«Artigos. Opiniões. Novas ideias. Crónicas. Envia-nos as tuas.»info@progressistas.pt
Um Mundial feudal num relvado sempre inclinado
As SAD foram o irreversível ponto de não retorno que prendeu o futebol, cuja origem remonta a uma prática popular e comunitária, nas malhas do mercado global, corporativizando-o lenta mas seguramente, até sugar o seu carácter de resistência.
Apesar disso, a história da modalidade continuou, para o bem e para o mal, a contar na assistência com representantes de todas as classes sociais, embora com óbvias diferenças, contrastando o luxo dos camarotes onde servem camarão tigre com o das bancadas onde as massas hipnotizadas entram em pura catarse nos momentos críticos, no que é apenas mais uma situação onde o acesso depende da condição económica.
Este último reduto onde o futebol reflecte o real, está, como nos festivais de música, a ser eliminado através do sistema de preços dinâmicos implementado pela FIFA no Mundial de 2026. Esta forma de manipulação é na verdade um encenar travestido da lei da oferta e da procura segundo Marx, onde as oscilações são apenas temporárias.
Os preços não reflectem o valor real do trabalho, mas o fetichismo da mercadoria engajado com o star system futebolístico, onde, numa inversão entre sujeito e objecto, os jogadores são eles próprios mercadoria gourmet.
À semelhança do que acontece com as companhias aéreas, os hotéis e as grandes promotoras de espectáculos, os preços não reflectem o valor real do trabalho, mas o fetichismo da mercadoria engajado com o star system futebolístico, onde, numa inversão entre sujeito e objecto, os jogadores são eles próprios mercadoria gourmet.
Esta prática especulatória, comum em outras áreas, resulta no óbvio afastamento dos adeptos, cujo interesse frequentemente não condiz com a capacidade económica, criando um feudalismo elitista de CEO e celebridades.
Enquanto no Mundial do Qatar, não obstante as polémicas, a entrada mais barata era de 11 dólares, os bilhetes são agora 40 vezes mais caros, com alguns a ultrapassar os 10.000 dólares, situação louvada pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, como uma distinção, quando na realidade representa uma indiscutível forma de exclusão.
Enquanto no Mundial do Qatar, não obstante as polémicas, a entrada mais barata era de 11 dólares, os bilhetes são agora 40 vezes mais caros, com alguns a ultrapassar os 10.000 dólares.
Livre das leis regulatórias mais restritas da Europa, à FIFA não bastou atribuir um fictício e encomendado prémio da paz a Donald - aproveita a competição para aplicar a lógica tarifária presidencial e, ao mesmo tempo, aplacar a sua ira, adoptando a mesma abordagem da Super Bowl e controlando também a revenda dos bilhetes, com 30% de comissão cobrada tanto ao vendedor como ao comprador.
Esta intransigente postura da FIFA tem encontrado resistência um pouco por toda a América, desde associações de moradores até procuradores gerais e mesmo de políticos, devido a suspeitas de escassez artificial de bilhetes - uma prática comum nos espectáculos musicais –, existindo jogos com bancadas vazias, apesar da impossibilidade de comprar ingressos.
Para juntar o insulto à injúria, acumulam-se as restrições aos vistos de jogadores, invariavelmente de países africanos e do Médio Oriente. Foi o caso do Irão, obrigado a treinar no México, do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, com visto válido, mas igualmente impedido de entrar em domínio trumpiano.
Para juntar o insulto à injúria, acumulam-se as restrições aos vistos de jogadores, invariavelmente de países africanos e do Médio Oriente. Foi o caso do Irão, obrigado a treinar no México, do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, com visto válido, mas igualmente impedido de entrar em domínio trumpiano.
Países como o Haiti, o Senegal ou a Costa do Marfim denunciaram recusas de visto ou, nos casos em que os havia, atrasos propositados para impedir os adeptos de assistir aos jogos. As restrições não têm sido apenas contra adeptos e equipas, também jornalistas africanos e islâmicos foram impedidos de entrar nos EUA.
A ministra brasileira para a Igualdade Racial, Anielle Franco, denunciou os serviços alfandegários americanos como discriminatórios «concretamente contra pessoas negras, muçulmanas e imigrantes» e Mamdami, sempre Mamdami, já veio a público dizer que não existe futebol sem imigração.
A ministra brasileira para a Igualdade Racial, Anielle Franco, denunciou os serviços alfandegários americanos como discriminatórios «concretamente contra pessoas negras, muçulmanas e imigrantes» e Mamdami, sempre Mamdami, já veio a público dizer que não existe futebol sem imigração
Da mesma forma, o Subcomandante Marcos, representante dos Zapatistas, criticou não só a FIFA, como os países envolvidos, por desconsiderarem problemas sociais emergentes e por expropriarem o futebol do seu potencial revolucionário. E defendeu que o mais importante e interessante da competição acontecerá fora dos estádios, onde os trabalhadores foram maioritariamente imigrantes pagos com fundos públicos.
Como qualquer instituição de neoliberalismo autoritária moderna que se preze, a FIFA atenta nos pormenores e implementou medidas como proibir adeptos de entrar com garrafas de água, apesar das temperaturas elevadas, prática que em Portugal aceitamos, passivamente, nos festivais de verão, sem qualquer contestação.
Mesmo podendo não ser directamente responsabilizada pela discriminação nas entradas nos EUA, a FIFA é claramente complacente com a política da administração do presidente, porque parece servir o seu interesse monopolista principal: o de completar a transformação do futebol de desporto de massas em desporto de e para as elites, com características de capitalismo de vigilância.
Mesmo podendo não ser directamente responsabilizada pela discriminação nas entradas nos EUA, a FIFA é claramente complacente com a política da administração do presidente, porque parece servir o seu interesse monopolista principal.
Esta é a discussão mais importante do futebol actual, oculta atrás da sua crescente e habitual espectacularização que lhe nega qualquer outra possibilidade, excepto a de escapismo perante a ruína do nosso mundo.
O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.
Hugo Filipe Lopes aka Cobramor
Escravatura no espaço atlântico
Newsletter
Newsletter
Artigos Relacionados
Jamie Kendrick: «Precisamos de voltar a unir as pessoas»
Especialista em pós-crescimento na Green European Foundation, Jamie Kendrick esteve em Portugal para falar sobre a Economia do Bem-Estar e os novos desafios aos progressistas do futuro.
«Não é não» é sim. Também à corrupção?
Se o combate contra a corrupção fosse a sério, a primeira barreira devia ser a transparência. Mas, pelo contrário, Governo, Presidente da AR e Chega usam hoje tudo contra a transparência. Até, cinicamente, a proteção de dados dos cidadãos lhes serve para impedir o escrutínio jornalístico.
A Constituição não é uma app
Sejamos honestos, os grandes problemas do dia a dia não se resolvem ao mexer na Constituição. O que preocupa as pessoas é o preço do supermercado, a renda que nunca baixa ou a consulta que nunca chega.