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Fascismo tecnológico
Num exclusivo da revista brasileira CartaCapital para Portugal, publicamos a entrevista que a jornalista Clarissa Carvalhaes realizou a Gil Durán, ex-porta-voz de Kamala Harris e cujo trabalho jornalístico já o revelava como profundo conhecedor dos meandros da política norte-americana, a propósito da publicação do seu livro sobre as ameaças claras para a democracia em função da aliança entre as grandes empresas tecnológicas e a Administração Trump.

A associação entre as big techs e Trump deu nova escala ao extremismo do Vale do Silício, afirma Gil Durán.
Em The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy, o jornalista norte-americano Gil Durán investiga a ofensiva política de bilionários e investidores do Vale do Silício que, sob a promessa de inovação, passam a disputar o controle das instituições democráticas. Segundo o autor, «a política extremista sempre esteve em ebulição no Vale do Silício», mas ganhou nova escala com a aproximação entre a elite tecnológica e o governo Donald Trump. Na entrevista a seguir, Durán analisa a captura do Poder Público pelo lobby e financiamento político, os projetos de cidades privadas e a aliança entre big techs, defesa e vigilância. A ideia é simples: colonialismo tecnológico.
CartaCapital: Em que momento acontece a mudança de uma hostilidade libertária a impostos e Estado de Bem-Estar Social para uma agenda explicitamente antidemocrática? E por que essa mudança se tornou politicamente viável agora?
Gil Durán: A política extremista sempre esteve em ebulição no Vale do Silício. Autoras pioneiras como Paulina Borsuk, já descreviam essas atitudes antigoverno nos anos 1990. A postura libertária que você menciona era apenas uma fase, porque o libertarianismo não é uma ideologia realista, mas uma fantasia adolescente superdimensionada e imatura. Peter Thiel (cofundador do PayPal e da Palantir Technologies) se gaba, desde o fim dos anos 1990, de que a tecnologia derrubaria os Estados-nação. Muitos outros no Vale do Silício passaram a compartilhar essa visão. Eles foram radicalizados sobretudo por sua riqueza extrema. Bilhões de dólares tendem a enlouquecer os indivíduos e ninguém diz a verdade aos bilionários, mas acho que movimentos sociais como o Occupy, o Me Too e o Black Lives Matter os aterrorizaram. Eles perceberam que os cidadãos comuns estavam se cansando do status quo e poderiam se levantar para exigir seus direitos. Acho que os lockdowns da pandemia também radicalizaram muitos desses sujeitos. Eles acreditaram que o apocalipse havia chegado e que aquele era o momento certo para agir. E a reeleição de Trump trouxe à tona o que há de pior neles. Eles tiraram as máscaras e revelaram ao mundo quem realmente são. Acho que isso se mostrará um erro porque, além de Trump ser um palhaço corrupto, seus índices estão caindo até mesmo entre seus próprios apoiadores. O regime é extremamente impopular e está fracassando. Isto é uma catástrofe para o país, mas permitiu que os bilionários revelassem sua verdadeira face.
«O regime é extremamente impopular e está fracassando. Isto é uma catástrofe para o país, mas permitiu que os bilionários revelassem sua verdadeira face.»
CC: No livro, o senhor fala de duas estratégias da elite tecnológica para ampliar seu poder político. Uma é «saída», a criação de cidades privadas e não submetidas ao controle democrático. A outra é «voz», que busca influenciar ou capturar instituições e governos por meio de financiamento eleitoral e lobby. Qual dessas estratégias está mais avançada? E o que os outros países deveriam observar antes que esse modelo comece a ser exportado?
GD: Tanto as estratégias de «voz» quanto as de «saída» estão em curso. Os bilionários capturaram enorme poder federal, exercem influência sobre o governo Trump e promovem, em Washington, seus objetivos de dominação em criptomoedas e Inteligência Artificial. Ao mesmo tempo, há um grande esforço de lobby para que Trump comece a criar essas «cidades da liberdade», essas zonas livres de Estados em rede baseadas em soberania privatizada. Ele pediu a criação de uma nova cidade tecnológica em Gaza e ameaçou tomar a Groenlândia, onde bilionários da tecnologia propõem construir mais uma dessas cidades estranhas. A ideia é simples: colonialismo tecnológico. Próspera, em Honduras, é um protótipo, mas bilionários da tecnologia e seus aliados também propuseram novas cidades na Venezuela e em Cuba, na Baía de Guantánamo. Thiel, notoriamente, comprou agora uma mansão na Argentina. Eles veem a América Latina como um alvo prioritário para esses projetos. E os habitantes desses países devem desconfiar de qualquer iniciativa em que bilionários adquiram terras para construir uma nova cidade privatizada, com suas próprias leis. Eles querem fincar suas bandeiras para criar um futuro distópico de sociedades-fortalezas, das quais possam escapar das graves consequências de seus próprios investimentos. Os cidadãos não deveriam hesitar em protestar logo no início contra qualquer projeto desse tipo em seus países.
«Querem fincar suas bandeiras para criar um futuro distópico de sociedades-fortalezas, das quais possam escapar das graves consequências de seus próprios investimentos. Os cidadãos não deveriam hesitar em protestar logo no início contra qualquer projeto desse tipo em seus países.»
CC: Recentemente, a Palantir transformou o livro de Alexander Karp, The Technological Republic, em um resumo de 22 pontos, onde defende que o Vale do Silicio e os Estados Unidos assumam uma postura mais assertiva (militar, tecnológica, cultural e nacionalista) para preservar a liderança norte-americana. Como o senhor vê esse texto?
GD: O manifesto de Karp é uma expressão pura do fascismo tecnológico. Eu disse isso no X e fui banido permanentemente, o que acabou provando meu ponto. Esse manifesto é um chamado para que o Vale do Silício se associasse ao governo em projetos de militarismo e vigilância, a fim de impor seu poder sobre culturas supostamente inferiores. Eles claramente querem manter o fluxo de dinheiro da inteligência militar entrando em seus cofres e estão dispostos a fazer qualquer coisa para garantir isso, inclusive tornar-se parceiros entusiasmados de um regime fascista.
«O manifesto de Karp é uma expressão pura do fascismo tecnológico.»
CC: E como distinguir um esforço legítimo para desenvolver capacidade tecnológica voltado à defesa nacional de um complexo tecnomilitar impulsionado pelo setor privado?
GD: O governo dos EUA precisa parar de terceirizar responsabilidades públicas para empresas privadas ou criaremos esses monstros que acreditam ter poder para rivalizar com o próprio Estado. Qualquer tecnologia de que o governo dos EUA necessite para sua segurança deveria pertencer integralmente ao Estado e ser controlada por ele. E esses parceiros do setor privado deveriam entender que estão sujeitos às leis. A realidade mostra, no entanto, que estamos usando dinheiro dos contribuintes para alimentar nossos piores inimigos. Muito poder foi entregue nas mãos desses bilionários e esse poder tem criado uma séria ameaça existencial à democracia norte-americana.
Clarissa Carvalhaes é jornalista brasileira e correspondente da revista CartaCapital em Nova Iorque desde 2019, com atuação voltada principalmente à cobertura dos Estados Unidos — política, eleições, democracia, extrema direita, sociedade, cultura e temas internacionais. Formada em Jornalismo e especialista em História da Cultura e da Arte pela UFMG, construiu uma trajetória de mais de uma década como repórter, com passagens pelo Jornal Hoje em Dia, pelo blog Nocaute, do escritor Fernando Morais, e por veículos independentes.
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