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Não somos pobres porque queremos

Não somos pobres porque queremos

Ora aí está uma daquelas frases que nasceram para ser título de jornal: «Somos pobres porque queremos.» Impecável, não é? Tem a brutal simplicidade das frases que se tornam virais. Tem a força de quem pretende abanar consciências – ah, estamos mesmo a precisar... E tem também o perigo de transformar uma realidade complexa numa sentença moral. Porque quando se afirma que somos pobres porque queremos, a pobreza deixa de ser um problema económico, social e político para passar, subtilmente, a ser uma questão de carácter nacional. Como se o país estivesse onde está por falta de vontade. Como se os portugueses acordassem todas as manhãs decididos a não prosperar. Como se décadas de dificuldades coletivas pudessem ser explicadas por uma espécie de defeito de fabrico do povo português. Na entrevista publicada a 30 de julho, no Público, Armindo Monteiro, presidente da CIP e autor daquela belíssima frase, fala frequentemente de compromisso, de crescimento e de criação de riqueza. E quando aborda o papel dos sindicatos, afirma que estes pensam sobretudo na distribuição e não na criação de valor. É por aqui que quero começar. Não porque considere irrelevante a criação de riqueza, pelo contrário, Portugal precisa desesperadamente de criar mais riqueza. O problema é outro. O problema é a definição de valor. Porque antes de discutirmos quem o distribui, deveríamos talvez discutir o que é, afinal, criar valor.

Valor é, sobretudo, a confiança que uma sociedade deposita nas suas instituições. Valor é a tranquilidade que permite a um trabalhador concentrar-se no seu trabalho em vez de gastar metade da energia mental a pensar como vai pagar a renda no final do mês. Valor é saber que o mérito é recompensado. Valor é acreditar que o Estado funciona. Valor é sentir que existe uma relação minimamente equilibrada entre aquilo que entregamos ao Fisco e aquilo que recebemos em troca.

Valor não é apenas o que entra numa folha de Excel, ou o resultado operacional numa empresa antes de juros, impostos, depreciações e amortizações, ou a evolução de um qualquer indicador macroeconómico. Valor é, sobretudo, a confiança que uma sociedade deposita nas suas instituições. Valor é a tranquilidade que permite a um trabalhador concentrar-se no seu trabalho em vez de gastar metade da energia mental a pensar como vai pagar a renda no final do mês. Valor é saber que o mérito é recompensado. Valor é acreditar que o Estado funciona. Valor é sentir que existe uma relação minimamente equilibrada entre aquilo que entregamos ao Fisco e aquilo que recebemos em troca.

Será que um trabalhador que vive permanentemente preocupado com a próxima renda cria mais valor? Esta é a pergunta que me parece faltar na entrevista. Será que alguém que passa o dia a fazer contas na cabeça para perceber se consegue pagar a casa, a eletricidade, o supermercado e os estudos dos filhos consegue dedicar toda a sua inteligência, criatividade e energia ao trabalho? Será que uma pessoa que vive permanentemente sob pressão financeira está em condições de inovar, arriscar, empreender e produzir mais? Será que a ansiedade é um fator de produtividade? Será que o medo gera riqueza? Será que a insegurança produz progresso?

Será que alguém que passa o dia a fazer contas na cabeça para perceber se consegue pagar a casa, a eletricidade, o supermercado e os estudos dos filhos consegue dedicar toda a sua inteligência, criatividade e energia ao trabalho? Será que uma pessoa que vive permanentemente sob pressão financeira está em condições de inovar, arriscar, empreender e produzir mais? Será que a ansiedade é um fator de produtividade? Será que o medo gera riqueza? Será que a insegurança produz progresso?

A resposta a estas perguntas parece-me evidente. Não há economia moderna capaz de prosperar sobre uma população permanentemente exausta, ansiosa e insegura. A estabilidade não é um luxo social. É uma ferramenta económica. Um trabalhador tranquilo produz melhor do que um trabalhador angustiado. Um jovem que acredita no futuro investe mais do que um jovem resignado. Uma família que se sente protegida consome, planeia e participa mais ativamente na economia do que uma família que vive permanentemente em modo de sobrevivência. A criação de valor começa muito antes da fábrica, do escritório ou da reunião de estratégia. Começa na casa das pessoas. Começa na confiança com que olham para o futuro. Mas há uma pergunta ainda mais importante: será que uma sociedade cria valor quando obriga os seus cidadãos a viverem num estado permanente de desconfiança relativamente às instituições? Porque o problema português não é apenas económico. É também um problema de credibilidade.

Vivemos num país onde já quase nada surpreende. Onde a incompetência se tornou uma espécie de ruído de fundo. Onde a casa da Democracia se transformou numa espécie de bancada para as claques num estádio de futebol, em que igualmente imperam gritos, insultos e mentiras (mas isso seria tema para outra crónica…). Onde acumulamos episódios tão absurdos que acabam por facilmente desaparecer da memória coletiva ao fim de poucos dias, substituídos pela polémica seguinte. Exemplos? Depois das tempestades que destruíram habitações, estruturas de toda a espécie e explorações agrícolas no último inverno, ouvimos responsáveis governativos garantirem que os apoios estavam a chegar, mas sugerirem às pessoas que, entretanto, utilizassem o dinheiro dos seus salários para sobreviver. Como se todos tivessem poupanças disponíveis. Como se quem perdeu tudo tivesse apenas de esperar um pouco mais. Como se a realidade de milhares de famílias pudesse ser tratada com a ligeireza de quem nunca teve de escolher entre pagar contas ou comprar comida. Assistimos, ao mesmo tempo, à gestão errática de crises que afetam diretamente a vida dos cidadãos. Pais e alunos confrontados com problemas nos exames nacionais ouviram insinuações sobre a alegada irresponsabilidade de quem tinha marcado férias. Como se o problema estivesse sempre nos cidadãos. Como se o problema estivesse sistematicamente nas vítimas dos erros. Como se a missão do poder fosse explicar porque falhou, em vez de assumir que falhou.

Talvez os portugueses se queixem porque passam meses à espera de consultas. Talvez se queixem porque veem os filhos licenciados a emigrar. Talvez se queixem porque trabalham bem mais que 40 horas por semana e continuam sem conseguir comprar casa. Talvez se queixem porque pagam automóveis mais caros do que em muitos países europeus mais ricos. Porque pagam fortunas por combustíveis. Porque suportam uma das mais pesadas cargas fiscais sobre o consumo no Velho Continente. Porque veem os salários crescer a passo de caracol enquanto os preços correm à velocidade de Usain Bolt.

E depois, no meio deste cantinho à beira-mar plantado, ainda ouvimos o excelentíssimo e alternadíssimo presidente da CIP dizer que «queixamo-nos muito, somos muito de lamúria». Lamúrias? Que desplante… Mas quem pode falar de lamúrias? Quem tem esse privilégio moral? Talvez os portugueses se queixem porque passam meses à espera de consultas. Talvez se queixem porque veem os filhos licenciados a emigrar. Talvez se queixem porque trabalham bem mais de 40 horas por semana e continuam sem conseguir comprar casa. Talvez se queixem porque pagam automóveis mais caros do que em muitos países europeus mais ricos. Porque pagam fortunas por combustíveis. Porque suportam uma das mais pesadas cargas fiscais sobre o consumo no Velho Continente. Porque veem os salários crescer a passo de caracol enquanto os preços correm à velocidade de Usain Bolt. Talvez não sejam lamúrias. Talvez seja simplesmente exaustão, caríssimo Armindo Monteiro. Porque existe uma diferença enorme entre a cultura da queixa e a denúncia de problemas reais. E talvez aquilo que muitos confundem com pessimismo, talvez seja apenas o cansaço acumulado de quem vê as mesmas falhas repetirem-se há décadas.

Quando o presidente da CIP afirma que os sindicatos se preocupam demasiado com a distribuição e pouco com a criação de valor, parece esquecer que as sociedades mais competitivas, mais produtivas e mais inovadoras da Europa foram precisamente aquelas que conseguiram construir compromissos duradouros entre capital e trabalho. Veja-se o caso da Alemanha e dos países do Norte da Europa. Não são sociedades onde os trabalhadores vivem aterrorizados. Não são sociedades onde a protecção social é vista como inimiga do crescimento. Não são sociedades onde a estabilidade laboral é tratada como um obstáculo ao desenvolvimento. São sociedades que compreenderam que produtividade e dignidade não são inimigas. Pelo contrário, alimentam-se mutuamente. Por isso, não, não acredito que a pobreza portuguesa resulte de uma falta colectiva de vontade. Acredito que resulta da acumulação de décadas de erros estruturais. Resulta de um Estado demasiadas vezes ineficiente. Resulta de uma justiça lenta. Resulta de uma classe política que demasiadas vezes vive envolta em suspeições e escândalos. Resulta de políticas públicas erráticas. Resulta de uma incapacidade persistente para transformar crescimento económico em prosperidade partilhada.

Não acredito que a pobreza portuguesa resulte de uma falta colectiva de vontade. Acredito que resulta da acumulação de décadas de erros estruturais. Resulta de um Estado demasiadas vezes ineficiente. Resulta de uma justiça lenta. Resulta de uma classe política que demasiadas vezes vive envolta em suspeições e escândalos. Resulta de políticas públicas erráticas. Resulta de uma incapacidade persistente para transformar crescimento económico em prosperidade partilhada.

Os portugueses trabalham. Trabalham muito. O que lhes falta não é vontade. O que lhes falta é a confiança de que o seu esforço será recompensado. O que lhes falta é a certeza de que as instituições estão à altura dos sacrifícios que lhes são exigidos. O que lhes falta é viver num país onde a competência seja a regra e não a excepção. Porque valor não é apenas aquilo que produzimos. Valor é não ter de perder horas num labirinto burocrático para resolver um problema simples. Valor é poder confiar na palavra de um governante. Valor é saber que os impostos pagos regressam à sociedade sob a forma de serviços públicos eficientes. Valor é acreditar que os responsáveis assumem consequências quando erram. Valor é viver numa comunidade onde a competência inspira confiança e a confiança gera prosperidade. E é por isso que rejeito a ideia de que somos pobres porque queremos. Somos mais pobres do que deveríamos ser porque durante demasiado tempo confundimos resignação com resiliência, conformismo com responsabilidade e paciência com consentimento. E nenhum país cria verdadeiramente valor quando os seus cidadãos passam a considerar normal aquilo que devia ser intolerável.

Duarte Baião

Duarte Baião

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