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O Brasil precisa aprender a ouvir

O Brasil precisa aprender a ouvir

O Brasil vai às urnas amanhã depois de uma campanha presidencial em que se falou muito e se ouviu pouco, e o último debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, na TV Globo, deixou isso evidente. Enquanto as regras da emissora estiveram de pé, os dois candidatos ainda conseguiram discutir o país; quando foram afrouxadas, nenhum dos lados pareceu disposto a ouvir o outro.

Nos três primeiros blocos, a emissora impôs os temas e controlou o tempo e até a movimentação dos candidatos no estúdio, o que manteve a conversa mais próxima das políticas públicas. Lula perguntou se Flávio reajustaria as aposentadorias acima da inflação, e o senador disse que sim. Lula também cobrou a posição do adversário sobre a tarifa zero nos ônibus aos fins de semana e sobre o financiamento do SUS, e anunciou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública após a aprovação da proposta de emenda constitucional sobre o tema. Flávio levou ao debate o endividamento das famílias, o custo de vida e as apostas online, e criticou Lula por se opor a classificar facções criminosas como organizações terroristas. Nenhum dos dois explicou como pagaria por essas promessas em um país com déficit nas contas e dívida em alta, mas ao menos se falava do Brasil.

Entretanto, as regras controlaram o tema – não o tom. Flávio disse que Lula «dá com uma mão e tira com os nove dedos», em referência ao dedo que o presidente perdeu em um acidente quando era metalúrgico. Lula reagiu chamando o adversário de miliciano, e Flávio pediu desculpas. Mais grave foi o episódio de Ana Clara, menina de cinco anos morta por tiros de fuzil em Niterói, em 2021. À época, Flávio integrou a defesa do policial acusado do crime, sem cobrar pelos serviços prestados. Lula levou o caso ao debate, e a mãe da menina estava no estúdio. Ao se dirigir a ela, Flávio a chamou pelo nome da filha.

No quarto bloco, de tema livre, cada candidato tinha oito minutos para usar como quisesse, em quantas falas quisesse. Lula cobrou explicações sobre a disputa envolvendo uma ilha comprada pelo jogador de futebol Richarlison e sobre as relações de Flávio com Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio acusou Lula de ocultar patrimônio em nome do filho, e Lula o desafiou a abrir as próprias contas. Nenhuma proposta apareceu nesses minutos finais.

Seja quem for o vencedor amanhã, o país vai precisar de mais escuta. Hannah Arendt dizia que pensar politicamente é olhar para um mesmo assunto a partir dos vários lugares de onde ele pode ser visto. Foi o que faltou no último bloco do debate.

Regras organizam a conversa, mas não ensinam ninguém a ouvir. Nesta semana, pensei muito em 144 – Apocalipse Não, o filme de João Paulo Cuenca. Processado por 144 pastores da Igreja Universal, ele poderia ter feito um filme de acusação. Preferiu viajar pelo país para ouvir o pastor luterano, o missionário indígena, a jovem que escreve poemas e o peão que reza antes de montar. Saiu dali o retrato mais plural dos evangélicos brasileiros que já vi no cinema, com o Brasil que vota em Lula e o que vota em Bolsonaro.

Seja quem for o vencedor amanhã, o país vai precisar de mais escuta. Hannah Arendt dizia que pensar politicamente é olhar para um mesmo assunto a partir dos vários lugares de onde ele pode ser visto. Foi o que faltou no último bloco do debate, e é o que Cuenca fez em seu filme. Se quisermos sair do apocalipse em que a nossa política parece viver, teremos de aprender a fazê-lo.

Beatriz Rey

Beatriz Rey

Doutorada em Ciência Política pela Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, e investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

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