Quem assistiu, no domingo, ao debate da TV Bandeirantes entre o Presidente Lula da Silva e Flávio Bolsonaro ficou boquiaberto. Era o primeiro frente a frente da segunda volta, a uma semana das urnas, e o candidato que venceu a primeira volta chegou ao estúdio sem uma ideia de governo que aguentasse uma segunda pergunta. Trouxe a ironia ensaiada e um deboche que faria qualquer santo perder a paciência.
Lula fez-lhe as perguntas que muitos brasileiros querem ver respondidas: porque foi, em 2009, enquanto deputado estadual, o único a votar contra o alargamento da licença de maternidade das funcionárias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro? Não respondeu. Falou da mulher e das filhas e mudou de assunto.
Que caminho fizeram os cerca de 134 milhões de reais que negociou com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre o próprio pai? Lula perguntou-o pelo menos sete vezes. «Já expliquei», repetiu o senador, sem explicar. E convém lembrar que o Master foi liquidado pelo Banco Central e que, com ele, ficaram presos quase dois mil milhões de reais de fundos que pagam as reformas de servidores de estados e municípios.
Porque deu emprego a familiares do homem que chefiava o Escritório do Crime, o grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro? Não respondeu. Lembrou o «mensalão» desconversando.
Porque defendeu, já sendo senador, o polícia militar acusado de matar a tiro de fuzil Ana Clara, uma menina de cinco anos que brincava à porta de casa, em Niterói? Não respondeu. Preferiu falar do voto dos presos.
Se Javier Milei continua a ser o seu modelo, e se pediria emprestada a motosserra dos cortes sociais? Perguntado três vezes, não disse nem que sim nem que não. Desconversou.
Se o «padrão Einstein» que promete para o Sistema Único de Saúde abre a porta à privatização? Falou de prontuário eletrónico e de telemedicina. Da pergunta, nada.
A diferença entre os candidatos esteve noutro lado. Porque Lula veio defender o que fez e o que quer fazer, da jornada de trabalho mais curta à licença que dá a uma mãe tempo para ser mãe. Flávio veio defender-se, e fê-lo atacando, numa atuação digna de Dark House, e pior, sem uma proposta de futuro para o país.
Se a adesão ao Escudo das Américas, que prometeu a Donald Trump na Casa Branca, inclui entregar aos Estados Unidos as terras raras e os minerais críticos do Brasil? Chamou-lhe «fake news». Dos minerais, nem uma palavra. E sobre isto vale lembrar o discurso, em inglês, que o próprio teve ao prometer o Brasil para esse projeto de Donald Trump. Ah! E a foto de subalterno, ao lado do presidente dos Estados Unidos também emoldura bem o mérito da pergunta levada ao debate por Lula.
Mas houve uma pergunta a que respondeu. Negou ter escritório com o «Careca do INSS», Antônio Carlos Camilo Antunes, apontado pela Polícia Federal como operador dos descontos não autorizados nas reformas e pensões de aposentados. Negou e ficou por aí. Mas, a Bravo Grafeno, empresa de que é sócio, continua registada na mesma sala onde estão pelo menos dezasseis empresas ligadas a esse homem. Uma negação não é uma explicação.
Fica ainda no ar uma pergunta que nenhum debate esclareceu. Dois dias antes, o Congresso promulgara o fim da escala 6x1, a semana de seis dias de trabalho para um de descanso. Flávio Bolsonaro passou meses a fugir ao tema, anunciou à última hora que votaria a favor e logo admitiu «mudanças» se for eleito. Que mudanças? E a favor de quem?
Seria desonesto se não lembrasse que Lula também se esquivou. Perguntado pela lobista Roberta Luchsinger, alegada amiga do filho, respondeu que o assunto é da Polícia Federal, dando a entender que não interferia em qualquer investigação. Mas a diferença entre os candidatos esteve noutro lado. Porque Lula veio defender o que fez e o que quer fazer, da jornada de trabalho mais curta à licença que dá a uma mãe tempo para ser mãe. Flávio veio defender-se, e fê-lo atacando, numa atuação digna de Dark House, e pior, sem uma proposta de futuro para o país.
No fim, Lula lançou o desafio da noite: que ambos abrissem os sigilos bancários e telefónicos das duas famílias e os entregassem ao Tribunal Superior Eleitoral antes da votação de 25 de outubro. Flávio Bolsonaro garantiu não ter nada a esconder, mas não aceitou nem recusou o desafio.
Quem se sentar no Palácio do Planalto nomeará os próximos ministros do Supremo Tribunal Federal e o próximo procurador-geral da República, ou seja, quem um dia fará estas mesmas perguntas com a força da lei e trará as respostas que este debate não respondeu. E outras que este debate não fez.
Há quem diga que só uma vitória de Lula trará as respostas. Não deveria ser assim. As respostas pertencem à justiça, e a justiça não pode depender de quem ganha eleições. Isto, numas eleições normais, entre direita e esquerda, mas não se pode esperar isto da extrema-direita, por isso, o drama nestas eleições brasileiras é real, pois a família Bolsonaro faz parte da extrema-direita internacional. Por isso, o voto decide algo que não é pequeno nestas eleições. Quem se sentar no Palácio do Planalto nomeará os próximos ministros do Supremo Tribunal Federal e o próximo procurador-geral da República, ou seja, quem um dia fará estas mesmas perguntas com a força da lei e trará as respostas que este debate não respondeu. E outras que este debate não fez. Cada eleitor e cada eleitora pode e deve ponderar se quer entregar essa caneta a quem não respondeu a nenhuma pergunta, e muito pelo contrário, esquivou-se de cada uma delas e debochou, em direto, de todos os que assistiam àquele debate.
Ainda assim, dou os parabéns a Flávio Bolsonaro. Esteve melhor do que eu esperava, porque a dissimulação, desta vez, viu-se com toda a nitidez e fez-nos ver, numa ótima encenação, que como candidato a Presidente do Brasil, revelou-se um excelente bobo da corte americana. Uma democracia vive do direito de quem pergunta e do dever de quem responde, e no passado domingo só um dos dois pareceu lembrar-se desse dever.
Foto de capa: Instagram de Flávio Bolsonaro