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02.09.2026 Osvaldo Alvarenga Política Sociedade Artigo

No fim da história, o recomeço

No fim da história, o recomeço

Não há motivo para pânico. É assim que as coisas sempre acontecem. A guerra é quando a história recomeça. A paz é quando as artes da memória prevalecem.
Régis Debray, Le Figaro, 9 de março de 2022


No verão de 1988, aos 24 anos, eu fazia um périplo pela Europa. Viajava de carona de um país a outro, vivia de pequenos trabalhos, da boa vontade das pessoas e dos últimos cem dólares do socorro que a mãe havia me mandado. Foi assim, de uma improvável amizade entre o lavador de para-brisas num semáforo em Roma e a dona de um Fiat, que fui parar em Estugarda. Não vou entrar em detalhes. Importa, nessa história, que na Alemanha, ainda dividida e na fronteira entre duas ideologias, do lado ocidental, havia euforia com Gorbatchov e seu programa de reestruturação do Estado iniciado dois anos antes: perestroika. Entre a moçada com quem convivi naquelas semanas, Gorbi era também metonímia para vodka. Qualquer vodka. Por causa do marketing de uma vodka local, Wodka Gorbatschow, mas sobretudo em homenagem ao homem que estava distensionando as relações com o Ocidente. Saber, ninguém sabia, mas de alguma forma intuímos: algo grande e bom estava para acontecer.

No verão de 1988, no lado ocidental da Alemanha, havia euforia com Gorbatchov e seu programa de reestruturação do Estado iniciado dois anos antes: perestroika.

Intuiu também o filósofo e economista Francis Fukuyama. No verão de 1989, ele publicou o ensaio O fim da história?, na revista The National Interest, pouco antes da queda do Muro de Berlim. O texto causou controvérsia e, com a dissolução da União Soviética em 1991, foi ampliado e transformado em livro, publicado em 1992. Partindo da premissa de que o século XX foi o campo de batalha entre ideologias rivais – liberalismo, marxismo e fascismo –, sustentava que a democracia liberal se tornara o provável ponto final da evolução ideológica humana: o «fim da história». Ideia que hoje nos parece uma miragem e que, na época, gerou incompreensão e muita polêmica. Interessa-nos aqui a parte final do livro.

Logo nos primeiros parágrafos da Parte V, Fukuyama cita o filósofo Jean-François Revel 1 para observar que a maior fraqueza da democracia está na sua incapacidade de se defender de «tiranias determinadas e impiedosas», e que, mesmo vitoriosa, não há garantias de que, num futuro próximo, a democracia liberal não tenha que enfrentar novas ameaças à sua existência: «o desemprego, a poluição, as drogas, o crime e outros» e, quem sabe, diz ele, outras fontes mais profundas de insatisfação no seu interior; se a vida aí não for realmente satisfatória.

E admitindo que o liberalismo prevaleceu, ecoa Hegel 2 através de Alexandre Kojève 3, para propor o «fim da história»: o ponto em que a democracia liberal seria o regime político final. Altura em que já não haveria alternativa plausível superior a ela; para Fukuyama, um Estado em que, embora persistissem as desigualdades culturais e econômicas – frequentemente ampliadas pelo capitalismo –, todos compartilhariam direitos e dignidade política iguais. A diversidade cultural, religiosa e étnica seguiria existindo e a convivência passaria a ser estruturada pela tolerância e respeito à pluralidade, em um regime multicultural. Um sistema capaz de satisfazer a razão e a luta por reconhecimento e que havia provado ser o mais eficaz na promoção da inovação tecnológica e na criação de riqueza. Porém, na sombra do triunfo, o nascimento do «último homem» inquietava o autor; inquietação que, até cinco ou dez anos atrás, foi subestimada.

Inspirado em Nietzsche 4, o último homem é aquele que vive em paz e segurança. É nostálgico, porque vive sem grandes causas. Já não precisa lutar por liberdade nem por justiça. Segundo Fukuyama, quando a thymos – o impulso humano pelo reconhecimento, ímpeto por dignidade, prestígio e respeito – não encontra canal construtivo, ela se recalca ou se desvia. O tédio substitui o heroísmo. No vazio deixado pela ausência de propósito, esse homem busca reconhecimento no consumo, no entretenimento e nas pequenas glórias ordinárias. No fim da história, em vez de cidadãos, formam-se consumidores satisfeitos – e negligentes.

Nesse mundo pós-história, sem grandes contradições ou divergências, em que a tecnocracia institucional supera a política na condução do Estado, esse último homem, ausente da vida pública, carente de uma identidade social em que se reconheça, ávido por propósito e distinção, cria novos conflitos étnicos, nacionalistas, religiosos, identitários… É quando surgem os líderes autoritários que prometem restaurar o vigor, a ordem, a pátria e o sentido de pertencimento, ainda que à custa das liberdades. Vencido pelas emoções, rendido aos discursos agressivos e às soluções simplistas, sequestrado por teorias conspiratórias, atrofiado no pensamento autônomo e avesso ao divergente, esse homem menospreza o Estado de direito e, inconsequente, contribui para a sua erosão.

Vencida a batalha ideológica do século XX, as democracias liberais, com as suas contradições e tolerâncias, produziram as condições para a sua própria crise. Nossas instituições políticas falharam com aqueles que se sentem deixados para trás e receiam o futuro.

Vencida a batalha ideológica do século XX, as democracias liberais, com as suas contradições e tolerâncias, produziram as condições para a sua própria crise. Nossas instituições políticas falharam com aqueles que se sentem deixados para trás e receiam o futuro. Esse último homem – que, afinal, somos nós, ou quase todos nós –, reage a temores e necessidades que lhe são reais, mas a resposta política que encontra é insuficiente ou destrutiva. Trinta anos depois, parece, mais uma vez, sou testemunha de uma reviravolta global. Lembro-me da euforia que sentia nos anos oitenta e penso no desapontamento que sinto hoje: eu também temo o futuro, mas não cultuo o passado. Temo pelas instituições democráticas, pelo direito das minorias, pelo meio ambiente, pelas liberdades. Avançamos tanto no desenvolvimento humano e nos direitos civis, mas falhamos como sociedade.

Depois do fim da história, sem pânico nem nostalgia, tateio mais um recomeço.


Notas

1 – Jean-François Revel (1924–2006), filósofo, jornalista e membro da Academia Francesa. Em Como acabam as democracias (1984), argumenta que a democracia pode ser vítima de sua própria tolerância frente a inimigos implacáveis. À época, referia-se ao regime soviético e à intelectualidade de esquerda ocidental, que faziam vista grossa para os crimes da URSS. Revel sustentava que as democracias tendem a se enfraquecer pela autocrítica excessiva e pela ingenuidade diante de adversários que usam suas próprias liberdades – como a de imprensa e de associação – para subvertê-las e destruí-las por dentro.

2 – Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831), filósofo nascido em Stuttgart, no então Ducado de Württemberg, foi um dos principais nomes do idealismo alemão. Para ele, a história é o processo pelo qual a humanidade avança rumo à realização da liberdade. Segundo Kojève, Hegel teria vislumbrado a concretização desse processo após a Batalha de Jena, em 1806, ao observar Napoleão Bonaparte. A vitória napoleônica simbolizava o triunfo universal dos ideais da Revolução Francesa e a consolidação do Estado racional moderno. É nesse sentido que propôs a ideia de «fim da história»: o momento em que razão e liberdade se realizam plenamente na ordem política. Ao futuro restaria apenas a disseminação e consolidação desses princípios.

3 – Alexandre Kojève (1902–1968), filósofo russo naturalizado francês, foi um dos principais intérpretes de Hegel no século XX. Seus seminários sobre a Fenomenologia do Espírito, realizados em Paris na década de 1930, foram determinantes para a formação da intelectualidade francesa do pós-guerra. Kojève defendeu a ideia de que a História, entendida como busca por um sistema político racional fundado na liberdade e na igualdade, havia se encerrado conceitualmente com a Revolução Francesa.

4 – «O homem é uma corda esticada entre o animal e o Além-do-homem – uma corda sobre um abismo», falou Zaratustra diante do povo. Friedrich Nietzsche (1844-1900), em Assim Falou Zaratustra (1883), concebe os conceitos de der letzte Mensch, ou «último homem»: aquele que deseja apenas segurança, conforto e uma vida longa, estável e sem sofrimento; e seu contraste, o Übermensch, traduzido como Super-homem ou Além-do-homem. A interpretação deste último é menos consensual. Para a professora Scarlett Marton, a maior autoridade em Nietzsche no Brasil, o filósofo não fala de um homem superior, verticalmente acima dos outros, mas de uma transição horizontal: a superação da condição de «último homem», marcada pela autenticidade, pela disposição ao risco, pela intensidade e pela criação.

Osvaldo Alvarenga

Escritor

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