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«Só haverá Progressistas»: o Pacto da Granja de 1876
Uma praia em Vila Nova de Gaia. Um grupo de políticos que diziam não o ser. Um acordo que também não o foi. Assim nascia, há precisamente 150 anos, o Partido Progressista. Mas, para lá chegar, teremos inevitavelmente de ir um pouco antes do nascimento: até, pelo menos, ao encontro entre os pais.
A década de 1870 revelou-se extremamente danosa para a esquerda portuguesa.
A história do nascimento dos Progressistas começa logo com um divórcio.
A passagem de ano de 1868 não ficou marcada, como hoje estamos habituados, por champanhe ou dança, pelo menos para a população que saiu à rua contra o governo que, fruto da galopante dívida pública, procurava aumentar a carga fiscal. Com revoltas nos grandes centros urbanos do país, a Janeirinha, como ficou conhecida, levou à queda do Governo da Fusão, uma espécie de «bloco central» à século XIX, composto pelos partidos do arco da governação (Partido Regenerador, de Fontes Pereira de Melo, do centro-direita e Partido Histórico, ocupando o centro-esquerda). Além do derrube do executivo, a revolta deu azo a uma cisão à esquerda no Partido Histórico, surgindo, em 1870, o Partido Reformista.
A década de 1870 revelou-se extremamente danosa para a esquerda portuguesa, com a direita a iniciar o maior ciclo governativo até então. De eleição em eleição, a cada votação parlamentar, a esquerda fragmentada era cada vez mais diminuta e a sua força insignificante. Pela sua posição fragilizada, a esquerda parlamentar vinha a unir-se cada vez mais para apresentar e defender propostas em conjunto, numa aproximação tímida que levou, em 1874, a um acordo eleitoral. Ainda assim, Históricos e Reformistas conseguiram perder mandatos. Não se entendia que tipo de divórcio era este com chamadas todos os dias. Se a esquerda queria voltar a governar, precisava de uma clarificação.
Quis a ironia que a oportunidade perfeita para um entendimento à esquerda fosse a mesma que a tornou desavinda: uma dura crise financeira que atravessou o país, abrindo espaço à afirmação de uma alternativa política de governação. Foi este o mote dos encontros entre dirigentes Históricos e Reformistas que, a 7 de setembro de 1876, celebraram o Pacto da Granja.
O Pacto da Granja lançou as bases para a constituição do Partido Progressista.
Na Praia da Granja (local da Granja, como assim o designaram então), em Vila Nova de Gaia, este grupo de homens embigodados não criou um partido, mas a base sobre a qual ele viria a ser construído. Consensualizando posições progressistas, como o alargamento do sufrágio, a descentralização administrativa ou a reforma do texto constitucional, o Pacto da Granja lançou as bases para a constituição do Partido Progressista. «Só haverá Progressistas», afirmava o Diário Popular a 13 de setembro.
O consenso da Granja suscitou, da imprensa afeta ao governo, reações deliciosas - o Pacto era um casamento que não o foi, idealizando um Partido Progressista que ainda não o era, de «illustres granjolas [que] não eram o que eram», no sagaz humor de António Rodrigues Sampaio, d’A Revolução de Setembro. Segundo o próprio, «Na Granja houve um congresso, que não foi congresso, onde se tomaram umas deliberações, que não são deliberações, e se redigiu um programma, que não é programma, (…) No meio de tantas decерções chegamos até quasi a acreditar que nem sequer existe a Granja, que tudo aquillo foi apenas uma chimera!».
Recordar o Pacto da Granja é granjear nessa memória a força para, perante as adversidades correntes, estabelecer pontes entre os Progressistas do nosso tempo.
Quimera, de facto, não foi, e Progressista foi o nome do Partido que, anos mais tarde, viria a tomar as rédeas do poder. Infelizmente, o Partido Progressista, por sua própria culpa, não conseguiu mudar o país na forma a que se propunha. Ainda presos a dogmas clássicos, sem nunca deixar cair o peso histórico que tinha, não conseguiu manobrar o leme para dobrar os novos ventos do tempo, vendo cada vez mais os republicanos a ganhar apoio. Além disso, à sua esquerda, o Partido Socialista Português, de inspiração Proudhoniana, também tinha apoio popular alargado.
Recordar, hoje, o Pacto da Granja não é pura curiosidade histórica. É granjear nessa memória a força para, perante as adversidades correntes, estabelecer pontes entre os Progressistas do nosso tempo. Aqueles e aquelas que lutam por um país mais fraterno, uma Europa mais democrática e um mundo sustentável e de paz. As pessoas que não se resignam perante os ventos da extrema-direita, nem aguardam esperançosamente que a brisa se torne mais amena. As mulheres e os homens que desejam dar a volta a isto.
Aqui os têm. São os Progressistas.
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