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Francisco Ferreira e a «febre» dos centros de dados: «Estou moderadamente preocupado»
Esta não é apenas uma entrevista — é uma oportunidade única; para mergulhar no pensamento de um dos maiores especialistas ambientais do país.
Se esta entrevista tivesse sido escrita ou revista por Inteligência Artificial, este seria o tipo de citações mais provável de encontrar.
A febre da Inteligência Artificial generativa - e, por extensão, dos centros de dados - já está longe dos seus primeiros êxitos e já é uma revolucionária realidade, uma daquelas que enche estádios (e seca ribeiros). Os grandes movimentos de adoração fazem-se em tímida surdina e colidem com a ruidosa mobilização de rejeição local, progresso ilimitado em colisão com os finitos recursos de um planeta em ebulição.
Este é um dos temas mais quentes na esfera da mobilização ecologista; quase tão quente como as ondas de calor que Portugal atravessa (e continuará a atravessar). Francisco Ferreira, eficiente nas palavras e na energia, conta-nos o seu otimismo cauteloso e sublinha: a adaptação a um clima em mudança é o maior desafio que enfrentamos, nesta e nas próximas gerações.
À margem da sessão «Crise climática: Como transformar em oportunidade?», organizada pelo LIVRE Setúbal, o investigador e professor na área ambiental conversa com o Progressistas sobre como lidar com os sintomas febris da inovação, a adaptação climática para as próximas décadas ou os perigos nas esquinas dobradas de uma revisão à Constituição.
Afinal, não são todos os dias que encontramos um especialista em qualidade do ar. É natural que a primeira pergunta seja um pouco aérea.
O Francisco é investigador na área da qualidade do ar. Como é que classifica, neste momento, a qualidade do ar do Parlamento para as políticas ambientais? Já se respirou melhor?
Eu acho que, neste momento, o ar está realmente a precisar de alguma renovação. Já se respirou melhor. Aliás, uma das coisas que eu noto é que o Parlamento, há dez anos, era um Parlamento onde as pessoas tinham ideias diferentes mas conversavam, construíam - ou tentavam construir - e foi através disso que conseguimos, por exemplo, a Lei de Bases do Clima.
Eu acho que, neste momento, muitas das decisões que na altura foram tomadas seriam muito mais complicadas. Aquilo que era fundamental, que é olhar para o futuro e para o longo prazo, para os grandes desafios que eu tenho em Portugal e à escala planetária, e construir soluções de consenso, está neste momento praticamente impossível.
Haverá uma tentação muito grande para que valores garantidos na Constituição, em termos de qualidade de vida e de ambiente, possam ser postos em causa.
Ainda bem que falou na Lei de Bases do Clima, à qual tentaram fazer alterações muito recentemente. E provavelmente teremos por aí também uma revisão constitucional.
Esse tem sido um tema.
Sente algum receio de que possam mexer, por exemplo, no famoso artigo 66.º, do Ambiente e da Qualidade de Vida, sobretudo ali naquela alínea que fala da política fiscal? Há uma ameaça ao ambiente na Constituição?
Eu acho que pode haver. Tem-se falado na mexida da Constituição, não tanto por razões ambientais, mas é evidente que há vários aspetos que nos foram garantidos pela Constituição e pela Lei de Bases do Ambiente de 1987 que poderão estar obviamente em causa. E, quando se abre uma caixa de Pandora, os resultados podem ser realmente imprevisíveis.
Felizmente, na Lei de Bases do Clima essa caixa de Pandora não se abriu e, portanto, os elementos essenciais estão todos lá; aliás, não foram abertos, ponto final. Neste momento, o que se perspectiva é, no Conselho para a Ação Climática, haver finalmente um desbloqueio para ele começar a funcionar, mesmo sem a igualdade de género, que era o aspecto de bloqueio existente.
Mas na Constituição, sem dúvida que haverá uma tentação muito grande para determinados valores assegurados e garantidos na Constituição, nomeadamente em termos de qualidade de vida e de ambiente, possam ser postos em causa. Temos esse receio.
Estamos todos entusiasmadíssimos com os centros de dados. Eu já assisti ao mesmo em relação ao hidrogénio ou à captura de carbono. Depois a onda chega lá acima e modera-se, porque nós percebemos os custos.
Tem-se falado também muito do crescimento dos centros de dados. Há muitos países que já têm tido uma grande contestação aos centros de dados, à inteligência artificial e aos custos ambientais que estão associados. Esta contestação pode ser uma nova vaga de mobilização no movimento climático, que ficou ali um bocadinho perdido em 2019?
A questão dos centros de dados é uma questão muito mais profunda do que, à partida, podemos pensar. A inteligência artificial, em termos das necessidades de trabalho, numa sociedade que tem de se repensar e reorganizar com a inteligência artificial, para além da infraestrutura que são os próprios centros de dados.
E aí tenho de ir com conta, peso e medida. Posso ter realmente uma ou outra oportunidade, com o máximo de cuidados em termos do uso da água, dos equipamentos utilizados, da localização dos centros de dados ou de onde é que vou buscar a energia. E também da interferência das necessidades energéticas dos centros de dados com o preço da eletricidade, que tem sido uma contestação grande nos Estados Unidos, porque os centros de dados levaram a um aumento global do preço da eletricidade no país.
Acho que esse é realmente um tema que eu não devia fechar nas questões ambientais. Eu, como professor, lido com aquilo que é a utilização da inteligência artificial pelos alunos no dia-a-dia...
Quantos litros de água acha que os seus alunos já gastaram para a escrita de trabalhos?
[ri-se] Muitos, muitos, muitos, sem dúvida.
Mas a questão aqui é que eu tenho aspectos positivos também na inteligência artificial. Tenho muitos dados ambientais que foi à custa da inteligência artificial que percebi relações e trajetórias. Eu acho que estamos um bocado num hype [uma moda; uma febre] dos centros de dados. Ou seja, estamos todos entusiasmadíssimos com os centros de dados. Eu já assisti ao mesmo em relação ao hidrogénio, já assisti ao mesmo em relação à captura e armazenamento de carbono. Depois a onda chega lá acima e modera-se, porque nós percebemos os custos. Percebemos os custos de todos os pontos de vista e acabamos por encontrar algo mais equilibrado. Entretanto, a tecnologia também evolui. A própria sociedade repensa o que tem sentido em termos da própria utilização da inteligência artificial.
No caso de Portugal, eu estou moderadamente preocupado com os centros de dados, porque os custos associados são enormes, desde linhas eléctricas a parques solares, a armazenamento, a tudo e mais alguma coisa. E, portanto, é inviável pensarmos nesse crescimento brutal.
E até porque, por essa lógica, a maioria dos países europeus tem esta óptica, também usando o termo inglês, de NIMBY, “ninguém os quer no seu quintal”.
Mas nós também o temos. Estamos aqui sempre com um certo atraso, mas acabamos por ter, e bem. E, portanto, acho que vamos exigir esse equilíbrio. É mais uma luta a travar. Acho que aquele provérbio do «no meio é que está a virtude» deve-se aplicar em muitas destas situações. Não devemos dizer um «não». O NIMBY, em muitos casos, é exagerado, mas tem as suas razões de ser.
Acabou-se a preocupação apenas com o inverno. [Na eficiência energética], vamos ter de nos preocupar também com o calor.
Estamos a passar por uma onda de calor, não será certamente a última. Qual é a sua melhor dica para nos prevenirmos numa onda de calor?
Nós precisamos de nos adaptar a um clima em mudança. Não pode haver dúvidas sobre isso. Há aqui um papel fundamental das autarquias e em nossas casas. É fundamental fazermos os investimentos certos. E esses investimentos deviam ser, aliás, apoiados pelo Estado. Temos 2 milhões de pessoas em Portugal em pobreza energética. Precisamos de garantir que os edifícios, a eletricidade e os equipamentos estão preparados para lidar com o frio e com o calor.
Pensamos sempre muito na eficiência energética para o frio, mas não tanto para o calor.
Não, não, não. Acabou-se a preocupação apenas com o inverno. Vamos ter de nos preocupar com as duas coisas. E, portanto, a pobreza energética já reflete estes dois impactos. Se calhar, as pessoas de classe média ou alta com algum rendimento vão instalar ar condicionados, vão instalar janelas mais eficientes, algum isolamento em casa. Quem não tem dinheiro para o fazer vai estar num risco muitíssimo maior e numa desigualdade maior.
É aqui que, por exemplo, o Fundo Social para o Clima, que é uma das coisas que está a ser prevista, deve dar essa resposta. Nós temos falhado. O Fundo Ambiental falhou com os vales de eficiência e tem falhado a lidar com a pobreza energética, a própria ministra reconheceu isso. É preciso perceber como garantimos que a adaptação climática reflete os investimentos naqueles que são os que têm menos possibilidades de reagir.
O Fundo Ambiental falhou com os vales de eficiência e tem falhado a lidar com a pobreza energética, a própria ministra reconheceu isso.
Qual é a ideia mais progressista para tornar a crise climática numa oportunidade?
Para mim, é pensar como é que consigo viver feliz consumindo menos. Esse é o maior desafio que se aplica a uma pessoa, a uma empresa, a uma autarquia, a um país. Como é que eu consigo ter qualidade de vida e bem-estar com menos energia e com menos consumo? Essa é uma mudança de paradigma que é o verdadeiro desafio da sociedade, mas que é a ideia mais progressista que podemos ter.
Acha que vamos conseguir?
Vai ser muito complicado. Mas é possível. Eu acho que é a única forma de nós salvaguardarmos o planeta com muitas pessoas que têm poucos meios continuarem a viver nesse planeta. Se não, essas vão ser excluídas cada vez mais.
Esta entrevista foi pensada e feita sem a utilização de qualquer ferramenta de Inteligência Artificial. Já a sua transcrição, nem tanto.
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