apertam o seu domínio sobre a política europeia e procuram capturar a cultura – comprando meios de comunicação, instalando figuras partidárias nas instituições culturais e deslocando as fronteiras do discurso público –, um contraciclo está a emergir. Por todo o continente, «artivistas» estão a reconquistar a cultura como um espaço de resistência democrática e a usar a arte para promover solidariedade e inclusão. Conseguirão reavivar a imaginação política da Europa e remobilizar os cidadãos?
Este artigo foi originalmente publicado no Green European Journal, em janeiro de 2026.
É uma noite chuvosa de sábado em setembro, num antigo terreno ferroviário desativado no sudeste de Paris, agora transformado num local temporário para eventos que celebram a inovação social e cultural. Apesar do dilúvio nesta segunda noite do Festival Fluctuations, o público – uma mistura animada de homens e mulheres com idades ali entre os 20 e os 45 anos – dança com força e canta em voz alta. No palco, quatro membros do coletivo francês Planète Boum Boum montaram uma atuação enérgica.
A multidão grita em uníssono: La vraie menace n'arrive pas en bateau, elle est ici, c'est les fachos! («A verdadeira ameaça não chega de barco, já está aqui: são os fascistas!»)
Enquanto batidas frenéticas de techno trespassam a multidão, os quatro intérpretes gritam os seus slogans ao microfone com convicção. Envolvem-se em coreografias simples mas eficazes que o público consegue facilmente reproduzir. Manter o tom não interessa muito; no palco e fora dele, todos estão a passar um belo momento politicamente consciente.
Por toda a Europa, coletivos, organizações sem fins lucrativos e indivíduos estão a organizar-se para reacender a chama do envolvimento democrático. Algumas das iniciativas mais bem-sucedidas têm mobilizado ferramentas que vão além do manual tradicional do ativismo político: as artes.
E no entanto, para lá do recinto do concerto, o ambiente político é radicalmente diferente. O primeiro abalo veio em 2002, quando Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional e veterano do exército acusado de torturar combatentes independentistas argelinos nos anos 1960, chegou à segunda volta das eleições presidenciais. Dezasseis anos depois, no entanto, o partido reinventou-se como Reagrupamento Nacional (RN, Rassemblement National) e goza agora de um apoio sem precedentes: o RN tem o maior número de representantes no Parlamento Europeu e é o maior partido na Assembleia Nacional.
Também pela Europa, o panorama político está a assumir um tom de azul cada vez mais escuro. Os partidos de extrema-direita estão no governo em mais de um quarto dos Estados-membros da UE. Mesmo nos países onde não governam, exercem uma influência considerável sobre o discurso político e público. Isto é também visível ao nível da UE, onde o Partido Popular Europeu – o maior grupo político no Parlamento Europeu – se tem alinhado cada vez mais com a extrema-direita.
Estes acontecimentos tornam cruciais os espaços de resistência – como aquele no sudeste de Paris. Por toda a Europa, coletivos, organizações sem fins lucrativos e indivíduos estão a organizar-se para reacender a chama do envolvimento democrático. Algumas das iniciativas mais bem-sucedidas têm mobilizado ferramentas que vão além do manual tradicional do ativismo político: as artes. O termo artivista é cada vez mais usado para descrever pessoas que participam em protestos através da arte.
A resistência cultural, redescoberta
Uma junção de art (arte) e activist (ativista), este termo surgiu pela primeira vez em 1997 para descrever a união de artistas Chicano nos Estados Unidos e o movimento zapatista no México. Captava um momento em que a expressão artística e o ativismo de base se fundiram para desafiar as desigualdades sociais e políticas em ambos os países. Hoje, à medida que governos de direita em países como Itália, Alemanha, Hungria e França retiram financiamento às práticas artísticas independentes ou instalam figuras politicamente alinhadas à frente de instituições culturais fundamentais, o (re)surgimento desta abordagem politicamente motivada da arte parece especialmente significativo.
«Não inventámos nada de novo», diz Marie Cohuet, membro do coletivo Planète Boum Boum. «Quando olhamos para a história das lutas em todo o lado, houve sempre pessoas a fazer música, a cantar, a montar espetáculos e a fazer coisas que, de uma forma ou de outra, ajudam a manter a luta viva a longo prazo, a criar um sentido de coesão.»
A abordagem dos Planète Boum Boum combina a natureza histórica das raves com as teorias do filósofo francês Florian Gaité, especialista em free parties. Gaité defende uma visão radical do clubbing e da dança, na qual o esgotamento inútil, fútil e improdutivo do corpo é um ato de resistência anticapitalista.
O Planète Boum Boum, um coletivo de nove ativistas que se conheceram através da organização Action Justice Climat, diz que o seu objetivo é «trazer a festa aos protestos e o protesto às festas». Dão energia a marchas ou encontros políticos e são agora também frequentemente convidados para fazer sets de DJ em clubes e eventos «apolíticos».
Apenas um membro do grupo tem formação musical formal, já que a maioria só começou a cantar quando o coletivo foi formado. Quando estes ativistas notaram que a música e a dança eram alavancas eficazes, decidiram incorporá-las no seu trabalho. A sua abordagem – que descrevem como techno-ativismo – combina a natureza histórica das raves, feitas para unir pessoas, com as teorias do filósofo francês Florian Gaité, especialista em free parties. Gaité defende uma visão radical do clubbing e da dança, na qual o esgotamento inútil, fútil e improdutivo do corpo é um ato de resistência anticapitalista.

A ascensão em popularidade dos Planète Boum Boum começou em 2023, quando um vídeo se tornou viral mostrando alguns dos seus membros a liderar uma marcha contra as impopulares mexidas nas pensões, através da dança. Desde então, o seu perfil no Spotify acumula centenas de milhares de reproduções.
«Vivemos tempos difíceis. O nosso contexto político está a deteriorar-se. Os ataques racistas estão a explodir, e temos desigualdades profundas. À escala global, é aterrador», diz Cohuet. «Penso que há uma verdadeira necessidade de nos unirmos e sentirmos que temos um certo poder e força quando nos unimos. A música cria mesmo isso. É isso que funciona bem com o Planète Boum Boum: usamos muita caricatura, sátira e humor. É importante sentir que não estamos condenados, que temos a capacidade de mudar as coisas.»
Graças às redes sociais, a visibilidade dos «artivistas» tem crescido, sustentando organizações sociais, ambientais e antifascistas.
O coletivo aborda uma grande variedade de temas. Planète Boum Boum aborda a justiça social e climática a partir de diferentes ângulos: apela à preservação dos serviços públicos, critica as reformas injustas das pensões em plena crise climática, denuncia a incompatibilidade entre as ideologias de extrema-direita e a ação ambiental. Isto acontece num momento crucial para a Europa: apesar da crescente consciência ecológica, os partidos Verdes e a regulação ambiental têm sofrido um revés à medida que o continente lida com o elevado custo de vida e uma guerra em solo europeu. Ao mesmo tempo, os partidos de extrema-direita têm capitalizado sobre estas crises, tanto para alimentar como para responder ao sentimento de insegurança dos cidadãos. Ainda assim, graças às redes sociais, a visibilidade dos artivistas tem crescido, sustentando organizações sociais, ambientais e antifascistas.
«Penso que há uma verdadeira necessidade de nos unirmos.», diz Marie Cohuet, dos Planète Boum Boum. «A música cria mesmo isso. Usamos muita caricatura, sátira e humor. É importante sentir que não estamos condenados, que temos a capacidade de mudar as coisas.»
«Colaboramos regularmente com sindicatos, meios de comunicação socialmente empenhados e coletivos ligados a causas. O objetivo é tentar dar destaque aos seus esforços e dar-lhes força, seja mobilizando pessoas que normalmente não ouviriam falar destas questões, seja encaminhando-as para uma ação específica, como comparecer a uma manifestação numa determinada data, assinar uma petição, ou juntar-se a um coletivo», explica Cohuet. «Conseguimos chamar atenção para causas em momentos-chave, como a votação contra a inclusão de PFAS em produtos do dia a dia, a privatização do transporte ferroviário de mercadorias pelo governo ou as questões em torno da lei Duplomb.»
Estas histórias de sucesso tiveram uma forte repercussão na sociedade francesa. Em fevereiro de 2025, os legisladores votaram a proibição dos PFAS (conhecidos como químicos eternos) em cosméticos, roupa, calçado e ceras de esqui, a partir de 2026. Em pleno verão de 2025, mais de 2,1 milhões de cidadãos assinaram uma petição alojada na plataforma oficial da Assembleia Nacional para exigir a revogação da lei Duplomb, que incluía uma cláusula que teria permitido a reintrodução de acetamiprida, um pesticida altamente cancerígeno. Sob pressão pública, o tribunal constitucional francês anulou a disposição controversa.
A música impulsiona a mudança na Grécia
Entretanto, outras organizações artivistas optaram por atuar a uma escala mais local. Por exemplo, a El Sistema Greece usa a educação musical para reforçar a inclusão social. Oferece aulas de música gratuitas em campos de refugiados e abrigos para menores não acompanhados, bem como para a população local em centros urbanos em Atenas e Corinto.
«Trabalhamos em três níveis: os nossos alunos, as suas famílias e depois a sociedade», explica Angeliki Georgokosta, diretora-geral da El Sistema Greece. «Trabalhamos com os nossos alunos para aumentar a sua autoestima. Tentamos criar um ambiente que encoraje e motive as crianças a tornarem-se cidadãos ativos. Quando temos as nossas aulas, os nossos concertos, temos pessoas de diferentes etnias, línguas e religiões. Todas se juntam apenas pela música.» Acrescenta que o objetivo da organização é tornar a sociedade grega mais aberta à diversidade e superar o medo do recém-chegado que vemos crescer no país.
«Tentamos criar um ambiente que encoraje e motive as crianças a tornarem-se cidadãos ativos. Quando temos os nossos concertos, temos pessoas de diferentes etnias, línguas e religiões. Todas se juntam apenas pela música.» - Angeliki Georgokosta, diretora-geral da El Sistema Greece.
Desde 2016, mais de 3.500 pessoas participaram nas aulas da El Sistema Greece. Só no ano letivo de 2024-2025, quase 16.000 pessoas assistiram às suas atuações.

«Fazemos concertos não só nos nossos espaços comunitários, mas também nos maiores teatros de Atenas, como o Centro Cultural da Fundação Stavros Niarchos e o Athens Concert Hall. Tentamos estar na cultura mainstream. Desta forma, pessoas que não estão diretamente ligadas aos alunos também veem esta orquestra a alcançar um bom resultado a partir de indivíduos de 40 nacionalidades diferentes e de contextos tão distintos. Queremos espalhar a semente de que isto também pode ser a nossa sociedade», diz Georgokosta. «Usamos frequentemente repertório que não é clássico nem grego. Já usámos repertório dos países de cada um dos nossos alunos. Queremos celebrar todas as pessoas que existem dentro da nossa comunidade.»
A Grécia tem vindo a reforçar os controlos de imigração desde 2019, chegando ao ponto de emitir uma suspensão de três meses dos pedidos de asilo em julho de 2025, em violação do direito internacional. O seu governo também foi acusado de corrupção. Pelo menos 325.000 manifestantes reuniram-se em Atenas e em Salónica em fevereiro de 2025 para exigir justiça pelas 57 pessoas que morreram no acidente de Tempi em 2023, entre um comboio de passageiros e um comboio de mercadorias. Este acidente ferroviário, o maior da história do país, deu origem a um escândalo político contínuo. Relatórios oficiais afirmam que o acidente se deveu a erro humano e a uma rede ferroviária com falhas de manutenção, mas as famílias das vítimas alegam que os detalhes do acidente estão a ser encobertos. Um relatório pericial que encomendaram mostra que o comboio de mercadorias transportava químicos que provocaram a explosão e a asfixia de passageiros anteriormente ilesos pela colisão.
Mas o artivismo da El Sistema Greece cria pontes em comunidades fraturadas por um discurso político polarizado e os seus alunos recorrem à organização para navegar o clima politicamente aceso da Grécia. «Estamos a ver que [estes desenvolvimentos políticos] são difíceis de processar para toda a gente, mesmo para a nossa equipa. Por isso, estamos a reunir-nos com universidades e pessoas que trabalham há muitos anos nas ciências sociais para que possam liderar discussões sobre estes temas com todos os nossos alunos. Vemos como isso é crucial. Já não podemos evitá-lo.»
Este envolvimento vai expandir aquilo que a organização já tinha iniciado com o seu programa Young Leaders, um grupo de 15 alunos que se reuniu uma vez por mês para workshops sobre como poderiam usar a música, a El Sistema Greece e a sua comunidade para tomar decisões e falar sobre temas que lhes interessam. Um dos principais objetivos do programa foi ensinar os participantes sobre os direitos das crianças e os direitos humanos, para que pudessem compreender e defender os seus direitos e os dos outros.

«Estamos a tornar-nos num programa mais holístico, que não é só sobre música, mas sobre como esta pode ser usada como uma ferramenta poderosa para falar sobre as questões sociais mais prementes do nosso tempo. Trata-se também de criar espaço para que as crianças falem por si próprias, se expressem e digam como deve ser o seu futuro, para que tenham voz.»
Reencantar a política
O que está em jogo para os artivistas, seja à escala nacional ou local, é a mudança de narrativa: tanto quanto a quem conta a história e encarna novos futuros, como quanto ao imaginário coletivo que está a ser promovido.
«A arte e a cultura são os últimos escudos que temos para defender a democracia, a liberdade, a nossa capacidade de compreender, respeitar e descobrir uns aos outros, e de ir além daquilo que nos torna diferentes. Também treina a nossa criatividade», diz Paula Forteza, fundadora da galeria parisiense Artivistas, que promove artivistas latino-americanos residentes em França e na América do Sul.

Forteza é copresidente da organização sem fins lucrativos Démocratie ouverte e foi deputada em França entre 2017 e 2022. Voltou-se para o artivismo como forma de explorar novos caminhos para a participação democrática, depois de perceber que a via política convencional não seria a mais eficaz para ela, dada a desconfiança institucional por parte dos cidadãos.
«O que senti na política é que faltava mesmo criatividade. Penso que os políticos fariam bem em fazer aulas ou workshops de arte para renovar as suas ideias», diz Forteza. «Penso que precisamos mesmo de desenvolver práticas artísticas. São antídotos aos valores da extrema-direita e ao que os seus porta-vozes tentam implementar: intolerância, desdém, agressão, violência e polarização.»
«O que senti na política é que faltava mesmo criatividade. Penso que os políticos fariam bem em fazer aulas ou workshops de arte para renovar as suas ideias» - Paula Forteza, fundadora da galeria Artivistas.
Esta batalha cultural está a tornar-se cada vez mais complexa, à medida que a extrema-direita também tem investido fortemente na esfera cultural para amplificar as suas mensagens e deslocar a janela de Overton, de forma a espalhar um discurso alimentado pelo ódio – através da aquisição de meios de comunicação e editoras, bem como pelo financiamento de produtos culturais que perpetuam narrativas históricas ultrapassadas de hegemonia branca.

À medida que as pessoas se afastam dos meios de comunicação e da política tradicionais, os artivistas desempenham um papel fundamental na manutenção viva da luta contra a injustiça. Guiadas pela criatividade, alegria e resistência não-violenta, as suas ações podem ajudar a construir uma sociedade solidária e participativa.
«Precisamos mesmo de desenvolver práticas artísticas. São antídotos aos valores da extrema-direita e ao que os seus porta-vozes tentam implementar: intolerância, desdém, agressão, violência e polarização.»
«Quando estudava na Argentina, escrevi uma tese em que cruzava períodos de crise económica com a atividade cultural e a produção artística. Através dos dados, tornou-se muito claro que, em tempos de crise, a atividade cultural explodia», recorda Forteza.
«O artivismo pode certamente reencantar a política – no sentido nobre da palavra – e as batalhas em torno dos valores. Penso que fala a um público mais alargado. Tem esse tipo de sinceridade inerente à expressão artística, que vem do coração.»
Sedera Ranaivoarinosy
Escritora, editora e tradutora baseada em Paris. Estudou jornalismo e literatura dramática em Nova Iorque, trabalhou durante cinco anos no setor da economia social e filantropia. Membro do comité editorial que criou a Charte de Marseille, um código de ética para jornalistas que cobrem temas sobre migração.
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