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Portugal quer transformar o Saara Ocidental numa Riviera?
Agora que terminou o Mundial de 2026, temos de nos confrontar com o que mal se oculta atrás do Mundial de 2030, em que Portugal assume o orgulhoso papel de organizador, de mãos dadas com Espanha e Marrocos, sendo que esta última insiste em ser a não menos orgulhosa potência ocupante do Saara Ocidental.
O Saara Ocidental é uma antiga colónia de Espanha, que a ONU aponta como território não autónomo por estar ocupado por Marrocos, e numa eterna espera do referendo de autodeterminação, previsto em resolução da ONU, e nos acordos de cessar-fogo que puseram (mais ou menos) fim ao conflito armado, abrindo décadas de violação dos direitos humanos do povo sarauí, como se pode ler nos relatórios anuais da Amnistia Internacional.
Assim, a adesão do Reino de Marrocos a esta parceria ibérica com a FIFA – que entregou um “Prémio da Paz” a Donald Trump – integra uma estratégia de longo prazo, para normalizar a violação em curso do direito internacional, assente em grande medida nas indústrias do turismo e do entretenimento, juntando sportwashing e culturewashing.
Como exemplo à escala internacional, podemos apontar a recente escolha do Saara Ocidental para a rodagem de cenas da adaptação da «Odisseia», de Homero, por Christopher Nolan. A imprensa de referência, nomeadamente no Guardian e também no Le Monde, denunciou a utilização da cidade de Dahkla para a rodagem deste blockbuster da Universal e da Syncopy, produtora do próprio realizador; isto num contexto em que o povo sarauí não pode sequer pegar numa câmara, para dar conta ao mundo das suas próprias histórias. E a esta denúncia juntou-se também a imprensa de referência portuguesa, através do jornal Público.
A adesão do Reino de Marrocos a esta parceria ibérica com a FIFA – que entregou um «Prémio da Paz» a Donald Trump – integra uma estratégia de longo prazo para normalizar a violação em curso do direito internacional, assente em grande medida nas indústrias do turismo e do entretenimento, juntando sportwashing e culturewashing.
Porém, tudo isto fica mais interessante, ou pelo menos mais próximo, se repararmos que, ainda há poucos meses, ao mesmo jornal português pareceu bem – a troco de viagens, alojamento e oportunidade para fotografar o sol a cair sobre mar e deserto – aliar-se à potência ocupante no seu esforço de branqueamento do direito internacional, com imagens de luz, sombra e kite surfs a encher o céu, e citações acerca do potencial comercial da cultura sarauí.
Ou seja, a mesma imprensa que agora aponta a utilização acrítica, irresponsável e cruel de Dakhla – como mero set da indústria do entretenimento – não hesitou um segundo em promover a mesma cidade, a convite do Turismo de Marrocos e ao serviço da respetiva indústria, que tenta branquear a violação do direito internacional.
Como se isto não bastasse – isto de estar a soldo de uma potência que estica, em pleno século XXI, os laços de dominação colonial – o Público deu a conhecer esta peça, na semana em que uma comitiva do Parlamento Europeu, integrando um deputado finlandês, uma espanhola e uma portuguesa, foi ilegalmente impedida de desembarcar no Saara Ocidental, por indivíduos não identificados – naturalmente ao serviço do Estado de Marrocos – que com recurso à força física impediram a verificação do (não) cumprimento de uma sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia, precisamente acerca da violação, por parte da UE, da autodeterminação do Saara Ocidental.
Vamos ver o que está mais do que à vista ou vamos continuar a fazer de conta que não vemos, reforçando e celebrando a ocupação do Saara Ocidental, a troco de cinema, futebol e turismo, todos bem enrolados no imprescindível pôr do sol?
E são duas as questões com que teremos de nos debater – em particular, partidos, ONG, jornalistas – nos quatro anos que nos separam de mais um evento organizado pela FIFA:
Primeiro, o que temos obrigação de conhecer, seja no que diz respeito às resoluções da ONU, relatórios da Amnistia Internacional ou, por exemplo, interesses da Sonae (proprietária do Público) em Marrocos, em particular com os Centros Comerciais Sonae Sierra, que dependem de licenciamentos da administração pública marroquina?
Depois, saber o que devemos fazer em termos de cidadania, política, direito internacional, direitos humanos: vamos ver o que está mais do que à vista ou vamos continuar a fazer de conta que não vemos, reforçando e celebrando a ocupação do Saara Ocidental, a troco de cinema, futebol e turismo, todos bem enrolados no imprescindível pôr do sol?
Porque é de Direitos Humanos que se fala, é essencial defender a autodeterminação do povo sarauí na luta contra a ocupação do Saara Ocidental por Marrocos e a promoção, conforme definido na carta da ONU, da sua proteção e de um processo credível para um referendo.
Carlos Costa
Artista, escritor e docente universitário.
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