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Pelos olhos de Marjane
Quando me chegou a notícia da morte de Marjane Satrapi, estava a caminho da Feira do Livro de Lisboa.
Comovi-me, confesso.
Não esperava esta notícia, não esperava que Marjane já não estivesse entre nós.
Como podia Marjane ter-nos deixado, se ainda no dia anterior eu tinha comprado (pela enésima vez) uma cópia do seu eterno Persépolis, na esperança de entronizar uma jovem leitora nas lides da banda desenhada?
Como podia Marjane ter-nos deixado, se de todas as vezes que segurei as páginas de um livro seu, ela estava sempre ali, tão presente, contando-me a sua história de vida, pari passu entretecida com a do seu Irão?
Consigo reconduzir a Marjane Satrapi diversas dimensões da minha própria identidade. Pois também eu desnovelo esse fio invisível que energiza todas as mulheres artistas.
E eis que dei por mim a pensar na Ana Maria.
Consigo reconduzir a Marjane Satrapi diversas dimensões da minha própria identidade.
Conheço-a em abril de 2025, numa escola secundária em Coimbra. Tem 14 anos. Estou a orientar uma sessão de mediação literária com estudantes do 9.º ano, em torno do meu livro 25 Mulheres.
Durante a sessão abordamos questões e temas sociais e políticos e referências histórico-culturais. O diálogo é rico, avança por territórios nem sempre mapeados e desafia a reflexão crítica.
A dado momento, deparamo-nos com o conceito de desobediência civil. Pergunto ao grupo «em que condições seria, ao dia de hoje, legítimo desobedecer?»
Responde Ana Maria – «Os autoritários começam sempre por sonegar o conhecimento, porque sabem que conhecimento é poder, e para um exercício pleno do autoritarismo é necessário retirá-lo das mãos dos cidadãos. Por isso, iria procurar ler todos os livros proibidos e censurados, para resgatar esse conhecimento.»
E, como se a clareza incisiva desta afirmação não fosse suficientemente desconcertante, acrescenta:
«É preciso cultivar o saber, é preciso cultivar o conhecimento, para compreender o que se passa no mundo. Se não sabes o que está mal, como vais saber o que tens de fazer para mudar?»
Penso muitas vezes nesta interação com a Ana Maria, e no espírito profundamente rebelde que animou a sua reflexão.
Penso, no momento em que escrevo, que Marjane também aprovaria.
«Se não sabes o que está mal, como vais saber o que tens de fazer para mudar?»
Marjane, que sabia o que estava mal. Que nem sempre sabia muito bem o que fazer para mudar, mas sabia da importância de continuar a lutar. A resistir. A acreditar.
Marjane, que deixou para trás o seu Irão natal e nos legou um retrato tão vívido de como, por vezes, depois do mau, vem ainda pior.
Marjane, que nos mostra, vinheta a vinheta, como podemos amar fervorosamente o nosso povo e a nossa cultura, ainda que repudiemos visceralmente os nossos líderes.
É um legado poderoso, o poder de ver.
Para dentro de um país, de uma sociedade, de uma família, de uma jovem mulher. Alguns livros têm este poder extraordinário de nos colocar a ver pelos olhos de outrem.
É algures neste espaço, em que nos vemos ligados – pelas estórias – a outros tempos, lugares e vozes, que se joga o campo da memória.
É um legado poderoso, o poder de ver.
Marjane Satrapi não nos deixou, afinal.
Regressará ao Irão connosco de todas as vezes que mergulharmos nas páginas de Persépolis.
Sempre ali – tão presente – terna e vulnerável, indómita e rebelde.
Para mim, para a Ana Maria, para todos, para sempre.
Raquel Costa
Autora/ilustradora.
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