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O Brasil que chega às urnas

O Brasil que chega às urnas

Acompanhar as eleições brasileiras de 2026, sobretudo estando fora do Brasil, tem sido um exercício de atenção permanente. Talvez porque, de longe, a política brasileira pareça ainda mais concentrada na figura de quem ocupa, ou pretende ocupar, o Palácio do Planalto. Mas, em outubro, o país não escolherá apenas o seu próximo presidente: elegerá também governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais. E é justamente aí que começa uma parte essencial da história.

É preciso olhar para quem ocupará o Congresso Nacional, visto que o presidente eleito precisará negociar, construir maiorias, formar alianças e produzir consensos, ou enfrentar bloqueios, com a Câmara dos Deputados e o Senado.

Num sistema que a literatura política brasileira há décadas descreve a partir da ideia de presidencialismo de coalizão, não basta saber quem ocupará a Presidência. É preciso olhar para quem ocupará o Congresso Nacional, visto que o presidente eleito precisará negociar, construir maiorias, formar alianças e produzir consensos, ou enfrentar bloqueios, com a Câmara dos Deputados e o Senado.

A poucos dias do primeiro turno, nas sondagens, ainda com margens apertadas, dois nomes lideram: o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e inelegível até 2030 por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral de 2022.

É na candidatura de Flávio Bolsonaro que aparece uma das características mais particulares, e politicamente reveladoras, desta eleição. Depois da condenação de Jair Bolsonaro por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e da sua inelegibilidade, o capital político da família passou para o filho, o «escolhido». A candidatura de Flávio representa, assim, uma espécie de continuidade familiar de um projeto político construído em torno do sobrenome Bolsonaro e dos evangélicos. Mais do que uma questão de parentesco e de religião, o fenómeno levanta uma pergunta sobre a própria natureza da representação política, numa transferência quase dinástica de uma candidatura presidencial, algo bastante questionável, no mínimo, numa democracia.

A questão ganhou uma camada adicional com o caso envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O candidato Flávio confirmou ter procurado o banqueiro para obter financiamento para Dark Horse, uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, com um valor inicialmente negociado de R$ 134 milhões, mas reportagens posteriores apontaram transferências na casa das dezenas de milhões.

Fundos de pensão de estados como o Rio de Janeiro tinham exposição ao Banco Master, o que significa que parte dos recursos negociados por Flávio Bolsonaro pode ter raiz em poupança pública, de trabalhadores reformados.

O pormenor que agrava o episódio é a origem indireta desse dinheiro: fundos de pensão de estados como o Rio de Janeiro tinham exposição ao Banco Master, o que significa que parte dos recursos negociados por Flávio Bolsonaro pode ter raiz em poupança pública, de trabalhadores reformados. O candidato defende tratar-se de «patrocínio privado», mas o episódio já custou apoios no próprio campo da direita.

Do lado do presidente Lula da Silva, o desafio é de outra natureza, embora não menos exigente numa corrida eleitoral: a sua campanha precisa de administrar o peso da própria história. A memória dos primeiros governos do PT continua sendo um recurso político importante, assim como a comparação com os anos Bolsonaro. Contudo, memória política não é necessariamente experiência política, visto que há uma geração inteira de brasileiros para quem 2003 está muito distante.

Do lado do presidente Lula da Silva, o desafio é de outra natureza, embora não menos exigente numa corrida eleitoral: a sua campanha precisa de administrar o peso da própria história.

E há uma crise que atravessa quase todas essas dimensões, a crise do Supremo Tribunal Federal (STF). O STF, que nos últimos anos esteve no centro da defesa das instituições democráticas diante dos ataques de Jair Bolsonaro e de seus aliados, chega às eleições de 2026 profundamente desgastado. A investigação envolvendo o Banco Master expôs contatos entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e diferentes figuras do sistema de Justiça, incluindo o ministro Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, e desencadeou uma disputa interna na própria Corte. A divulgação de mensagens, a quebra de sigilos, acusações entre ministros e decisões conflitantes envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino fizeram com que uma crise que inicialmente parecia circunscrita a um caso judicial passasse a adquirir dimensão institucional e eleitoral.

O candidato Flávio Bolsonaro transformou os ataques ao STF, especialmente a Alexandre de Moraes, em uma das bandeiras da sua campanha, enquanto o Presidente Lula da Silva procurou se afastar da crise e afirmou que o Supremo precisa ser um exemplo e não contribuir para o aumento da desconfiança da sociedade.

O STF, que nos últimos anos esteve no centro da defesa das instituições democráticas diante dos ataques de Jair Bolsonaro e de seus aliados, chega às eleições de 2026 profundamente desgastado.

Na campanha do Presidente Lula, é nesse espaço entre memória e experiência que entram questões concretas, sendo o debate sobre o fim da escala 6x1 é um exemplo particularmente interessante. A Câmara dos Deputados aprovou em maio uma proposta que prevê a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso. No Senado, a proposta passou pela Comissão de Constituição e Justiça em setembro, mas não chegou ao plenário antes das eleições.

Politicamente, a importância do tema vai além da tramitação legislativa, pois a jornada de trabalho traduz a questão dos direitos laborais em algo que pode ser compreendido na experiência quotidiana: quanto tempo resta para viver depois de trabalhar? É nesse tipo de questão que uma eleição deixa de ser apenas uma disputa entre nomes e passa a ser uma disputa sobre projetos de sociedade, debate que os brasileiros não tiveram a hipótese de realizar nessas eleições.

A eleição brasileira passou a ser atravessada por uma disputa geopolítica que se mistura com a disputa interna sobre democracia, soberania e instituições.

Mas o Brasil de 2026 também está a votar sob uma pressão que não vem apenas de dentro. As relações com os Estados Unidos entraram diretamente na campanha eleitoral, em julho, o governo de Donald Trump anunciou tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, justificadas por Washington por alegadas práticas comerciais desleais, incluindo questões relacionadas ao comércio digital, sistemas de pagamentos eletrónicos, propriedade intelectual e outros temas.

O Presidente Lula da Silva respondeu politicamente, apresentando as tarifas como parte de uma tentativa de pressão sobre o Brasil, ao mesmo tempo que a relação entre o bolsonarismo e setores da política norte-americana tornou-se um dos elementos do debate eleitoral. O resultado é uma situação particularmente complexa: a eleição brasileira passou a ser atravessada por uma disputa geopolítica que se mistura com a disputa interna sobre democracia, soberania e instituições.

As chamadas bets, legalizadas e posteriormente submetidas a um processo de regulação, transformaram-se num problema que cruza economia, consumo, endividamento e saúde pública.

Há ainda outro fenómeno que atravessa essa eleição e que talvez diga mais sobre o Brasil contemporâneo do que muitos discursos eleitorais: as apostas online. As chamadas bets, legalizadas e posteriormente submetidas a um processo de regulação, transformaram-se num problema que cruza economia, consumo, endividamento e saúde pública. É uma realidade que atravessa classes sociais e gerações.

Talvez seja por isso que esta eleição seja tão difícil de acompanhar de fora, porque se trata de acompanhar uma disputa presidencial, a composição do Congresso, a organização da direita brasileira, a tentativa de reconstrução de um campo progressista, a disputa em torno das instituições, os efeitos da economia sobre a vida quotidiana e a crescente interferência de conflitos internacionais na política doméstica.

O eleitor chega às urnas depois de anos em que a política parece nunca ter saído do estado de emergência, com polarização, tentativa de rutura institucional, a condenação de Bolsonaro, a disputa em torno do STF, agora uma crise dentro da própria Corte e, simultaneamente, uma pressão internacional que se mistura com a campanha eleitoral.

Em outubro, o Brasil não escolherá apenas quem o governará, mas escolherá também quem ocupará os lugares a partir dos quais esse governo poderá, ou não, governar. E, talvez mais profundamente, voltará a decidir que tipo de democracia pretende construir num momento em que a própria democracia está tantas vezes no centro da disputa.

O Brasil chega às urnas cansado, mas ainda de pé. Um país exausto, atravessando uma corda bamba, tentando não perder o equilíbrio enquanto procura, mais uma vez, um caminho para seguir em frente.

Ana Paula Costa

Ana Paula Costa

Cientista política, investigadora no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-NOVA) e presidente da Casa do Brasil de Lisboa.

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