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Quem manda no jornalismo não são os jornalistas
Que o jornalismo está em crise em Portugal já todos sabemos. Torna-se já numa ideia repetida até à exaustão nos espaços de debate. E é esse mesmo conformismo em chamar isto de «crise» que nos leva ao estado em que estamos. Porque o problema é muito mais profundo e mostra-se necessário mergulhar nas verdadeiras questões que nos fizeram chegar a este ponto. Mas engane-se quem pense que isto é algo recente. O descrédito da atividade jornalística é algo que já começou a ficar enraizado na sociedade portuguesa há uns bons anos.
Com uma sociedade cada vez mais crítica em relação à informação que consome, muitos encaram os jornalistas como meros propagandistas que moldam as narrativas conforme agendas específicas. Contudo, este pensamento não é propriamente de se estranhar quando observamos, diretamente de dentro da área, um constante descrédito e despreocupação com a ética no jornalismo. Cada vez mais é normal vermos não-notícias massificadas nos noticiários em prime time. O sensacionalismo cresce a um ritmo desenfreado. Tudo isto reflexo da guerra das audiências e dos lucros, que acabam por não ser, para os CEOs e para os acionistas, compatíveis com o respeito pelo código deontológico que todos os jornalistas deveriam seguir.
E nós conformamo-nos. Conformamo-nos, talvez, por falta de esperança, porque já estamos habituados a suportar este sistema falhado e que degrada cada vez mais o bom jornalismo que ainda se faz neste país. Ou porque, lá no fundo, já aceitamos que, como em tudo nesta sociedade, isto também se acaba por resumir a uma lógica de poder — uma luta do nós contra eles: de um lado, quem informa e tenta escrutinar; do outro, quem detém os meios e define os limites. E nessa guerra, quem vence é quem tem o dinheiro. Os jornalistas bem podem usar a voz que têm para amplificar e denunciar o que está mal na área. Mas se incomodarem demasiado aqueles que têm poder para os silenciar, percebe-se rapidamente o limite do megafone. Seja em pressões dentro das redações, peças que caem à última hora, carreiras que deixam de avançar ou o simples desaparecimento de quem incomoda.
Os jornalistas bem podem usar a voz que têm para amplificar e denunciar o que está mal na área. Mas se incomodarem demasiado aqueles que têm poder para os silenciar, percebe-se rapidamente o limite do megafone. Seja em pressões dentro das redações, peças que caem à última hora, carreiras que deixam de avançar ou o simples desaparecimento de quem incomoda.
Depois, há os mitos que ajudam a perpetuar esta ilusão.
O primeiro: o de que os jornalistas trabalham pouco. Mesmo quando está de folga, o jornalista não se desliga verdadeiramente, tem de estar sempre a par do que acontece no meio que lhe rodeia, o que faz desta uma profissão, literalmente, a tempo inteiro. A rapidez com que se quer dar as notícias atualmente faz com que os redatores tenham de trabalhar quase em piloto automático. Deixou-se de escrever para se limitar a produzir. O resultado? Um jornalismo insosso, sem personalidade e que se limita a reduzir os jornalistas a meras máquinas.
O segundo: o de que o jornalismo é uma área onde se recebe bem. Sim, porque muitos ainda pensam que os jornalistas são bem pagos. A essas pessoas, dou-lhes uma novidade: grande parte dos que exercem a profissão recebe apenas o salário mínimo. Já outros, estiveram há uns anos com sucessivos salários em atraso.
O que ainda mantém muitos jornalistas na área é a ideia romântica da paixão e a devoção à atividade jornalística. O sentido de missão, de serviço público, de informar com rigor. Infelizmente, a paixão não paga contas.
Um dos grandes riscos no jornalismo em Portugal e, consequentemente, no acesso das pessoas aos meios de informação é o aumento dos desertos informativos, áreas geográficas sem imprensa local ou sem acesso a cobertura jornalística própria. Segundo um estudo de 2025 da Universidade da Beira Interior, à data, 45 concelhos encontravam-se em estado de deserto total, por não terem qualquer órgão de comunicação social local sediado na área. Outros 125 corriam o risco de transitar para a mesma situação. Como em outras situações no nosso país, também nesta é o interior a zona que mais sofre. A constante centralização destes órgãos nos centros urbanos nacionais faz com que estes concelhos sejam cada vez mais esquecidos e que a sua desertificação não seja apenas populacional, mas também mediática.
Podia trazer várias frases e chavões sobre o jornalismo, mas há uma que condensa perfeitamente todas as minhas preocupações e o risco que é a constante desvalorização da área. «O Jornalismo é o seguro de vida da Democracia.» A atividade jornalística desempenha um papel fulcral no controlo da atividade política, surgindo como principal agente de denúncia e de vigilância. Vale a pena relembrar os mais esquecidos que foi o jornalismo que, há não muito tempo, ajudou a precipitar a queda do governo de António Costa e que já colocou Marcelo Rebelo de Sousa sob escrutínio suficiente para abalar a confiança no cargo de Presidente da República.
Podemos fazer mil e uma conferências sobre o futuro dos media, podemos ter membros do governo a dizer que se preocupam com a classe jornalística, podemos fazer tudo e mais alguma coisa. Mas, enquanto a questão não for realmente atacada e o jornalismo não for valorizado da forma que realmente merece — com condições, com investimento e com exigência — tudo não passa de pequenas tentativas de atrasar a detonação evidente de uma verdadeira bomba-relógio.
Podemos fazer mil e uma conferências sobre o futuro dos media, podemos ter membros do governo a dizer que se preocupam com a classe jornalística, podemos fazer tudo e mais alguma coisa. Mas, enquanto a questão não for realmente atacada e o jornalismo não for valorizado da forma que realmente merece — com condições, com investimento e com exigência — tudo não passa de pequenas tentativas de atrasar a detonação evidente de uma verdadeira bomba-relógio.
Enquanto aluno de comunicação que pretende fazer do jornalismo a sua profissão, o cenário com que hoje me deparo é preocupante, diria até desanimador. Quem me garante que não vou ter o meu trabalho condicionado ou que vou trabalhar para depois não receber o salário no fim do mês? Durante o tempo em que ainda não estou no mercado de trabalho, resta-me observar a situação de longe e esperar que haja um acordar na mentalidade do povo português. Caso contrário, temo estar condenado à precariedade.
Rodrigo Santos
Mestrando em Jornalismo
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