Jornalismo - presente com que futuro?
Se não há jornalismo sem democracia, também não há democracia sem uma imprensa livre e independente. Num contexto de desinformação, desconfiança social e apatia política, o que pode o jornalismo?
Às vezes sentimo-nos pequenos perante a grandeza de certas heranças. Talvez porque algumas feridas sociais não se medem em dias, governos ou ciclos mediáticos, mas em séculos. E também porque há palavras que nunca chegam vazias. Entram nas nossas conversas carregadas de distância, caricatura, suspeição e olhares de soslaio.
São palavras que chegam antes da própria pessoa. Antes do nome, da profissão, da história ou do carácter. Em Portugal, uma dessas palavras é «cigano», talvez a única que representa simultaneamente um grupo étnico e um comportamento carregado de lugares-comuns socialmente esperados. Entre os quais, claro, o célebre: «são eles que não se querem integrar».
É particularmente revelador quando a carga pejorativa deixa de existir apenas no insulto popular e entra na própria definição institucionalizada da linguagem — os dicionários — quase como se séculos de preconceito passassem a apresentar-se como descrição objetiva da realidade.
O mais curioso é que até a origem da palavra «cigano» nasce do olhar do outro e não da autodefinição dos visados pelo termo. Venha da conhecida associação aos egipcianos, pela alegada passagem de algumas destas comunidades pelo Egipto, ou da menos conhecida ligação ao termo bizantino Athinganoi ou Atsinganoi, associado à ideia de pessoas a evitar ou «intocáveis». Há algo profundamente simbólico numa identidade construída — desde cedo e de fora — a partir da distância social.
Talvez por isso importe recordar que os Roma (Calon¹, Manouches, Sinti, etc.) não começaram por se definir a si próprios como «ciganos». Este termo, hoje considerado depreciativo em vários países europeus, permanece amplamente normalizado e institucionalizado em Portugal e Espanha («gitanos»), inclusive dentro dos próprios ciganos portugueses, que o assumem também como espaço de pertença, orgulho e identidade.
Mas foi a sociedade dominante que construiu a designação, que lhe atribuiu significado e a sedimentou ao longo dos séculos, até que os próprios «ciganos» passaram também a habitá-la como identidade quotidiana. E por isso somos ciganos, claro. Hoje seria impossível dizer outra coisa aos caloncitos.
Mas há uma diferença profunda entre identidade e destino, entre aquilo que alguém é e aquilo que a sociedade espera que venha inevitavelmente a ser. Nenhuma identidade deveria carregar, à partida, um teto invisível sobre o potencial humano de uma pessoa. No entanto, para além da sua história singular, a condição de ser cigano continua carregada de expectativas, leituras e limitações impostas, tanto de dentro como de fora.
Importa, portanto, lembrar que o desperdício humano raramente aparece nas estatísticas. Não aparece o músico que nunca teve palco; a investigadora que nunca teve incentivo; a chefe do departamento de vendas de uma multinacional que ficou pelos diretos nas redes sociais; ou a «ciganinha» que percebeu cedo que o seu apelido chegava antes do seu nome próprio no CV.
Talvez uma democracia madura se meça precisamente pela capacidade de transformar «pedras de arremesso» em «pedras angulares», reconhecendo valor humano onde, durante demasiado tempo, apenas se aprendeu a projetar hostilidade.
A Cultura, no seu melhor sentido, não serve apenas para entreter nem para cristalizar comunidades em imagens folclóricas confortáveis. Serve, sobretudo, para devolver humanidade e para criar encontro onde tem existido demasiado distanciamento. Mas a Cultura também serve para recordar que nenhuma comunidade é um monólito e que nenhuma pessoa deveria ser reduzida à categoria onde os outros decidiram colocá-la. Como fez o Nininho há dias no Coliseu, quando afirmou: «hoje aqui somos todos ciganinhos (…)»
As sociedades não se degradam apenas quando surge o extremismo. Mas sobretudo quando pessoas moderadas começam a aceitar linguagem desumanizante como normal; quando os palcos mediáticos legitimam leituras simplistas da realidade; e quando as instituições democráticas se deixam contaminar por frases que a Europa já ouviu antes. As mesmas que abriram caminho à perseguição e extermínio de mais de 500 mil Roma durante o Holocausto.
E talvez uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo seja precisamente esta: devolver humanidade completa às pessoas que durante séculos foram perseguidas e invisibilizadas, criando espaços físicos de representação, onde os seus pares se possam destacar e ser ouvidos, sabendo que a linha de partida foi diferente.
Talvez 500 anos de resistência sirvam para provar que o caminho não se faz pelo apagamento dos Calons², mas pelo conhecimento mútuo e pela proximidade.
Renato Bernardino é fundador do CALLON - Centro de Abertura a Linguagens e Lugares Outrora Negados, Licenciado em Ciências Sociais | Mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais
Calon¹ (plural: Calons²) é o termo pelo qual se autodesigna a maioria dos ciganos em Portugal.
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