Ontem aconteceu o primeiro debate entre os dois candidatos à Presidência da República, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Quase não se falou de propostas de governo, mas quero me concentrar em algo que merece atenção: o papel de Pablo Marçal na preparação de Flávio para o debate e na campanha do bolsonarista. Marçal leva para a disputa pela Presidência problemas de forma e de conteúdo, ambos preocupantes.
Pablo Marçal é empresário e coach e ficou famoso nas redes sociais por vender cursos de enriquecimento e de «alta performance». Em 2024, foi candidato a prefeito de São Paulo pelo PRTB e transformou os debates daquela eleição em um espetáculo de provocações e cortes para as redes sociais. Num deles, na TV Cultura, José Luiz Datena, candidato pelo PSDB, o atingiu com uma cadeira depois de ouvir de Marçal que «não era homem» para cumprir a ameaça de agredi-lo. Na véspera do primeiro turno, Marçal divulgou um laudo médico falso que acusava Guilherme Boulos, candidato pelo PSOL, de usar cocaína. Ficou em terceiro lugar, por pouco fora do segundo turno, e depois foi declarado inelegível até 2032 por abuso de poder. Ainda assim, tentou se candidatar à Presidência neste ano, e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) barrou a candidatura.
Horas antes do debate, Marçal anunciou nas redes sociais que havia treinado Flávio. Durante o programa, permaneceu na plateia e foi filmado gesticulando para o candidato e passando instruções enquanto Lula respondia. Mais uma vez, Marçal levou a agressividade e o deboche ao centro da política. Enquanto Lula falava, Flávio circulava atrás dele, balançava a cabeça, fechava a cara e apontava o dedo. O objetivo era produzir imagens para as redes sociais, e a campanha distribuiu os vídeos em tempo real. É a mesma técnica que Marçal usou em São Paulo, quando ficava no enquadramento da câmera reagindo ao adversário, mesmo quando a vez de falar era do outro. O clima chegou aos bastidores. Em um dos intervalos, os marqueteiros das duas campanhas bateram boca e os diretores da Band precisaram intervir.
Mais uma vez, Marçal levou a agressividade e o deboche ao centro da política. Enquanto Lula falava, Flávio circulava atrás dele, balançava a cabeça, fechava a cara e apontava o dedo. O objetivo era produzir imagens para as redes sociais, e a campanha distribuiu os vídeos em tempo real.
Mas a participação de Marçal na campanha de Flávio não se limita à maneira de fazer política. Também está em jogo a incorporação de suas ideias por parte de um candidato que pode chegar à Presidência da República.
Flávio repetiu várias vezes a palavra «prosperidade» no debate, inclusive ao falar da proposta de criar um Ministério da Prosperidade. A ideia foi anunciada no horário eleitoral após o primeiro turno. O plano de governo registrado no TSE tem um capítulo intitulado «Brasil que Prospera» que não menciona a proposta. Pelo que se sabe, o ministério reuniria assistência social, qualificação profissional e microcrédito, mas, até agora, não há detalhes sobre metas, orçamento ou o que mudaria em relação aos programas já existentes.
A escolha da palavra «prosperidade» merece atenção. Ela ocupa um lugar central na chamada «teologia da prosperidade», uma vertente ligada ao neopentecostalismo que vê o sucesso material como uma bênção divina na vida de quem tem fé. A historiadora Kate Bowler, que estuda o tema, resume essa promessa como “dinheiro no banco, corpo saudável, família próspera e felicidade sem limites”. Marçal leva essa ideia ao extremo. Para ele, prosperar é o objetivo principal da vida, e alcançar a prosperidade depende, essencialmente, de acreditar. Na campanha de 2024, ao ser questionado sobre como combater a pobreza, respondeu que «qualquer um sai da pobreza, desde que se torne alguém», como se a pobreza fosse um estado de espírito. A proposta de Flávio para o Ministério da Prosperidade se aproxima desse vocabulário.
Querer que os brasileiros enriqueçam é um objetivo legítimo, que qualquer governo deveria ter. O problema é tratar a ascensão econômica como uma questão de mentalidade e de esforço individual em um país onde ela é especialmente difícil. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um brasileiro nascido entre os 10% mais pobres levaria, em média, nove gerações para alcançar a renda média do país. Entre os 30 países analisados, o Brasil fica à frente apenas da Colômbia.
Querer que os brasileiros enriqueçam é um objetivo legítimo, que qualquer governo deveria ter. O problema é tratar a ascensão econômica como uma questão de mentalidade e de esforço individual em um país onde ela é especialmente difícil.
Seria um erro ignorar o apelo dessa promessa. Como mostrou uma reportagem do The Brazilian Report em 2024, a esquerda brasileira tem demorado a compreender as aspirações de uma parcela dos trabalhadores que já não se identifica com o emprego formal e vê no empreendedorismo uma possibilidade de ascensão social. Na eleição municipal de São Paulo, o próprio Guilherme Boulos reconheceu que a sua campanha não havia conseguido dialogar com um segmento importante dos trabalhadores. O problema, portanto, não é desejar prosperidade. É confundir uma aspiração legítima com a ideia de que basta mudar de mentalidade para realizá-la. Mudar esse quadro exige educação de qualidade, crédito, produtividade e emprego, além de políticas capazes de enfrentar os obstáculos estruturais à mobilidade social. Um ministério sem um desenho definido não resolve isso.
A influência de Marçal também se manifesta na relação com as regras democráticas. Declarado inelegível pela Justiça Eleitoral por abuso de poder, o coach se aproxima de Flávio Bolsonaro em outro aspecto: o candidato tem dado sinais de que seu respeito às instituições eleitorais depende das circunstâncias. Em julho, repetiu aos embaixadores informações falsas sobre as urnas eletrônicas. Em agosto, disse que aceitaria o resultado da eleição porque, agora, o TSE seria imparcial (como se o respeito às regras dependesse de quem fosse o juiz). E promete indultar o pai, condenado por tentativa de golpe de Estado.
O problema não é desejar prosperidade. É confundir uma aspiração legítima com a ideia de que basta mudar de mentalidade para realizá-la. Mudar esse quadro exige educação de qualidade, crédito, produtividade e emprego, além de políticas capazes de enfrentar os obstáculos estruturais à mobilidade social. Um ministério sem um desenho definido não resolve isso.
A uma semana da eleição que definirá quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos, o eleitor merece saber não apenas o que Flávio Bolsonaro propõe, mas também quem o está ajudando a chegar ao poder.