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Todos os homens
Homens, a manosfera diz-vos respeito a todos: é sobre vocês que falam os gurus da masculinidade. São eles que dizem e ditam o que um homem deve ser, com pretensão de universalidade. Falam em vosso nome, em nome de todos os homens. São eles que falam diretamente aos vossos filhos, explorando as inseguranças comuns da adolescência, a fome de pertença e de validação pelos pares. São eles que lucram com o medo: o medo de não estar à altura, o medo de falhar, o medo de outros homens, o medo das mulheres. O medo, (quase) sempre o medo, na origem do ódio e da dominação. A masculinidade não é excepção: o medo e a misoginia são duas faces de uma só moeda.
A manosfera é uma lupa da masculinidade, um ensaio clínico cujo laboratório são as redes sociais.
A manosfera não é uma entidade abstrata nem homogénea: é um universo fragmentado de redes, canais, influenciadores, grupos e pseudo-gurus masculinistas. A misoginia dá coesão ideológica à fragmentação; o algoritmo dá-lhe veículo. A manosfera é uma engrenagem algoritmicamente bem oleada: o conteúdo mais divisivo, disruptivo, explosivo e polarizador é premiado com partilhas — enfurecidas ou concordantes, no fim pouco importa: as visualizações engrossam, os conteúdos viralizam. A amoralidade algorítmica promove a imoralidade do discurso e o combustível da indignação.
Nos palcos digitais, homens jovens reciclam ideias velhas e discursos bolorentos, porque sabem que assim geram atenção — e atenção, no digital, gera lucro.
A manosfera é uma lupa da masculinidade, um ensaio clínico cujo laboratório são as redes sociais. Não nos enganemos: o machismo já cá estava, estrutural, entranhado até aos ossos, nas famílias e nas igrejas, nas leis e nos costumes, na medicina, na história, nos mecanismos de poder. O ecossistema desregulado das redes e das plataformas digitais veio dar-lhe uma outra escala, uma nova arquitetura de significados, mas sobretudo uma nova fórmula de monetização. Nos palcos digitais, homens jovens reciclam ideias velhas e discursos bolorentos, porque sabem que assim geram atenção — e atenção, no digital, gera lucro.
Coaches, gurus, profetas do novo-homem-velho, prontos a vender fórmulas e receitas sobre como vencer, como seduzir, como dominar. A manosfera é um esquema em pirâmide, como a investigadora Ziyu Deng bem notou: a cúpula dos vencedores-vendedores precisa de uma base alargada de insatisfeitos, sedentos de modelos e mapas de ação, de referências e códigos de virilidade. Muitos deles são muito jovens; muitos deles não procuram ativamente conteúdos misóginos. Muitos deles são permeáveis a alternativas. Todos deles precisam de alternativas.
Este é um apelo para que sejam vocais contra a misoginia em todas as esferas.
Por isso, homens, o meu apelo é para vocês. Para todos os homens. É tempo de agir, coletivamente. Precisamos que todos os homens que não se reveem nos papéis e nos discursos da manosfera sejam vocais. Se a manosfera fala por todos os homens, é necessário que todos os outros se posicionem; que compareçam e se comprometam, que desmontem as falácias dos discursos supremacistas.
As mulheres estão há demasiado tempo na dianteira da luta contra o sexismo e a misoginia. Estamos, quase sempre, quase sós. Sofremos a violência e ainda coordenamos a luta. São poucos os aliados – valiosos – que se juntam, mas este momento exige outra força e união.
Este é um apelo para que sejam vocais contra a misoginia em todas as esferas: nas redes, nas escolas, nas famílias, entre amigos. A desconstrução da masculinidade dominante faz-se também (ou sobretudo) fora dos palcos digitais. Não bastam outros discursos, faltam sobretudo outras práticas: como feminista, aprendi que os falsos aliados são tão perigosos como os falsos profetas da masculinidade. A luta contra o machismo faz-se nas nossas casas, camas e cozinhas. É nelas que se combate o medo e se constroem o cuidado e a liberdade. Só a liberdade de todas as mulheres permitirá que os homens sejam livres, livres entre iguais. Sim, todos os homens.
Maria João Faustino é investigadora, CES-UC, doutorada em Psicologia pela Universidade de Auckland
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