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Uma geração sem futuro ou um futuro em revolta

Uma geração sem futuro ou um futuro em revolta

Durante anos, ouvimos dizer que estudar era o caminho para uma vida melhor. Os nossos pais e avós repetiam-nos que tínhamos de estudar para conseguirmos aquilo que eles, muitas vezes, não conseguiram ter. E nós acreditamos. Crescemos com a ideia de que o esforço seria recompensado, de que uma licenciatura abriria portas e de que trabalhar seria suficiente para construir uma vida digna. Mas hoje, perante a realidade de tantos jovens, é impossível não perguntar: será que ainda vale a pena ter um curso superior quando nem isso parece garantir o mínimo para viver?

Como podemos falar de projetos de vida quando, para muitos, o maior objetivo do mês é conseguir pagar as contas e chegar ao fim sem ter de escolher entre comer, cuidar da saúde ou ter um teto?

Em Portugal, há uma geração que estuda, trabalha, faz sacrifícios e, ainda assim, continua sem saber se algum dia conseguirá comprar uma casa, pagar uma renda sem comprometer o salário inteiro ou ter a estabilidade suficiente para pensar no futuro. Como é possível pedir aos jovens que sejam independentes quando a independência virou luxo? Como podemos falar de projetos de vida quando, para muitos, o maior objetivo do mês é conseguir pagar as contas e chegar ao fim sem ter de escolher entre comer, cuidar da saúde ou ter um teto?

O problema não está na falta de ambição dos jovens, nem numa suposta falta de vontade de trabalhar. Está numa realidade que parece cada vez mais distante das promessas que nos fizeram. Não podemos continuar a repetir que o mérito é suficiente quando as condições de partida são tão diferentes e quando, mesmo com esforço e qualificação, há quem não consiga ter acesso ao básico. Trabalhar deveria permitir viver, não apenas sobreviver.

Quando a habitação deixa de ser um direito acessível e passa a ser um negócio que muitos não conseguem acompanhar, alguma coisa está profundamente errada.

E, perante tudo isto, ainda há quem olhe para uma geração que protesta e a acuse de ser egoísta, ingrata ou preguiçosa. Mas egoísmo é exigir paciência a quem já esperou demasiado? É pedir sacrifícios a quem passa a vida a fazê-los? Ou será que devíamos questionar uma sociedade em que ter uma casa se tornou um privilégio para tantos, enquanto para outros parece ser uma possibilidade quase garantida? Quando a habitação deixa de ser um direito acessível e passa a ser um negócio que muitos não conseguem acompanhar, alguma coisa está profundamente errada.

Também a política tem de ser chamada à responsabilidade. Não basta falar da importância dos jovens, elogiar o seu potencial ou pedir-lhes que acreditem no país. É preciso criar condições para que possam ficar nele, trabalhar com dignidade e construir uma vida sem viver permanentemente com medo do mês seguinte. A confiança não se pode exigir, tem de ser conquistada através de respostas concretas. E nenhum discurso sobre o futuro terá verdadeiro significado se a realidade continuar a afastar os jovens da possibilidade de o terem.

Protestar é uma forma de participação democrática, um direito que não deve ser confundido com uma ameaça apenas porque incomoda quem governa.

É neste contexto que os protestos ganham sentido. Quando as pessoas saem à rua para exigir melhores condições de vida, habitação acessível e respeito pelos seus direitos, não estão necessariamente a rejeitar a sociedade em que vivem. Muitas vezes, estão precisamente a exigir que ela cumpra o que promete. Protestar é uma forma de participação democrática, um direito que não deve ser confundido com uma ameaça apenas porque incomoda quem governa. Naturalmente, a revolta não justifica tudo. A destruição, os incêndios e a violência podem colocar outras pessoas em perigo e acabar por desviar a atenção dos problemas que deram origem à indignação. Mas também não podemos aceitar que os comportamentos de alguns sirvam de pretexto para ignorar as reivindicações de muitos. É possível condenar atos violentos e, ao mesmo tempo, reconhecer que existem razões legítimas para o descontentamento. Uma coisa não anula a outra.

Não quero um país onde a revolta seja a única linguagem que resta aos jovens. Quero um país onde não seja preciso chegar ao limite para ser ouvido.

O mesmo princípio deve orientar a atuação das forças policiais. Os agentes têm a responsabilidade de garantir a segurança e de intervir perante situações de perigo, mas essa responsabilidade deve ser acompanhada de proporcionalidade e respeito pelos direitos fundamentais. A autoridade não pode transformar-se em abuso, tal como a indignação não pode transformar-se em violência. Num Estado democrático, ninguém deve estar acima da lei, e ninguém deve ser privado dos seus direitos por exercer pacificamente a liberdade de protestar. E é aqui que penso nos meus avós. Penso numa geração que conheceu um país onde a liberdade não era um dado adquirido e em tudo aquilo que foi conquistado para que hoje pudéssemos falar, discordar e manifestar o nosso descontentamento sem medo.

Não quero um país onde a revolta seja a única linguagem que resta aos jovens. Quero um país onde não seja preciso chegar ao limite para ser ouvido. Onde estudar continue a fazer sentido, onde trabalhar permita viver e onde ter uma casa não seja um sonho adiado indefinidamente. Quero poder acreditar que o esforço vale a pena, não porque me prometeram que sim, mas porque vejo essa promessa concretizada na vida das pessoas.

Os jovens não estão a pedir uma vida perfeita. Estão a pedir a possibilidade de viver com dignidade.

Talvez a pergunta nunca tenha sido apenas se vale a pena ter uma licenciatura. Talvez a verdadeira pergunta seja esta: que futuro estamos a construir quando uma geração faz tudo aquilo que lhe ensinaram ser correto e, mesmo assim, continua sem conseguir garantir o essencial? Os jovens não estão a pedir uma vida perfeita. Estão a pedir a possibilidade de viver com dignidade. E isso não é egoísmo, ingratidão ou excesso de exigência. É o mínimo que se pode esperar de uma sociedade que continua a dizer que o futuro lhes pertence.

Será uma geração sem futuro ou uma geração que se revolta porque ainda acredita que o futuro pode ser diferente?

Foto de capa: Joana Pereira

Patrícia Algarvio

Patrícia Algarvio

Estudante de Comunicação e Relações Públicas. Integra a Juventude Socialista da Covilhã (Concelhia).

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