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Odeia o jogo, não o jogador - Uma decomposição de «O Céu em Desordem», de Slavoj Žižek – Relógio D’Água
Não vivemos a ética do bem mas a ética dos bens.
É a partir deste pressuposto que Slavoj Žižek labora no seu mais recente livro, O Céu em Desordem, traduzido por Ana Falcão Bastos, para a Relógio D’Água.
Explorando a ideia de Mao, de onde aliás nasce o título, quando afirmou «há uma grande desordem debaixo do céu, a situação é excelente», o esloveno defende o que se tem tornado óbvio para as vítimas do sistema redistributivo: o facto de permanecer dentro da lógica organizativa capitalista impede-o de funcionar de forma justa e igualitária.
Esta versão de Žižek, mais cronológica e menos desorganizada, troca algum do seu charme por uma narrativa linear mais sólida, assente na desintegração da ordem actual em processo de aceleração e de tomada de poder pelos centros económicos.
O esloveno defende o que se tem tornado óbvio para as vítimas do sistema redistributivo: o facto de permanecer dentro da lógica organizativa capitalista impede-o de funcionar de forma justa e igualitária.
Fiel a si mesmo, Žižek continua a cumprir o seu autoimposto desígnio conservador de esquerda ao apelar a um compromisso em situações relacionadas com o Curdistão e no conflito Grécia/Macedónia, enquanto forma de criticar a demagogia da esquerda, à qual pertence, como intransigente onde deveria ser maleável, uma vez que o custo é pago em vidas humanas.
Censura também as questões identitárias como petrificadas numa ideologia esquerdista sem correspondência no quotidiano, apresentando como sucesso os transportes do México onde há uma carruagem só para mulheres, devido à elevada taxa de violação nacional.
Žižek insiste numa forma de democracia mais directa e distante dos jogos eleitorais, assente na criação de situações orientadas para a disrupção ao invés de esperar, como o fiel a aguardar o céu, as condições ideais que nunca chegarão.
Nessa perspectiva, as greves são os restos mortais de um antigo mundo onde o direito era, pelo menos, a simulação de uma ordem, ainda que injusta. E, para nos livrarmos desse cadáver, Žižek propõe uma estalinização transnacional do comunismo para resolver situações emergentes como o apartheid global, onde Biden ou o próximo candidato democrata são apenas um Trump com o rosto mais humano.
Neste enquadramento pós-Covid, a inversão de papéis colocou a direita a surgir como destruidora da democracia burguesa e a esquerda a vir ao seu resgate, reproduzindo ao mesmo tempo o velho mundo e a sua versão extremada.
Neste enquadramento pós-Covid, a inversão de papéis colocou a direita a surgir como destruidora da democracia burguesa e a esquerda a vir ao seu resgate, reproduzindo ao mesmo tempo o velho mundo e a sua versão extremada.
Nesta impossibilidade de evitar a alienação, a escolha resume-se a ser o receptáculo passivo da que nos é imposta ou desenvolver uma forma própria e eficaz que contribua para a resistência colectiva, sujeita às pressões do capitalismo de vigilância a emular um socialismo afinal travestido em extrema-direita.
A questão que permanece é se as regras do jogo foram alteradas a meio ou se os jogadores estavam errados e sempre foram estas.
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