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02.09.2026 Rafaela Lacerda Saúde Política Opinião

Bate, bate coração

Bate, bate coração

O nível de desinformação a que chegámos é tal que a demagogia e a manipulação, usadas por movimentos e partidos políticos ditos pró-vida para aumentar os entraves à realização de interrupções voluntárias da gravidez, estão a atingir proporções descontroladas.

Recentemente, André Ventura, líder do partido Chega, sugeriu que, antes de uma mulher decidir pela interrupção da gravidez, deveria ouvir o coração do feto a bater, numa tentativa fraudulenta de mostrar que ali havia uma vida e um ser humano com um coração. É aqui que entra a falta de literacia científica de que estes movimentos se aproveitam.

O nível de desinformação a que chegámos é tal que a demagogia e a manipulação, usadas por movimentos e partidos políticos ditos pró-vida para aumentar os entraves à realização de interrupções voluntárias da gravidez, estão a atingir proporções descontroladas.

A formação do coração, como de qualquer outro órgão, passa pela diferenciação de células estaminais, ou seja, um conjunto de células com as mesmas características, que vai adquirindo propriedades específicas à medida que são produzidos determinados sinais químicos e físicos. Isto acontece para as células do coração, do fígado, do rim ou de qualquer outro órgão. É um procedimento muito rotineiro de fazer em laboratório e não é nenhum milagre divino, por isso, mesmo numa placa de Petri, as células cardíacas, assim que atingem os níveis de maturação estrutural e eléctrica adequados, começam a contrair-se espontaneamente, apresentando «batimentos cardíacos». Estes batimentos espontâneos, em laboratórios, não necessitam de nenhum tipo de estimulação artificial, e acontecem somente devido ao surgimento de canais de sódio e cálcio que se formam na célula e criam uma instabilidade eléctrica na célula, permitindo uma oscilação eléctrica, capaz de activar proteínas contrácteis que fazem a célula encolher e relaxar. À medida que as células se multiplicam e se forma um tecido, elas trocam sinais entre si e estabelecem ligações, o que resulta num tecido unificado a bater em sincronia. Ninguém, no seu juízo perfeito, dirá que é um ser humano que está naquela placa de Petri.

No entanto, é esta falácia que querem fazer crer às pessoas, é este mito que querem propalar, como se o aborto fosse um capricho leviano da mulher que opta por fazê-lo. Nenhuma mulher recorre a este procedimento de ânimo leve. Nenhuma o faz por ser irresponsável, egoísta ou tantas outras coisas que ouço por aí. Antes por falta de condições físicas, psicológicas ou sociais. Porque não nos podemos esquecer de que, em última instância, o resultado de uma gravidez é uma criança que vem ao mundo e que não pediu para vir. Mas, mesmo assim, tem direito a viver dignamente, com habitação digna, alimentação, vestuário, acesso a cuidados de saúde e higiene e, já agora, cuidado, carinho e protecção.

Nenhuma mulher recorre a este procedimento [o aborto] de ânimo leve. Nenhuma o faz por ser irresponsável, egoísta ou tantas outras coisas que ouço por aí. Antes por falta de condições físicas, psicológicas ou sociais.

Não andamos a ter filhos para os entregar a instituições que recebem mais um subsídio chorudo por cada um e depois os largam à sua sorte quando atingem a maioridade. Nem andamos a ter filhos para os submeter à vida precária a que os pais são sujeitos, pois a meritocracia não existe e a bola de neve da pobreza só tende a aumentar para alimentar a mão-de-obra barata do grande Capital, que quer trabalhadores pouco qualificados para lhes pagar o mínimo possível e reclamar menos ainda. Temos filhos porque queremos, quando queremos e, sobretudo, quando tivermos condições para tal, sem que haja obrigatoriedade nisso, porque houve um acidente ou um crime. Sem pôr em risco a saúde da mulher, sem condicionar o futuro de meninas que vêem a sua juventude aniquilada por uma gravidez indesejada.

Temos filhos porque queremos, quando queremos e, sobretudo, quando tivermos condições para tal, sem que haja obrigatoriedade nisso, porque houve um acidente ou um crime.

Andamos a discutir, mais uma vez, o aborto, como se a sua despenalização implicasse alguma obrigatoriedade para quem o não queira fazer, quando o que deveríamos estar a discutir seria o alargamento do prazo para a sua realização, de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde; aumentar o número de locais e de médicos disponíveis para o fazer e permitir que mais mulheres possam ter acesso ao procedimento de forma segura e gratuita, sem terem de recorrer a outros países da União Europeia.

Além disso, a obrigatoriedade de incluir a disciplina de Educação Sexual nas escolas é fundamental para aumentar o conhecimento de todos sobre estas matérias. É a falta de literacia que leva a que estes movimentos extremistas ganhem terreno e conquistem adeptos dentro daqueles a quem mais falta faz esta informação. Não tenhamos medo do conhecimento. Só assim poderemos garantir os nossos direitos.

Rafaela Lacerda

Rafaela Lacerda

Bióloga, investigadora, escritora.

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