Jamie Kendrick é assessor político da Green European Foundation e esteve em Portugal para uma palestra sob o título «Economia de Futuros: A Economia do Bem-Estar» em que interveio na apresentação de uma publicação acerca do tema. Nesta presença, teve ainda oportunidade para abordar vários temas da atualidade, deixando um alerta para todos os progressistas: «Precisamos de voltar a unir as pessoas, promovendo o diálogo e a cooperação.»
Em dezembro, no Congresso dos Verdes Europeus em Lisboa, Vula Tsetsi disse que não é aceitável que a extrema-direita chegue ao poder. Mas em países como Alemanha ou França, ou até mesmo aqui, a ameaça é muito clara. Como avalia o que está a acontecer em relação a esta ameaça de ascensão da extrema-direita?
A ameaça é extremamente real. Por exemplo, o país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos, está claramente nas mãos de um líder de extrema-direita, Donald Trump. E, apenas nos últimos meses, também desencadeou violência no Médio Oriente, com o bombardeamento ao Irão e tudo o que o seguiu. Não é, por isso, apenas uma situação hipotética, é aquilo que estamos a viver. Quando olhamos para a Europa, vários países têm a extrema-direita no poder. Itália é, talvez, o principal caso. Mas também países escandinavos ou a Suíça: neste caso, não estão formalmente no poder, mas exercem muita influência. Na Finlândia, ocupam o poder. E há muitos outros países em que, não estando no poder, são a maior parcela da oposição: Polónia, França, Reino Unido ou Alemanha. Não há, portanto, espaço para complacência. E olharia para dois pontos essenciais: primeiro, a extrema-direita tem sido muito eficaz na organização online e na comunicação digital. Os progressistas têm de melhorar na tecnologia porque é a rádio ou o telefone do nosso dia a dia. Por outro lado, também diria que conseguiram capturar a raiva nos últimos anos. Mas não trazem soluções. Entendo a insegurança que as pessoas sentem na Europa e isso está relacionado com a nossa economia. Já vimos isso no passado: há 15 anos, programas de austeridade destruíram serviços públicos como escolas, transportes públicos ou hospitais. As pessoas que trabalham nestas áreas estão sob pressão e quem depende desses serviços sente isso. Os salários estagnaram. A crise na habitação é gravíssima. Há uma tendência para a concentração de ativos.
Identifica uma Internacional da extrema-direita?
Sim, trabalham juntos e estão em permanente contacto. Não só no interior da Europa, mas também entre Europa e Estados Unidos e vice-versa. No ano passado, o Vox organizou o evento Europa Viva em Espanha. Ficou bem demonstrado como estão todos ligados. E, claro, existe um nível europeu para essa rede. Mas também há um nível global. E pode ver-se a cooperação entre a extrema-direita europeia e a americana através de redes como a Conservative Political Action Conference ou o Mathias Corvinus Collegium, um think tank húngaro gerido pelo movimento de Victor Orbán. Há também ligações com movimentos de extrema-direita de outros pontos do mundo: o Brasil é um exemplo óbvio, Israel seria outro. Existe, portanto, um nível de coordenação e de cooperação internacional que não existia e que está mais facilitado porque têm acesso a grandes somas de dinheiro para fazer essa organização internacional. No entanto, a extrema-direita é nacionalista em contraste com o internacionalismo dos progressistas. Aqui trata-se apenas de outro caso de mero oportunismo. Os progressistas querem construir alianças além-fronteiras de uma forma que um fascista internacional nunca faria.
Existe potencial na Hungria, mas é preciso que outros governos e outras sociedades civis europeias se movimentem para o reforço da cooperação com os húngaros.
Nesse contexto, olha com otimismo para a Hungria e para a mudança com um novo Primeiro-Ministro cuja origem é precisamente o Fidesz, partido de Orbán?
É uma oportunidade para mudar o que estava a acontecer na Hungria, mas ao mesmo tempo um momento para seguir com cautela. Orbán, no poder, agiu em várias direções para reforçar o poder do seu regime: redes de negócios com gente da sua confiança e da família, em especial no setor dos serviços; controlo do poder judicial; controlo dos media; mudanças na Constituição. Neste contexto, uma mudança de poder, mesmo para alguém que só está um passo ao lado à direita, já é significativa. Existe potencial na Hungria, mas é preciso que outros governos e outras sociedades civis europeias se movimentem para o reforço da cooperação com os húngaros. E, assim, talvez uma evolução mais progressista seja viável mais depressa.
Quando observa as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, que força identifica na voz da União Europeia para que se encontrem soluções?
A União Europeia tem lutado, nos últimos anos, para deixar uma imagem forte e defender os interesses europeus em conflitos no plano internacional. Na Ucrânia, a unidade dos países europeus em apoio ao país, incluindo para fornecer ajuda militar, é essencial. Porém, não me parece que os governos e líderes europeus tenham ido além dessa solidariedade na definição de uma efetiva estratégia a favor ou contra a guerra. E isso deixa a Ucrânia e a Europa numa situação difícil. No ano passado, a União Europeia e os países europeus foram excluídos das conversações de paz. Obviamente, os ucranianos foram envolvidos, mas isso também revela uma certa fraqueza europeia. E o mesmo é verdade no Médio Oriente. A diferença é que a Europa é chave na Ucrânia, na medida em que representa apoio financeiro e militar, cruciais na defesa da soberania ucraniana.
Esta união é totalmente falhada no Médio Oriente. Não há uma leitura europeia comum sobre o 7 de outubro, a destruição e o genocídio em Gaza. Agora, com a guerra estendida ao Irão e ao Líbano, vários países europeus têm leituras diferentes do assunto. O governo italiano disse recentemente não ter posição sobre a guerra no Irão - isto, para um grande país como este, significa não ter posição sobre um conflito que tem ramificações globais. Ora, outros países europeus, como Espanha, Eslovénia ou Irlanda têm erguido a voz em defesa da paz, num evidente contraste com o silêncio italiano. E o resultado disto é que os países europeus não foram protagonistas em relação a qualquer tipo de mediação ou gestão de crise. E as negociações de paz foram para o Paquistão, sob a liderança do governo paquistanês, e não para a União Europeia ou para qualquer outro Estado europeu.
Vivemos tempos de violações de direitos humanos, em contexto de guerra e não só, além de inúmeras situações contrárias ao desenvolvimento de conceitos como responsabilidade ambiental, liberdade, justiça, diversidade, não-violência. Que espaço existe, de facto, para a afirmação de políticas ambientais?
As políticas ambientais são a base para a segurança futura de cada sociedade, de cada economia, de cada um de nós.
Penso que as políticas ambientais são a base para a segurança futura de cada sociedade, de cada economia, de cada um de nós. E não me parece que, sem essas políticas, seja viável falar em futuro, por exemplo, do estado social, um orgulho para os europeus. A criação do estado social foi uma forma de proteger as pessoas das transições e dos riscos que enfrentam na vida, como acontece se isso significar doença ou se significa chegar a uma idade em que não temos mais condições para trabalhar. E o que vemos com as alterações climáticas cada vez mais reais é que existem novas formas de riscos: condições de trabalho que não sejam suportáveis sob exposição a determinadas temperaturas; riscos de casas ou empresas serem destruídas por eventos climáticos extremos. Construir respostas sociais a isso, que necessariamente significarão políticas ambientais e sociais lado a lado, é o caminho certo. Muitas das crises que vivemos nos últimos anos suscitaram questões sociais - por exemplo, a pandemia de Covid-19, as duas últimas crises energéticas e a inflação que veio com elas. São casos que estão profundamente ligados ao ambiente e não me parece que faça sentido uma separação entre o que é ambiental, social ou até mesmo uma questão de segurança. Estão todas juntas.
Temas como habitação, saúde, educação, justiça são essenciais na atualidade face aos problemas em cada um destes setores. Encontra boas respostas a estas questões quando ouve as forças progressistas?
Sim, desde logo um ressurgimento de pensamento sobre economia que estava afastado há anos. Um bom exemplo é o debate sobre as taxas mundiais aplicadas aos hiper-ricos. Em França, tem havido um grande debate sobre a chamada taxa Zucman, também identificada com Mamdani, uma vez que foi tema central na sua campanha em Nova Iorque. Evidenciar a gritante desigualdade entre milionários e cidadãos comuns é algo que tem de ser feito.
Como progressistas, precisamos de voltar a unir as pessoas, promovendo o diálogo e a cooperação.
Também a habitação exige boas respostas e, no caso português, o LIVRE tem alertado para a diferença avassaladora nas taxas de habitação pública que, em Portugal, não passam dos 2%...
Sem dúvida, é muito baixa. E essa é uma boa proposta para mudar e tornar a realidade melhor para toda a população. É preciso trazer o público e a comunidade de volta. E isto é tão válido na habitação como para outros serviços essenciais: transportes, energia, etc. E isso não tem de traduzir-se sempre na nacionalização de empresas. Por exemplo, no caso da energia, temos visto muitos exemplos de casos municipais e de comunidades de energia entre cidadãos, envolvendo as pessoas coletivamente no investimento a desenvolver tecnologias renováveis, mas também a partilhar e reaproveitar o benefício disso a longo prazo. Há muitos modelos, claro... Mas, voltando às primeiras perguntas sobre a ascensão da extrema-direita, penso que esta se aproveita de uma sociedade dividida em temas como habitação, energia, educação e outros. Como progressistas, precisamos de voltar a unir as pessoas, promovendo o diálogo e a cooperação. Penso que é assim que crescemos mais fortes e podemos proporcionar uma vida melhor para cada um.
A Comissão Europeia trouxe de volta a energia nuclear como uma forma de reforçar o caminho para a descarbonização. Não é um passo perigoso?
Penso que sim, especialmente porque, tendo em conta a emergência climática, não faz sentido investir milhares de milhões de euros a construir novas centrais nucleares quando a opção mais barata para a energia são as renováveis, como o solar ou o vento. E estas tecnologias têm muitas vantagens face ao nuclear: são baratas; relativamente rápidas de instalar, ou seja, não se trata de projetos que demorem 20 anos, podem estar online em pouco tempo; e são descentralizadas. Vivemos uma era de crise, há guerra em território europeu, há guerra no Médio Oriente, há eventos climáticos extremos, há novos tipos de ameaças, como a segurança cibernética. Neste contexto, construir um sistema de energia descentralizado é também dispor de níveis de resistência mais elevados, enquanto um sistema de energia nuclear depende de pontos críticos em que a produção e, portanto, os riscos estão concentrados. No mundo volátil em que vivemos, a descentralização também é uma opção mais segura. Por isso, a principal pergunta, durante muito tempo, sobre as renováveis foi se podiam estabilizar sem suficiente tecnologia de baterias. Esta, a cada ano que passa, avança, os custos descem e já estamos a chegar a um ponto em que, em vez de ser feito um investimento a 20/30 anos para uma central de energia nuclear, a combinação de energia descentralizada e renovável, apoiada pelas baterias e com maior grau de segurança, já está lá. Então, por que razão não assumir esta escolha?