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A golpada
The Sting («A Golpada», como foi conhecido em Portugal) é um produto cinematográfico hollywoodesco, de meados da década de 70 do século passado (1973, para ser mais exacto), que foi um grande êxito de bilheteira («arrecadou» mais de 150 milhões de dólares nos EUA, nada mau para uma produção de 5 a 6 milhões) e que ficou conhecido por um tema musical, The Entertainer, de um compositor e pianista de ragtime do início do século XX, Scott Joplin.
O ragtime é uma forma de expressão musical da comunidade afro-americana e está estruturada num ritmo sincopado e em curtas frases melódicas que se desenvolvem sobre um baixo constante e omnipresente. Foi popular nos EUA, entre finais do século XIX e o primeiro quarto de século XX, sendo Scott Joplin, o primeiro afro-americano a compor óperas nos EUA, um dos seus expoentes.
A sua primeira ópera (A Guest of Honor) foi confiscada para pagamento de dívidas e foi com o instrumental Maple Leaf Rag que Scott Joplin se afirmou nos meios musicais dos EUA, embora de forma efémera. Se outro mérito não tivesse (e não estou a dizer que tem) o filme «A Golpada» deu a conhecer ao mundo este compositor, nascido no ano de 1868 no Texas e falecido em Nova York durante o ano de 1917.
A escolha desta temática do Ragtime e d' «A Golpada» prende-se (à semelhança dos pedaços melódicos, do baixo constante e da síncope) com diversas causas e múltiplos efeitos, iniciando com os recentes acontecimentos ocorridos em Ceuta. Primeiro, porque morreram perto de uma centena de pessoas, adicionando-se aos milhares e milhares de pessoas que migraram ao longo dos anos, através do Atlântico e do Mediterrâneo e que neles encontraram o seu túmulo.
Morreram perto de uma centena de pessoas, adicionando-se aos milhares e milhares de pessoas que migraram ao longo dos anos, através do Atlântico e do Mediterrâneo e que neles encontraram o seu túmulo.
Assistimos na última semana a uma convergência de ciclos concêntricos. Por um lado, as fronteiras pós-coloniais da Europa. Muitos foram os que se surpreenderam com o facto de Ceuta ou Melilla não estarem em Espanha, no território europeu, mas sim em Marrocos, no território africano. São cidades adjacentes às marroquinas de Tetuão e Nador, por sua vez próximas de Tânger, todas elas cidades de trânsito migrante, não só de Marrocos e do resto do continente africano, como também do Afeganistão, Síria, Líbano e Palestina.
A esta primeira convergência de factores associou-se o aumento da desigualdade na economia marroquina. A maioria dos que tentaram cruzar a fronteira eram marroquinos, algo que não era observado desde os anos 90 do século passado, durante a chamada Harraga, a travessia de marroquinos para a Europa. E este segundo factor passou despercebido a muitos dos analistas, mais preocupados na divulgação dos horóscopos geopolíticos e consequentes teorias da conspiração.
A repressão em Marrocos aumentou. O regime autoritário marroquino, perante a pressão social interna, intensificou as medidas de repressão, não só perante a questão sahariana, mas também pela forte agitação interna nos meios estudantis, como pelos movimentos da juventude, trabalhadora e desempregada.
Depois a repressão em Marrocos aumentou. O regime autoritário marroquino, perante a pressão social interna, intensificou as medidas de repressão, não só perante a questão sahariana, mas também pela forte agitação interna nos meios estudantis, como pelos movimentos da juventude, trabalhadora e desempregada.
Tudo isto associado às dinâmicas externas do actual cenário internacional, a começar pela UE, aos precipitados e incongruentes desejos e visões da direita europeia, das suas «percepções», juntando as visões apocalípticas da extrema-direita financiada pela Casa Branca e por quem quer financiar ao desbarato (a própria monarquia marroquina tem gosto nos seus financiamentos ao VOX, de forma discreta, e ao PP de modo mais institucional), aprimoraram o efeito de «golpada final» que foi tentada contra o governo espanhol, aproveitando a pressão migratória.
Uma coisa é certa nesta questão das «golpadas»: para se dar o golpe tem de haver golpistas e vítimas do golpe. E golpistas é o que há mais. Aliás a golpada tornou-se uma cultura oficial, dominante. É própria de gente de bem. Por exemplo, na passada quinta-feira, o governo português aprovou o decreto-lei que cria a PSU (Prestação Social Única), o que permite concentrar 13 prestações sociais num regime único. Até aqui tudo bem. O que fica menos bem é o valor-base da PSU: 268 € e mais uns cêntimos. Este é um valor que não permite garantir condições dignas e retirar pessoas da pobreza.
Este foi um golpito, uma técnica aprimorada pelo governo AD, especializada em golpadas com guiões que vão da novela ao romance, passando pela ficção científica e pelos contos policiais (o mistério do ministro) e de terror para crianças (como o recente comportamento do Ministério da Educação). Aliás, na Saúde, o golpe e a golpada tornaram-se diretrizes políticas e o desmantelamento do SNS marcha a todo o vapor.
Este foi um golpito, uma técnica aprimorada pelo governo AD, especializada em golpadas com guiões que vão da novela ao romance, passando pela ficção científica e pelos contos policiais (o mistério do ministro) e de terror para crianças (como o recente comportamento do Ministério da Educação). Aliás, na Saúde, o golpe e a golpada tornaram-se diretrizes políticas e o desmantelamento do SNS marcha a todo o vapor.
É esta uma fase em que o mundo sintoniza com o Ragtime: melodias fragmentadas, baixos teimosos e persistentes e a cadência sincopada, que nos faz sentir vivos e conscientes num período difícil em que, como sempre, nos querem moribundos e manipulados...
Rui Peralta
Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.
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