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«Não é não» é sim. Também à corrupção?
Indivíduos que se intitulam jornalistas e comentadores próximos da AD passam horas nos media a ajudar a engordar a fábula de que o deputado Ventura e o seu partido Chega têm por bandeira o combate à corrupção.
O tema rende manchetes e, por isso, renderá votos, calculam uns e outros, inebriados no élan demagogo de explorar a frustração e ressentimento dos muitos que, cada vez mais, veem a vida a andar para trás, enquanto vão percebendo que uns poucos, sem escrúpulos, enriquecem inexplicavelmente, à conta de esquemas e dos erários públicos, nacional e europeu.
Servindo para vender a fábula, as «causas» chegosas, espremidas, nunca dão em nada. Nada que ajude realmente a acabar com a impunidade de corrompidos e corruptores e a refrear a corrupção.
Servindo para vender a fábula, as «causas» chegosas, espremidas, nunca dão em nada.
Os grandes «casos» de Ventura têm sido:
A «roubalheira» no RSI (alegação que já vinha do CDS de Paulo Portas e que não tem fundamento, segundo demonstram números da Segurança Social) de que seriam principais beneficiários ciganos e imigrantes criminosos (o que não é verdade e é racista);
A corrupção do ex-PM Sócrates (que fascinou Ventura, admitiu o próprio), que começou a ser denunciada e investigada muito antes de haver Chega, e em que os corruptores, máxime o «dono de tudo isto» Ricardo Salgado, nunca interessaram a chegosos («et pour cause…»);
O caso das gémeas, que deu CPI e em nada deu…
Ah, e a exigência de uma lei que permita o confisco de bens suspeitos de provirem da corrupção - passando por cima de que tal lei já existe na ordem jurídica nacional e europeia (sobre a perda alargada por branqueamento de capitais), mas o que importa é que os tribunais a apliquem como deve ser e que o Estado (IGFEJ) não deixe depois dissipar-se o património, vendendo-o ao desbarato…
Mas, com o imperativo de se fazerem reformas na Justiça, o Chega tem o cuidado de não se meter: é como nas polícias, investiu antes na infiltração… em especial no MP, como se vai vendo. Pois não foi o partido que nasceu com o destro fórceps da Justiça (e logo do Tribunal Constitucional!), apesar de apresentar milhares de assinaturas falsas e um programa fascista e racista, violador da Constituição e propondo-se destruí-la e à própria República? O mesmo Tribunal que tem pacientemente instado o Chega a sucessivas adaptações programáticas e que não quer saber de como foi e é financiado este partido. Desfaçatez em que é coadjuvado por uma Entidade das Contas e Financiamento dos Partidos Políticos, que parece existir perversamente não para controlar e fiscalizar, mas para proteger os mais inconfessáveis financiadores deste e de outros partidos políticos.
Com o imperativo de se fazerem reformas na Justiça, o Chega tem o cuidado de não se meter: é como nas polícias, investiu antes na infiltração… em especial no MP, como se vai vendo.
Claro que o Tribunal Constitucional, que tudo tem tolerado ao Chega, se pode desculpar com dois PGR que, sucessivamente, nada também quiseram saber (o actual e a sua antecessora). E por operar num ecossistema em que instituições ditas reguladoras pouco ou nada regulam: do bucólico MENAC à desdentada ERC, que faculta a fétidos empresários ascenderem a patrões de grupos de media - basta citar o caso de Mário Ferreira que, sob publicitada investigação do DCIAP por fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, conseguiu guindar-se a accionista dominante do grupo Média Capital. Assim, que admira que o condenado contumaz César do Paço, um dos primeiros financiadores do Chega, que fez/faz fortuna a vender um pó branco importado da China que apresenta como «suplemento alimentar», tenha conseguido agora tornar-se investidor qualificado no Global Media Group, dono do Diário de Notícias?
A América elegeu como Presidente um narcisista maligno e corrupto, cuja família, amigos e patronos estão agora a fazer biliões em contratos públicos e os mais despudorados e malvados esquemas, incluindo arrasar Gaza para a transformar numa «riviera trumpiana».
Afinal, não é esse mesmo o exemplo que vem hoje da América, que elegeu como Presidente um narcisista maligno e corrupto, cuja família, amigos e patronos estão agora a fazer biliões em contratos públicos e os mais despudorados e malvados esquemas, incluindo arrasar Gaza para a transformar numa «riviera trumpiana»? Os seus financiadores e patronos trataram antes de dominar os grupos de media para melhor se proteger e controlar agendas e narrativas: é só atentar na recente denúncia do jornalista Scott Palley, despedido do programa 60 Minutes, por recusar as ordens da direção da estação CBS para mudar o relato do assassinato de uma cidadã americana às mãos do famigerado ICE, conforme convinha ao poder. Um assassinato sob as ordens do entretanto demitido Greg Bovino, um criminoso que há dias veio abrilhantar um congresso internacional de nazis, idilicamente organizado por gente do Chega «y sus muchachos» do grupo supremacista Reconquista, na Figueira da Foz, que as autoridades portuguesas vão… apascentando. (Isto pode estar tudo ligado... mesmo para quem, como eu, não acredite em bruxas).
As narrativas mais propaladas por chegosos, como convém aos seus patrões, são as que instigam pobres contra pobres, explorados contra explorados, como as que debitam sobre o RSI e benefícios para imigrantes, que querem mandar embora.
Aqui em Portugal é tudo mais modesto e paroquial do que na América, na corrupção também. As narrativas mais propaladas por chegosos, como convém aos seus patrões, são as que instigam pobres contra pobres, explorados contra explorados, como as que debitam sobre o RSI e benefícios para imigrantes, que querem mandar embora. O Governo da AD, encabeçado pelo ex-advogado de casinos Luís Montenegro, deixa que cá se façam congressos internacionais de nazis, tal como passem aviões militares nas Lajes sem perguntar para quê ou perguntando depois, e vai assim ajudando a dar gás aos chegosos. Com um «não é não» que, afinal, dá em sim casamenteiro: como se viu nas leis da nacionalidade e da imigração, na actuação da AIMA. Como se vê, com a ministra/ cônjuge de banqueiro sob investigação judicial, a perder tempo a promover uma contra-reforma laboral punitiva, para vir agora a mata-cavalos, para evitar o escrutínio, fazer aprovar uma iníqua e castigadora PSU (prestação social única). E como se vê já também na matéria de fundo, em que Ventura e Chega querem assestar machadada fundamental - a revisão constitucional. O Governo da AD alinhará sempre: o «não é não» de Luís Montenegro acaba a dar em sim… ao Chega. E quantas vezes a correr atrás do Chega.
De reformas estruturais, muito se fala na AD. Mas nenhuma no sentido de assegurar progresso, justiça social, Estado eficaz e de bem, governação efectiva e desenvolvimento económico, social e ambiental para o país.
De reformas estruturais, muito se fala na AD. Mas nenhuma no sentido de assegurar progresso, justiça social, Estado eficaz e de bem, governação efectiva e desenvolvimento económico, social e ambiental para o país: incapaz, o governo insiste num modelo económico gasto, de baixo valor acrescentado e baixos salários.
Nenhuma reforma fiscal que assegure um mínimo de justiça fiscal para os portugueses: dos fundos imobiliários isentos, passando pelo SIFIDE a benefício exclusivo de actividades não concorrenciais, até à floresta de mais de 500 benefícios fiscais preservados na opacidade; da ausência de incentivos fiscais fortes, transparentes e direcionados especificamente, estrategicamente, a sectores da economia e do território. Que interessa isso ao «partido de oposição» Chega? Nada, tal como não interessa a PSD e CDS no poder (e como nem sequer interessou realmente ao PS, como se viu e também por isso aqui estamos…). Transferências de capitais para offshores deviam ser taxadas à cabeça, pelo escalão máximo das tabelas de rendimentos, mas o que se segue «é fartar, vilanagem»! E assim vão rifando o país… uma grande Madeira continental!
Mobilizadora para o Governo parece ser a sua «reforma» que acaba de dispensar o visto prévio do Tribunal de Contas - sem garantir meios para reforçar a indispensável fiscalização concomitante e subsequente: mais um fartar vilanagem, em estilo AD, em grande…
Zero quanto a reformas estruturais com que os partidos no governo deviam interpelar os portugueses - políticas de combate ao declínio demográfico, de combate ao despovoamento do interior, de retenção dos nossos jovens, de regulação nacional e internacional do impacto da tecnologia digital e da Inteligência Artificial no trabalho, na economia e na governação em geral. Zero. Nem o Papa, com a sua magnifica encíclica Magnifica Humanitas os comove, move ou demove.
Mobilizadora para o Governo parece ser a sua «reforma» que acaba de dispensar o visto prévio do Tribunal de Contas - sem garantir meios para reforçar a indispensável fiscalização concomitante e subsequente: mais um fartar vilanagem, em estilo AD, em grande…
E por isso também sentimos que se estão a produzir movimentos tectónicos, insidiosos, imparáveis, que ninguém cuida de explicar, escrutinar, ou tentar controlar.
Anunciam-se grandiosos investimentos - israelitas, americanos, chineses, etc - em centros de dados e alfobres tecnológicos e recursos minerais, em diversos pontos do país. Em troco de que benefícios fiscais, de que concessões urbanísticas e ambientais, de que gastos em água e energia?
Anunciam-se grandiosos investimentos - israelitas, americanos, chineses, etc - em centros de dados e alfobres tecnológicos e recursos minerais, em diversos pontos do país. Em troco de que benefícios fiscais, de que concessões urbanísticas e ambientais, de que gastos em água e energia? E a criar que postos de trabalho? Quem controla e trava a maléfica desumanidade que de tais investimentos possa também resultar? Que interessa isso à AD e ao Chega? Curiosamente, o Chega não pareceu nunca interessar-se pela investigação Influencer, que versa sobre um investimento num centro de dados que fez cair um governo socialista… E tudo indica que a PGR já prepara desfecho para as calendas, ou seja, para a costumada prescrição…
Anunciam-se bilionários investimentos na Defesa, nacional e europeia. Com o historial da AD - dos submarinos (em que houve na Alemanha condenados por corrupção em Portugal, mas cá não - o actual PGR, então DCIAP, tratou de mandar arquivar o caso), à rede de corrupção deixada pelo CDS-PP durante décadas infiltrada no Ministério da Defesa, como foi exposto pela Operação Tempestade Perfeita em 2022 (e que lhes aconteceu, a corruptores e corrompidos?). Quem decide, que interesses estratégicos devem esses investimentos na Defesa servir, que política de compras, que política de construção de equipamentos e capacidades? Em cooperação com parceiros europeus ou a ir gastar em supermercados de armamentos na América infiável, trumpalhona? Quem quer saber? Quem discute? Quem traz o debate para o público para a AR? Quem escrutina? Quem controla? Quem fiscaliza? Que interessa ao Chega e à AD no poder?
Se o combate contra a corrupção fosse a sério, a primeira barreira devia ser a transparência. Mas, pelo contrário, Governo, Presidente da AR e Chega usam hoje tudo contra a transparência. Até, cinicamente, a proteção de dados dos cidadãos lhes serve para impedir o escrutínio jornalístico.
Se o combate contra a corrupção fosse a sério, a primeira barreira devia ser a transparência. Mas, pelo contrário, Governo, Presidente da AR e Chega usam hoje tudo contra a transparência. Até, cinicamente, a proteção de dados dos cidadãos lhes serve para impedir o escrutínio jornalístico.
E o MP? Com este PGR (com preocupantes antecedentes, como já acima referi), que o seu amigo PM foi retirar do remanso da aposentação, nada vai mudar, a não ser para pior. Basta ver o frete que fez para impedir a investigação e escrutínio público da Spinumviva! Uma empresa através da qual o PM facturava a um grupo de casinos, que aceita apostas pagas em criptomoedas - modalidade muito usual para organizar o branqueamento de capitais por qualquer mafia! E cuja concessão de licença para o jogo, entretanto, o governo deste mesmo PM tratou de renovar… com nenhuma fiscalização. Se havia concessão pública que devia ser transparente e minuciosamente escrutinada era esta, tanto mais que a ligação profissional ao mundo dos casinos foi ocultada pelo PM ao parlamento, até que foi com ela confrontado. E ainda tentou dizer que eram só antigas amizades da terra de origem… Num universo que, com recurso, atrás de recurso, trata de tentar manter enevoado, nas anteriores e actuais derivações. Pois, com a Spinumviva bem viva e passada à descendência, o que também importa é saber quem são os actuais clientes da empresa e por que serviços pagam e quanto e como pagam. Mas disso não quer cuidar o PGR. Nem o Chega…
Com este PGR (com preocupantes antecedentes, como já acima referi), que o seu amigo PM foi retirar do remanso da aposentação, nada vai mudar, a não ser para pior.
Nesta fase, o MP parece prestar-se a instrumentalização político-partidária, já nem cuida de disfarçar: ao PS foram 400 inspectores (e não sei quantas câmaras de televisão) no dia 28 de Maio, com grande estardalhaço, a propósito de suspeitas de ajustes directos ilegais de autarcas e assessores (operação Imergente), por uma lesão dos interesses do Estado estimada em cerca de 2 milhões de euros. Já uma operação de buscas realizada dias depois, a 2 de Junho, na Câmara de Cascais (PSD), sobre suspeitas de corrupção em contratos de obras públicas realizados entre 2018 e 2021, num pelouro em que pontificava o actual ministro das Infraestruturas (o tal que vendeu a TAP num governo de gestão e agora volta a estar a vender a TAP…), , tudo foi feito e é guardado com impressionante recato... Tanto que só dias depois alguns media souberam e noticiaram. Sem detalhes, apesar de já terem sido feitas buscas em 2024 e em 2025 sobre os mesmos contratos: o zelo sigiloso impressiona!
Há dois dias, o jornal Público deu a estampa o caso de um amigo do PM, frequentemente apresentado como guru do governo para as políticas de saúde (que bem desastrosas e incompetentes se revelam). Ora, segundo o jornal, o tal amigo, ex-presidente do Infarmed e ex-Secretário de Estado de Passos Coelho, através da sua empresa Wise Health Solutions tratou de facultar acesso ao mercado da cannabis medicinal a um notório e condenado elemento da mafia brasileira PCC, distinguida nos circuitos internacionais do tráfico de droga e branqueamento de capitais…
Isto de amigos do PM, dos casinos à saúde, parece fiar fino. Só o PGR não está aí para ver. Ah, e o Chega! Não foi o deputado Ventura que ameaçou com uma CPI à Spinumviva? Viram-na?
A autora escreve sem usar o Acordo Ortográfico.
Ana Gomes
Embaixadora aposentada e ex-membro do Parlamento Europeu.
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Escravatura no espaço atlântico
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