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Poesia de uma Palestina devastada (pré-publicação)
Enquanto o Governo israelita de extrema-direita mata crianças, mulheres e homens, destrói casas, escolas e hospitais, tudo devastando numa fúria genocida contra os palestinianos, vozes de resistência erguem-se contra o silêncio e a indiferença da comunidade internacional.
Vozes como a do poeta, ensaísta e contista Mosab Abu Toha, autor de «Coisas que poderás encontrar escondidas no meu ouvido: poemas de Gaza» (2022, City Lights), obra que lhe permitiu conquistar o Palestine Book Award em 2022 e da qual o Progressistas.pt aqui faz pré-publicação, por gentileza da Traça Editora.
Fundador da Edward Said Library e, entre 2019 e 2020, poeta convidado e bibliotecário residente na Universidade de Harvard, o autor ganhou um Prémio Pulitzer e foi finalista do Prémio National Book Critics Circle. Segundo a sinopse da obra, «neste livro de estreia em poesia, Mosab Abu Toha escreve sobre a sua vida sob cerco em Gaza, primeiro enquanto criança, depois enquanto jovem pai. Sobrevivente de quatro brutais ataques militares, testemunha um ciclo incessante de destruição e agressão e, ainda assim, a sua poesia é inspirada por uma profunda humanidade. Estes poemas emergem da experiência de crescer e viver em confinamento permanente, muitas vezes sob ataque directo. Tal como a própria Gaza, estão repletos de escombros e da ameaça constante dos drones de vigilância que policiam um povo indesejado na sua própria terra, mas encontram-se também impregnados do cheiro do chá, de rosas em flor e da visão do mar ao pôr-do-sol». O texto dá ainda conta de que «o livro é acompanhado por uma entrevista aprofundada (conduzida por Ammiel Alcalay), na qual Abu Toha fala sobre a vida em Gaza, as origens da sua família e a forma como chegou à poesia».
Está em curso uma campanha para apoiar a produção do livro.
Podem encontrar aqui a referência ao crowdfunding que decorre até 13 de julho, revertendo 15% para a Palestina.
Eis quatro exemplos da voz de Mosab Abu Toha:
O meu avô era um terrorista
O meu avô era um terrorista —
Cuidava do seu campo,
regava as rosas no pátio,
fumava cigarros com a avó
na praia amarela, estendido
como um tapete de orações.
O meu avô era um terrorista —
Colhia laranjas e limões,
ia pescar com os irmãos até ao meio dia.
cantava uma canção reconfortante a caminho
do ferrador no seu cavalo pigarço.
O meu avô era um terrorista —
Fazia chá com leite,
sentava-se na sua terra verdejante, suave como seda,
O meu avô era um terrorista —
Partiu da sua casa, deixando-a para os convidados vindouros,
deixou alguma água na mesa, a sua melhor,
para que os convidados não morressem à sede depois da sua
conquista.
O meu avô era um terrorista —
Caminhou até à cidade segura mais próxima,
vazia como o céu taciturno,
desocupada como uma tenda deserta,
escura como a noite sem estrelas.
O meu avô era um terrorista —
O meu avô era um homem,
um ganha-pão para dez,
cujo luxo era ter uma tenda,
com uma bandeira azul da ONU na haste enferrujada,
na praia junto a um cemitério.
Soluçar sem som
Desejo poder acordar e ter a electricidade ligada o dia todo.
Desejo de poder ouvir os pássaros a cantar novamente,
sem tiroteios ou drones a zumbir.
Desejo que a minha secretária me ligue para suster a minha
caneta, e escrever outra vez ou pelo menos arrastar-me por
um livro de ficção, revisitar um poema ou ler uma peça.
Ao meu redor não há nada
a não ser silenciosas paredes
e pessoas a soluçar sem som.
Salto olímpico da macaca
Sentamo-nos e bebemos chá
na quente noite do Ramadão.
Rapazes jogam às escondidas.
Raparigas saltam a jogar à macaca.
Mães conversam e riem.
Um zumbido de drones a voar
sobre a minha família e amigos
acaba com os jogos, as conversas e os risos.
Um míssil falha,
atingindo só terras agrícolas próximas.
Estilhaços cortam os fios eléctricos.
Poeira cai sobre o nosso chá
como espuma de um latte.
Mais mísseis aparecem a voar,
atentos a tudo o que se mexa.
Anjos apoderam-se da minha sobrinha bebé.
Olhamos à volta e só encontramos
o seu biberão.
Merecemos uma morte melhor
Merecemos uma morte melhor.
Os nossos corpos estão desfigurados e retorcidos,
bordados com balas e estilhaços.
Os nossos nomes são pronunciados incorrectamente
na rádio e na TV.
As nossas fotos, estucadas nas paredes dos nossos edifícios,
desvanecem e empalidecem.
As inscrições nas nossas pedras tumulares desaparecem,
cobertas por fezes de aves e répteis.
Ninguém rega as árvores que fazem sombra
às nossas sepulturas.
O sol ardente subjugou
os nossos corpos em putrefacção.
Artigo sem recurso ao Acordo Ortográfico, respeitando a obra em causa.
Progressistas
Escravatura no espaço atlântico
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