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Do Pontal à Pontual em cinco movimentos
Em Agosto de 1947, logo após a II Guerra Mundial, nasceu o Festival Internacional de Edimburgo, cujo objectivo era unir as pessoas através da cultura. Com uma forte componente no teatro, música, dança e ópera, o Festival atraiu companhias de renome, mas oito grupos de teatro decidiram actuar à margem da programação, criando o Fringe Festival of Edimburgo.
Em Agosto de 2026, 79 anos depois, o objectivo destes dois eventos mantém-se. Hoje, sob a direção de Nicola Benedetti, violinista escocesa, a primeira mulher e primeiro director ligado à arte e o mais jovem a assumir a direcção do festival (desde 2022), o Festival navega nas águas turvas da complexa situação mundial. Num momento em que se aventura a trajectória rumo ao autoritarismo nos EUA, a presença de artistas estado-unidenses é numerosa e inclusive o Legacy Museum, no Alabama, transportou para Edimburgo a exposição O Legado da Escravatura.
E este ano há outra novidade de peso. A Panmure House, a última residência de Adam Smith, local onde concluiu A Riqueza das Nações e o esquecido (pelos leitores ávidos e apressados d'A Riqueza das Nações) Teoria do Sentimento Moral, participa na programação cultural integrando eventos especiais por ocasião dos 250 anos da publicação daquela obra.
Mas se em Edimburgo o mundo dá as mãos, em Telavive o mal banaliza-se. Recentemente foi anunciado um plano do governo de Israel para utilizar crocodilos na segurança dos estabelecimentos prisionais israelitas. «Impedir fugas» e funcionar como meio de dissuasão é o objectivo do plano, apesar das objecções do Poder Judicial, das associações de direitos humanos e dos ambientalistas.
Numa sociedade assente no mito do «povo eleito» e num sistema de apartheid, onde a maioria dos detidos é palestiniana, esta iniciativa agrava as já precárias e violentas condições de detenção, amplamente denunciadas pelas organizações internacionais. Apesar do Tribunal Distrital de Jerusalém ter suspendido o plano, até decisão judicial superior, esta iniciativa governamental israelita é demonstrativa das constantes violações dos direitos humanos efectuadas pelos sucessivos governos israelitas, situação agravada desde que a direita e a extrema-direita se tornaram hegemónicas na sociedade israelita.
A mais completa falta de respeito pelos princípios da dignidade da pessoa humana, pelos direitos das pessoas detidas, pelos Direitos humanos e pelo Direito Internacional Humanitário, a desumanização e humilhação constantes a que a população palestiniana é sujeita, tornaram-se práticas normalizadas pelos governos israelitas. Utilizar animais selvagens como instrumento de repressão é mais um dos muitos exemplos do regime de apartheid israelita. Urge a sua condenação.
A mais completa falta de respeito pelos princípios da dignidade da pessoa humana (...) a desumanização e humilhação constantes a que a população palestiniana é sujeita, tornaram-se práticas normalizadas pelos governos israelitas.
Se no imaginário da direita israelita, Israel é um paraíso do imobiliário (atendendo aos negócios de Netanyahu e de seus parceiros dos colonatos) o Pontal, em Portugal, é o pomar da direita portuguesa, um local mágico, onde o país imaginário (um pomar à beira-mar plantado) se sobrepõe ao país real. Este - o país real - é mais tipo a Pontual, uma fábrica de calçado em Avintes, ali para Vila Nova de Gaia, onde os trabalhadores (cerca de 60) mantém vigílias diurnas e noturnas à porta das instalações desde finais de Julho deste ano. A vigília visa impedir a retirada das máquinas e mercadorias após um encerramento surpresa.
Os trabalhadores exigem ainda o pagamento de salários em atraso, subsídios de férias e de Natal, e indemnizações.
O Pontal é o pomar da direita portuguesa, um local mágico, onde o país imaginário (um pomar à beira-mar plantado) se sobrepõe ao país real.
Claro que na festa do Pontal, no imaginário dos que por lá vão, «estas coisas acontecem mas o que é necessário é uma economia competitiva». E no país do Pontal, todo pintado cor de laranja, o primeiro-ministro descreve as maravilhas do crescimento económico. Mas no país da Pontual a realidade é outra. Não é virtual, nem tirada de um olhar centrado no umbigo. Ali os trabalhadores vivem num país que luta por manter as cores de Abril, um país que os que vão ao Pontal teimam em manter cinzento, para que só eles possam viver, prosperando, no pomar.
No país do Pontal, todo pintado cor de laranja, o primeiro-ministro descreve as maravilhas do crescimento económico. Mas no país da Pontual [a fábrica de Vila Nova de Gaia encerrada] a realidade é outra. Ali os trabalhadores vivem num país que luta por manter as cores de Abril, um país que os que vão ao Pontal teimam em manter cinzento, para que só eles possam viver, prosperando, no pomar.
Tudo isto (a mensagem de Fraternidade transmitida por Edimburgo, a banalidade da desumanização em Telavive, os cinquenta anos da festa do Pontal e o retorno à mensagem solidária com os trabalhadores da Pontual) conduz à audição da Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz, mais especificamente ao 5.º movimento: Conto de uma noite de Sabá. A Sinfonia Fantástica, Op.14, foi composta por Hector Berlioz no ano de 1830 e é o trabalho mais conhecido deste compositor (e que introduziu o sinfonismo em França). Berlioz rompe com a norma clássica de apresentar uma sinfonia em quatro movimentos e constrói a Sinfonia Fantástica em cinco partes unificadas pelo conceito de ideia fixa, um tema musical recorrente. Vamos lá então ouvir o quinto movimento: Conto de uma noite de Sabá.
Rui Peralta
Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.
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