A Leitura como Farol: Do mundo da palavra ao mundo digital
A minha reflexão navega entre dois mundos: o mundo da palavra, sólida e perene, e o mundo digital, fluido e imediato. E trago também uma convicção, que se foi firmando em mim desde os sete anos de idade, através de uma frase que nunca me abandonou: «Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê.»
Atribuída ao escritor e editor brasileiro Monteiro Lobato, pai do Sítio do Picapau Amarelo, esta frase foi o meu primeiro encontro consciente com o poder transformador da leitura. Estava afixada na porta da secretaria da minha escola primária, ilustrada por três macaquinhos: um a tapar os ouvidos, outro a cobrir a boca e o terceiro a velar os olhos. A conclusão é que uma imagem vale apenas aquilo que quer dizer e... disse.
Ler, para além do prazer intrínseco de viajar por terras desconhecidas e inimagináveis, é fundamentalmente um ato político.
Só com o passar dos anos e com o aprofundamento da minha própria jornada de leitura é que o seu verdadeiro significado se revelou de forma plena. Percebi que, através da leitura, se abririam janelas para mundos que nem sequer imaginava existir. Ler, para além do prazer intrínseco de viajar por terras desconhecidas e inimagináveis, é fundamentalmente um ato político.
É um caminho para o auto-conhecimento, para a compreensão da realidade do Mundo e do Outro. Esta é a principal interpretação que aprendi daquela máxima de Monteiro Lobato ao longo da minha vida. Fui compreendendo, com o passar dos anos, que aquela não era apenas uma exortação para que lêssemos mais; mas um aviso profundo sobre as consequências da ignorância e da incompreensão para a nossa humanidade.
A nossa vida, como leitores assíduos ou como não-leitores, é permeada por frases que sublinham a importância vital do ato de ler para o desenvolvimento humano e a nossa cidadania. O tema da leitura tem, ao longo dos anos, gerado calorosas discussões entre pedagogos, sociólogos, psicólogos, filósofos e uma miríade de profissionais de diversas áreas. Todos, de forma unânime, concordam que a leitura molda um ser humano mais preparado social, cultural e politicamente.
As notícias falsas, os algoritmos que moldam a nossa perceção e a efemeridade das interações digitais transformaram a linguagem num verdadeiro campo de batalha.
Vivemos hoje um paradoxo notável: nunca tivemos tanto acesso à informação, mas nunca, por outro lado, estivemos tão expostos à desordem e à manipulação. As notícias falsas, os algoritmos que moldam a nossa perceção e a efemeridade das interações digitais transformaram a linguagem num verdadeiro campo de batalha.
Neste cenário, a pergunta que se impõe é: qual é o lugar da Literatura? A resposta é clara e urgente: ela, mais do que nunca, é um ato político, como sublinhei há pouco. Não no sentido partidário, mas sim naquele mais profundo do termo, como defendia o pedagogo Paulo Freire. É um ato de resistência contra qualquer poder instituído pela força, uma arma para a consciência que, uma vez despertada, não mais se cala. Ler é apreender o mundo e compreender o seu contexto. E não basta viver numa ditadura para compreender o sentido deste pensamento. Hoje vivemos sob a égide da ditadura do imediatismo, do consumismo, das mentiras e dos revisionismos históricos.
Ler é apreender o mundo e compreender o seu contexto. E não basta viver numa ditadura para compreender o sentido deste pensamento. Hoje vivemos sob a égide da ditadura do imediatismo, do consumismo, das mentiras e dos revisionismos históricos.
Ao lermos, ou ao acostumarmo-nos à leitura, estamos inegavelmente numa relação dialética pois que o ato de ler não se esgota em si mesmo. A aprendizagem da leitura, da escrita, da alfabetização é, antes de mais, uma aprendizagem do mundo e a compreensão do seu contexto, o que não lhe confere uma manipulação mecânica das palavras, mas uma relação dinâmica que vincula linguagem e realidade. Paulo Freire, sublinha que
(...) A leitura do mundo precede a leitura da palavra, dai que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a perceção das relações entre o texto e o contexto.
Ou seja, sem esta relação dialética, ficamos incapazes de ver o que está na entrelinha, tornamo-nos carneiros enfileirados à volta de telas iluminadas de ilusão, facilmente domesticáveis pelo discurso do político, da propaganda ou da desinformação.
Não é por acaso que a leitura, a aprendizagem, a educação e a cultura são frequentemente desvalorizadas em regimes ditatoriais. Mesmo quando a leitura é incentivada nesses regimes, é porque cumpre e veicula a ideologia do poder vigente. Contudo, e aqui reside o seu poder intrínseco, a leitura ou, de forma mais abrangente, a educação, constitui-se numa verdadeira arma contra qualquer poder instituído pela força, ou, como nos dias de hoje, no poder instituído pela dissimulação das mentiras.
A linguagem sempre foi um instrumento de poder; quem domina as narrativas, domina a perceção da realidade. Contudo, na era digital, a palavra é frequentemente reduzida a um meio de persuasão rápida, esvaziada de profundidade, e é aqui que a literatura se destaca como antídoto vital. Ela exige pausa, contemplação e aceitação do ambíguo; elementos que desafiam frontalmente a simplificação grosseira da «verdade» do imediato.
Enquanto a desinformação busca aplainar os sentidos, a literatura multiplica-os.
Enquanto a desinformação busca aplainar os sentidos, a literatura multiplica-os. Ela habita o não dito, o inefável, a complexidade da experiência humana. Convidando o leitor a interpretar, a sentir e a questionar, a literatura desautomatiza a nossa visão, quebra a rotina mental e permite-nos ver o mundo sob novas perspetivas.
A sua capacidade de proporcionar um espaço de reflexão, onde somos convidados a desacelerar, é essencial para a construção de um pensamento. A qualidade da nossa leitura determina a qualidade do nosso pensamento, e a qualidade do nosso pensamento, por sua vez, determina a qualidade da nossa civilização.
Um algoritmo não sente o luto, a perda, não conhece a resistência, não vive a paixão ou a saudade, nem luta contra a opressão.
E, chegados aqui no tempo da Inteligência Artificial, pergunto: pode uma máquina criar poesia... sim, a IA é capaz de produzir versos metrificados, metáforas coerentes e até poemas que emocionam. Pode reproduzir a forma, mas falta-lhe algo intangível e insubstituível: a vivência. Um algoritmo não sente o luto, a perda, não conhece a resistência, não vive a paixão ou a saudade, nem luta contra a opressão. Pode simular, mas nunca possuirá a alma, fruto de uma experiência humana singular, imperfeita e contraditória.
Não quero, com isto, diabolizar o futuro. A tecnologia pode e deve ser uma ferramenta incrivelmente útil, que amplia a criatividade humana. Mas é chegada a hora de uma legislação concertada que regule a IA, e de reforçar, no capítulo da Educação, um ensino que contemple os novos meios, mas que também aposte no bom e velho método do lápis e do papel nas escolas. É crucial que se leia, que se trabalhe a importância da língua, que se dominem os clássicos. Pois dominar a língua não é apenas uma habilidade prática, mas uma capacidade de auto-perceção e compreensão do mundo.
Poderíamos quase dizer que ler é fazer musculação com o cérebro.
A prática da leitura profunda – contraponto necessário à leitura superficial incentivada pelos media digitais – desenvolve circuitos neuronais essenciais para o pensamento crítico, a atenção sustentada e a empatia cognitiva. Os neurocientistas têm demonstrado como a imersão em textos complexos fortalece as redes neuronais responsáveis pela reflexão analítica e pela compreensão contextual. Poderíamos quase dizer que ler é fazer musculação com o cérebro.
Vivemos sob a ditadura do instantâneo, é uma verdade. As redes sociais nos condicionam a reações rápidas, debates rasos e emoções descartáveis. Tudo se torna efémero. Vivemos a era do esquecimento, em que até a História e a Ciência são postas em causa. Vivemos na época da mentira repetida incontáveis vezes, que se tornou verdade absoluta para muitos. O ministro da propaganda de Hitler, Goebbels, deve estar se rindo do seu túmulo cármico, pois a história se repete de uma forma ainda mais dissimulada e com a velocidade da luz das redes.
Escrever e ler na era da Inteligência Artificial é, no fundo, um ato político de resistência.
A Literatura, neste contexto, revela a sua dupla natureza: é tanto espelho como farol. Espelho das complexidades humanas; farol que ilumina caminhos possíveis. Através da imersão em mundos ficcionais, experimentamos realidades alternativas, vivemos vidas que não foram as nossas, ampliamos o nosso reportório existencial. Esta capacidade de «viver outras vidas» desenvolve a empatia, fortalece o tecido social, aprofunda a compreensão mútua.
Escrever e ler na era da Inteligência Artificial é, no fundo, um ato político de resistência. É uma forma de lutar contra a banalização e o simplismo telegráfico da palavra, contra a desumanização das relações e contra a ilusão de que tudo pode ser reduzido a dados e algoritmos.
Numa era de verdades relativas, a Literatura não nos oferece respostas prontas. Em vez disso, ensina-nos a fazer as perguntas certas. E quem pergunta, tem dúvidas; e quem tem dúvidas, é capaz de ver além, de não acreditar em tudo o que lhes tentam impingir pelos olhos, através das telas sempre iluminadas no nosso dia a dia.
Monteiro Lobato, com a sua visão pioneira, deixou-nos outro pensamento que nos deve fazer refletir. Disse ele: «Um país se faz com homens e livros.» Atualizando o seu pensamento, eu digo que um país se faz com homens, mulheres e livros. A qualidade de uma democracia mede-se pela qualidade dos seus leitores. Sociedades que leem profundamente são sociedades que pensam criticamente, que decidem conscientemente, que convivem civilizadamente. Pelo menos, quero acreditar nisso, ou que deveriam ser assim.
A biblioteca de Alexandria contemporânea não ardeu - pelo contrário, expandiu-se de forma inimaginável. Temos hoje acesso a mais livros do que qualquer geração anterior na história da humanidade. O desafio já não é o acesso à informação, mas a capacidade de a transformar em conhecimento, sabedoria e consciência. Temos, pois, em nossas mãos, os livros que quisermos ser, bem como os mundos que queremos ver no nosso horizonte. Devemos recolocar o livro no seu trono, que é o de ser fonte de saber permanente.
A escolha que se nos coloca é, no fundo, existencial: queremos ser consumidores passivos de conteúdos, ou leitores ativos de mundos? Sujeitos da tecnologia, ou sujeitos através da tecnologia? A resposta determinará não apenas o futuro da Literatura, mas o futuro da nossa humanidade partilhada.
Termino com uma convicção: a Literatura sobreviverá não como relíquia do passado, mas como farol do futuro. Não como luxo de elites, mas como necessidade democrática. Não contra a tecnologia, mas através dela. O que está em jogo não é o futuro dos livros, mas o futuro da capacidade humana de criar sentido, beleza e verdade num mundo cada vez mais complexo e desigual. A Literatura é uma necessidade imperativa. Ela não é apenas linguagem; é uma espécie de consciência, individual e coletiva. E talvez essa seja a sua maior força, e a nossa maior esperança.
Bibliografia
FREIRE, Paulo — A importância do ato de ler (Cortez Editora/1992);
FILHO, Ozias — Quem mal lê: mal ouve, mal fala, mal vê - A leitura e as janelas para o Mundo (Universidade Católica Portuguesa/2006);
LOBATO, Monteiro — citações encontradas na internet.
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1962. É escritor, fotógrafo e editor. Publicado no Brasil e em Portugal, é autor de vários livros de poesia, entre os quais «Poemas do dilúvio», «Páginas despidas», «O relógio avariado de Deus», «Insulares, Insanos», «Os cavalos adoram maçãs», «O avesso da casa» e «Um anjo com a boca pintada de sangue». Vive em Portugal desde 1991.
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