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O Estádio da Nação

O Estádio da Nação

Falar do estado da nação é, também, falar da nação do Estado. Quando falamos sobre o estado da nação referimos, por exemplo, a falta de água nas torneiras em Almada. Este é um facto demonstrativo do estado da nação. Quando falo sobre a nação do Estado refiro, por exemplo, o tanque que é piscina e a piscina que é tanque num terreno de um polícia que, no momento, é ministro, mas que fez a piscina que é tanque e o tanque que é piscina, quando era polícia, não quando é ministro. Este são dois exemplos, entre centenas de outros, que representam a diferença entre o que é objecto do estado da nação e o que é objecto da nação do Estado.

O estado da nação representa o estado em que nos encontramos todos e todas (inclusive os que pertencem à nação do Estado). Por outro lado a nação do Estado representa a situação em que se encontram os que nós elegemos para nos representarem, assim como os que os nossos representes nomeiam para executar, coordenar e outras funções do vasto universo administrativo.

Quando falo sobre a nação do Estado refiro, por exemplo, o tanque que é piscina e a piscina que é tanque num terreno de um polícia que, no momento, é ministro, mas que fez a piscina que é tanque e o tanque que é piscina, quando era polícia, não quando é ministro.

É assim que o estado da nação assenta numa dialéctica ternária (tese, antítese e síntese, ou direitos, obrigações e negócios, ou trabalho, bife e faca para o cortar, etc), enquanto a nação do Estado assenta numa dialéctica binária (x e z, piscina e tanque, polícia e ministro, empreiteiro e PJ, etc).

A música de Sun Ra é um bom exemplo do objecto do estado da nação. Sun Ra (Herman Poole Blount) nasceu em 1914, no Alabama, EUA e no Alabama morreu em 1993. Compositor, músico de jazz, pianista, poeta, filósofo mensageiro de uma «filosofia cósmica» com origem em Saturno, a música de Sun Ra assenta como uma luva na descrição do precário estado da nação portuguesa. Vamos ver e ouvir Sun Ra:

Mas se, como simples cidadãos comuns, podemos fazer uma leitura sobre o estado da nação (destruição do SNS, destruição da Educação Pública, ataques sistemáticos a direitos, liberdades e garantias), a coisa complica-se quando pretendemos efectuar uma leitura à nação do Estado, mesmo que sejamos filósofos cósmicos saturnianos como o Sun Ra. Isto porque na nação do Estado o princípio aplicável é o daquela velha máxima transmontana que reza assim: para lá do Marão, mandam os que lá estão.

Por muito que a Constituição da República diga que não, os cidadãos que constituem a nação do Estado (embora sejam como todos nós, cidadãos responsáveis pelo estado da nação) vivem numa realidade virtual onde predominam as cores mais raras e aberrantes do arco-íris. É assim que a economia nacional está mais robusta do que nunca, o actual Executivo é o mais reformista de todos os tempos e do mundo inteiro e arredores, e outros contos, novelas e antologias. Sun Ra não serve para compreender esta esfera da ecologia. Para isso temos de usar Boris Vian:

O Estádio da Nação não é mais do que o descrédito criado no estado da nação pela nação do Estado.

Munidos destas duas importantes ferramentas (as obras de Sun Ra e de Boris Vian) podemos então chegar ao cruzamento das dinâmicas do estado da nação e da nação do Estado: o Estádio da Nação. Neste ponto do limbo, onde as quinas do brasão se perdem pelas esquinas da História, onde a noção de polícia-ministro, de empreiteiro de tanques, piscinas e atrelados, ou de exames digitalizados versus mandar às favas a Educação como igualdade, direito, liberdade, sociabilidade ou perpetuar o proprietariado nas cidades e o proletariado nos subúrbios (lei dos despejos, do arrendamento, das burcas, etc), neste ponto do limbo, escrevia eu, acontece Cabaret Voltaire:

O Estádio da Nação não é mais do que o descrédito criado no estado da nação pela nação do Estado. É como a Arendtiana banalidade do mal. Nada melhor para o impedir do que Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos:

Continuação de boas férias para os que nelas estão.

Rui Peralta

Rui Peralta

Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.

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