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Tourada só na cama, não num programa da RTP2
É fútil repisar os argumentos éticos, mais que evidentes, contra a tourada. Mas a tese da exposição da crueldade – independentemente do seu alvo – como um exercício estético, sobretudo quando comparado a um bailado, dependente do «bom gosto» como questão de escolha, insere-se no mesmo modelo de pensamento medieval que nos ofereceu pérolas de sapiência como entre marido e mulher não se mete a colher.
A RTP2, até aqui culta e adulta, sepulta e insulta agora o seu próprio legado ao transmitir uma série de 5 documentários sobre a tourada.
Dessa forma, ao invés de se limitar a regurgitar touradas enquanto pura, enquadra-a enquanto património histórico e cultural, procurando dotar de uma aura à la Hemingway uma prática que se inscreve na perfeição no universo populista que Montenegro tenta cooptar ao partido de André como derradeira tentativa de ressignificação. Sem outra missão excepto esvaziar o CH e preencher o seu próprio vácuo, este governo encurrala-se no Orgulhosamente Sós da negação de todas as propostas oriundas de quadrantes à sua esquerda, dispensando-as como marxismo cultural.
Resta-lhe laborar na latitude contrária, romantizando um Portugal perdido, habitado por fidalgos a cavalgar pelas suas coutadas, comandando servos da gleba e desflorando virgens castas, imaginário que entronca imaculadamente no discurso da Teoria da Grande Substituição propagado por vários ministros Montenegrinos com mais ardor ainda do que os seus subscritores originais, ao simular um resgate de uma Portugalidade fantasiada pela propaganda da ditadura.
O resgate da tauromaquia enquanto elemento da identidade portuguesa, infiltrando-a já não no canal popular, mas no segmento intelectual, é apenas mais uma tentativa póswokismo de direita, de normalizar a cultura marialva que Ferro e Salazar instituíram como legitimadora de uma tradição perpetuadora de hierarquias desiguais e exploratórias, apresentando o progresso (social) como decadência.
Este novo capítulo da guerra dos cravos entre abrilistas e novembristas, recupera agora uma tradição dispensada como retrógrada e monárquica pela primeira república, tendo sido praticamente abandonada até ao Estado Novo, e aí recuperada, juntamente com o fado, o Galo de Barcelos e as festas populares, como concretização da visão de António Ferro para a Política do Espírito, considerada a expressão mais genuína da identidade portuguesa, não só como divertimento, mas como ferramenta de prestígio estético e turístico.
Embora a programação não possa ser directamente feita pelo governo, há mecanismos de influência ao seu alcance, como aliás foi visível aquando da polémica do cartoon a criticar a polícia quando a pasta da Administração Interna estava com José Luís Carneiro.
O resgate da tauromaquia enquanto elemento da identidade portuguesa, infiltrando-a já não no canal popular, mas no segmento intelectual, é apenas mais uma tentativa póswokismo de direita de normalizar a cultura marialva que Ferro e Salazar instituíram como legitimadora de uma tradição perpetuadora de hierarquias desiguais e exploratórias, apresentando o progresso (social) como decadência.
A tourada surge como confirmação da hipermasculinização deste tempo de restauração salazarenta da pacificação identitária assente no facelifting estético nacional, agora como então, cobrindo os problemas emergentes e reais com a produção de uma cultura popular afecta a uma grandeza que Portugal nunca conheceu.
É também, simultaneamente, a continuidade da busca desesperada de uma identidade capaz de competir com países industrializados, afirmando Portugal como zona de serventes, serviçais e submissos ao turismo, forjando uma cultura alienante para o interior e atraente para o exterior, como Ferro sonhou.
A tourada surge como confirmação da hipermasculinização deste tempo de restauração salazarenta da pacificação identitária assente no facelifting estético nacional, agora como então, cobrindo os problemas emergentes e reais com a produção de uma cultura popular afecta a uma grandeza que Portugal nunca conheceu. Potencia assim a vassalagem voluntária perante desigualdades estruturais poetizadas como inevitabilidade histórica, além da perpetuação da violência como ideologia onde tudo já terminou excepto a História.
O facto de invocarem precisamente a tourada, que se afirmava como acto de coragem, torna-se ainda mais caricato, por ser o gesto de um dos governos mais cobardes desde o da Troika.
O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.
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