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Eleições nos EUA: O projeto autocrático falhou

Eleições nos EUA: O projeto autocrático falhou

Donald Trump pensou que o seu regresso à Casa Branca, garantido há dois anos, lhe teria dado poder suficiente para transformar os Estados Unidos numa espécie de autocracia com eleições de dois em dois anos. O blunami democrata das intercalares provou que estava completamente enganado.

Durante uma década (2016-2026), Trump mandou no Partido Republicano e manietou quase tudo na política americana. Essa década trumpista finou-se com a estrondosa derrota republicana de 3 de novembro passado. O que acontecer até à saída de Trump da Casa Branca já pouco terá a ver com os pressupostos que levaram tantos milhões de americanos a acreditarem no logro que seria uma possível promessa do regresso de Donald ao poder.

Sim, apesar do desgaste, da erosão e dos ataques institucionais, a Democracia na América resiste. Apesar de tudo, ainda é mais fácil mudar de «regime» no Texas do que em Teerão. O «MAGA» acabou enquanto o conhecemos na última década. Trump continuará Presidente mais dois anos, mas tenderá a ser um super lame duck, uma irrelevância política, por muito que barafuste.

Peter Wehner, na The Atlantic, tinha posto o dedo na ferida, horas antes do ato eleitoral, ao antecipar que «o naufrágio do MAGA» estaria para chegar: «A crueldade e a falta de nível geram tração, mas até isso tem limites». Na noite das intercalares, de forma esmagadora, o eleitorado norte-americano disse que estava farto do estilo mentiroso, bully e errático do pior Presidente que os EUA tiveram em várias décadas.

A Democracia prevaleceu e o projeto autocrático, corporizado por Trump e incitado por forças que dominam o grande dinheiro das big tech e modelos de fronteira da IA, com a influência do Kremlin na sombra (pela desinformação e não só), morreu a 3 de novembro. Milhões de latinos, de homens jovens, de mulheres suburbanas, de votantes classe média e classe baixa foram às urnas dizer a Trump que estão fartos do estilo cansativo, enganador, colado ao espetáculo, mas sem qualquer entrega de resultados do ainda Presidente dos EUA. E que estão profundamente preocupados com a corrupção crescente e descarada que provém do topo desta Administração.

Peter Wehner, na The Atlantic, tinha posto o dedo na ferida, horas antes do ato eleitoral, ao antecipar que «o naufrágio do MAGA» estaria para chegar: «A crueldade e a falta de nível geram tração, mas até isso tem limites». Na noite das intercalares, de forma esmagadora, o eleitorado norte-americano disse que estava farto do estilo mentiroso, bully e errático do pior Presidente que os EUA tiveram em várias décadas.

As migrações de votos foram impressionantes. Os democratas ganharam o voto jovem (18-29 anos) por 41 pontos percentuais (afinal, os jovens não estão em massa com Trump como parecia em 2024), o voto masculino por +3, o voto feminino por +24, o voto negro por +83, o voto latino por +39, o voto asiático por +40. Ganharam em todos os níveis de escolaridade. Só perderam o voto branco, mas por pouco (4 pontos percentuais).

Os republicanos perderam em todo o lado: nos latinos, nos católicos, nos condados rurais. Como? Voltemos a Wehner e aos limites da tração que a crueldade gera. Lembrem-se do anúncio miserável de Vivek Ramaswamy contra Amy Acton, que acabaria primeira mulher eleita governadora do Ohio: violada quando jovem pelo padrasto, abandonada pela mãe que escolheu ficar com o marido violador da filha, Acton viu a mãe a fazer anúncio pelo rival. O eleitorado rural e conservador do Ohio não gostou. Sim, até a crueldade tem limites.

Bem dizia Donald Trump, dias antes das eleições, que os eleitores deviam imaginar que ele estava no boletim de voto. Foi o que fizeram: penalizaram fortemente o Presidente, dando sequência eleitoral aos valores de aprovação presidencial mínimos com Trump 2.0. Derrotas republicanas no Kansas, Carolina do Sul, Texas, Iowa, Ohio, Carolina do Norte? Sim, aconteceu. E só aconteceu porque esta presidência tem sido um desastre político, um disparate económico e um erro moral.

Lembrem-se do anúncio miserável de Vivek Ramaswamy contra Amy Acton, que acabaria primeira mulher eleita governadora do Ohio: violada quando jovem pelo padrasto, abandonada pela mãe que escolheu ficar com o marido violador da filha, Acton viu a mãe a fazer anúncio pelo rival. O eleitorado rural e conservador do Ohio não gostou. Sim, até a crueldade tem limites.

Donald Trump tentou destruir a Democracia norte-americana mas, felizmente, falhou. Após anos de perdas eleitorais, o Partido Democrata recuperou o domínio do voto dos trabalhadores, que há uma década tinham trocado Hillary por Trump (ainda que, muitos deles, quatro anos depois, tivessem preferido Biden, mas depois, em 2024, voltassem a escolher Donald sobre Kamala).

Sim, apesar do desgaste, da erosão e dos ataques institucionais, a Democracia na América resiste. Apesar de tudo, ainda é mais fácil mudar de «regime» no Texas do que em Teerão. O «MAGA» acabou enquanto o conhecemos na última década. Trump continuará Presidente mais dois anos, mas tenderá a ser um super lame duck, uma irrelevância política, por muito que barafuste.

Restam os fiéis acríticos. Mas vários milhões de eleitores americanos que votaram Trump nas presidenciais de 2024 viraram para os democratas ou simplesmente não votaram. A guerra no Irão, o logro das promessas Trump-2024 perante a desastrada presidência até este meio de mandato, o custo de vida, a inflação, as tarifas, o receio pela IA e, em alguns condados muito republicanos, os data center. Trump aceitou a derrota (uma novidade) e desatou a atirar culpas. Voltou a mostrar que não tem dimensão para o cargo.

A Democracia americana ganhou uma centelha de esperança. Mas um Trump «super pato coxo», moribundo politicamente, instável mental e comportamentalmente e ainda com o poder presidencial, é uma conjugação perigosa.

Desde 1974, pós-Watergate, que os republicanos não tinham tamanha derrota numas midterm elections. Como serão os dois anos com larga maioria democrata no Capitólio e um Trump em fim de linha na Casa Branca? Só «Mr. Veto» a bloquear tudo? É um risco. Mas também é difícil imaginar um clima de concórdia institucional bipartidária. Para os mais distraídos ou para os que insistem em desvalorizar os efeitos da era Trump: esse tempo terminou com a ascensão à Presidência, por duas vezes, de alguém que promoveu o ataque ao Capitólio, insinua que vai concorrer a um terceiro mandato e recusou aceitar a derrota clara que teve em 2020.

Pena que tantos milhões de norte-americanos tenham demorado uma década a perceber isso. A Democracia americana ganhou uma centelha de esperança. Mas um Trump «super pato coxo», moribundo politicamente, instável mental e comportamentalmente e ainda com o poder presidencial, é uma conjugação perigosa.

Devemos temer o pior.

Germano Almeida

Germano Almeida

Especialista em Geopolítica

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