Cigano: a palavra que chega antes da pessoa
Há palavras que nunca chegam vazias. Entram nas nossas conversas carregadas de distância, caricatura, suspeição e olhares de soslaio.
A leitura ocupa um lugar decisivo na formação pessoal. Esta é uma afirmação consensual. A leitura regular robustece a forma como se interpreta a experiência, como se nomeia o mundo e como se participa nele. Desenvolve o pensamento crítico, amplia a consciência histórica, favorece a compreensão de outras vidas. Quando esta prática se realiza em grupo, deixa de pertencer apenas ao domínio privado e inscreve-se numa dimensão colectiva, em que a conversa, a escuta e a divergência produzem novas formas de entendimento.
É neste ponto que os clubes de leitura feministas têm adquirido uma relevância particular. Não são propriamente uma novidade histórica, mas assumem hoje contornos muitos distintos. A sua importância não decorre apenas da promoção de obras escritas por mulheres, embora esse gesto continue a ser necessário num campo literário ainda marcado por desigualdades de visibilidade. Estes clubes evidenciaram, acima de tudo, a possibilidade de transformar a leitura numa prática cultural de capacitação individual. O livro não é entendido como objecto de fruição individual, actuando antes como eixo de uma comunidade interpretativa, em que cada participante se lê a si própria, às outras e ao contexto social que a envolve.
Num clube de leitura feminista, a discussão não se limita à análise formal da obra. Aliás, raramente o faz. A obra convoca temas que atravessam a vida concreta das participantes: desigualdade, experiência do corpo, maternidade, violência, trabalho, desejo, envelhecimento, culpa, autonomia, memória, solidão, pertença, fluxos de consciência. Ao serem discutidas em grupo, estas experiências deslocam-se para um plano comum. O que parecia estritamente individual revela a sua inscrição social e o que parecia uma inquietação isolada encontra linguagem, história e escuta.
A leitura partilhada produz, então, um conhecimento que nasce da relação entre texto, participantes, mediadoras, espaço e circunstância. As sessões são atravessadas por diferentes aproximações: há quem leia a partir da biografia, quem leia a partir da sua consciência política, quem leia a partir da emoção, quem leia a partir da experiência cultural acumulada. Nenhuma destas entradas esgota a sessão. Pelo contrário, a multiplicidade de leituras torna visível a espessura do texto e a diversidade das posições de quem o lê, não transformando o livro num pretexto menor para a conversa, nem reduzindo a conversa a uma reacção espontânea ao livro. Ocorre algo muito mais exigente: o texto torna-se um ponto de convergência ou divergência a partir do qual as convicções se ampliam.
Estes clubes podem, ainda, ser definidos como espaços de resistência simbólica. Não substituem a acção política, nem pretendem fazê-lo, mas intervêm no plano essencial da legitimação de autorias. Ler autoras e falar sobre autoras, ou de autores, de um ponto de vista feminista, contraria a tradição cultural que reduziu a experiência feminina à excepção. Importa, contudo, não idealizar estes espaços. A participação regular em clubes de leitura continua dependente de condições concretas: tempo, disponibilidade emocional, acesso ao livro, hábitos culturais, confiança na palavra própria. A tendência para reunir públicos escolarizados e leitores já familiarizados com práticas culturais coloca desafios importantes à participação nos encontros. Uma prática que se pretende emancipatória não pode deixar de interrogar os seus próprios limites: quem participa, quem fica de fora, que vozes se tornam centrais e que experiências permanecem menos audíveis.
Ainda assim, a relevância dos clubes de leitura feministas está precisamente nas superações das tensões. A reunião em torno de autoras e de questões feministas cria um momento em que a leitura se torna experiência de sociabilidade e reconhecimento. A capacitação que daí resulta não pode ser entendida como mudança imediata ou grandiosa, mas antes como uma manifestação gradual: uma participante ganha confiança para falar; outra descobre uma autora que altera o seu mapa de referências; outra reconhece uma experiência que nunca tinha formulado; outra compreende que a sua história pessoal participa de uma estrutura mais vasta.
Um livro, isoladamente, pode não capacitar uma mulher, mas a leitura, quando partilhada num espaço de escuta crítica, pode, sim, participar de um processo de capacitação, fortalecer a capacidade de interpretar, de discordar, de reconhecer violência, de nomear desejo, de rever lugares herdados e de imaginar formas de vida mais além. Nos clubes de leitura feministas, a leitura constitui efectivamente uma forma de elaboração de presença. Individualmente, no grupo e no mundo.
A autora escreve sem o Acordo Ortográfico.
Ana Mateus
Doutoranda em Ciências da Comunicação no ISCTE. Escreve sem o Acordo Ortográfico.
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