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Dizem que é por ser verão — não, não é!
Sobre as alterações climáticas, há quem diga «não» por vã defesa do que lhe dá respaldo eleitoral, há quem o faça para proteger o seu modelo de negócio e há quem, aquiescendo, repita esse «não» por desconhecimento ou pela aceitação de um discurso confortável, capaz de lhe organizar o mundo sem grande esforço.
Seria, no entanto, interessante fazer o exercício de compreender os diferentes «negacionismos», neste e noutros assuntos robustamente sustentados em evidências, porque compreender é também condição necessária para os contrariar. Importa distinguir quem, por interesses vários e sabendo que talvez não viva para suportar as consequências, se sente à vontade para mentir, confundir e omitir, de quem adere a uma leitura do mundo que lhe poupa o trabalho, o desconforto ou até o medo de rever a gaveta onde arrumou parte da realidade.
Sim, na Amareleja faz calor, sempre lá houve calor; mas é o verão — dizem. Curiosamente, num tempo em que até a consequência de um vermelho direto pode amarelar a toque de rei, quão fácil é desvalorizar o vermelho constante e cada vez mais frequente dos termómetros, esse sim que já não aparece apenas como exceção pitoresca de agosto, mas como sinal acumulado de uma realidade que insiste em deixar de caber nas desculpas do costume.
Importa distinguir quem, por interesses vários e sabendo que talvez não viva para suportar as consequências, se sente à vontade para mentir, confundir e omitir, de quem adere a uma leitura do mundo que lhe poupa o trabalho, o desconforto ou até o medo de rever a gaveta onde arrumou parte da realidade.
Sejamos justos. A nossa perspetiva da realidade é limitada por diferentes mecanismos, entre os quais o recurso a representações, categorias e compartimentos mentais, tantas vezes levados a favor do vento e da casuística das coisas que nos dão mais jeito. Não vemos o mundo inteiro; vemos pedaços, episódios, imagens, memórias, mapas mentais e aquilo que a nossa cultura emocional aprendeu a aceitar como plausível. Ao categorizar e catalogar, damos sentido ao que nos rodeia, mesmo quando essa leitura não corresponde à melhor racionalização possível.
A própria pedagogia vive deste paradoxo. Para tornar uma realidade compreensível, precisamos frequentemente de a adaptar e simplificar, mas o problema começa quando a simplificação deixa de ser uma ponte para o conhecimento e passa a ser instrumento da mentira.
Seria, por exemplo, ridículo apresentar num livro infantil, ou mesmo numa ilustração escolar comum, uma representação rigorosamente proporcional dos tamanhos e das distâncias entre a Terra e a Lua. Para que estes objetos celestes coubessem numa folha A4, colocados nos cantos opostos e à escala, a Terra teria pouco mais de um centímetro de diâmetro e a Lua pouco mais de três milímetros, roubando-nos o conforto visual com que aprendemos a imaginar a nossa grande casa e a sua «pequena» companheira satélite.
Para tornar uma realidade compreensível, precisamos frequentemente de a adaptar e simplificar, mas o problema começa quando a simplificação deixa de ser uma ponte para o conhecimento e passa a ser instrumento da mentira.
A questão, portanto, não é escolher entre realidade complexa e representação simples, mas perceber quem simplifica para nos aproximar da realidade e quem simplifica para nos afastar dela. Daí o sucesso dos recortes de jornais de anos idos que nos recordam registos antigos de temperaturas elevadas em Lisboa ou no Alentejo. Não porque todos sejam falsos, mas porque são usados como se um episódio antigo anulasse uma tendência presente. Obviamente, a questão não é saber se «antes havia calor», mas perceber a alteração da frequência, da duração, da intensidade e da acumulação desses episódios.
Porém, tendemos a aceitar o contexto apenas enquanto ele cabe em formas digeríveis e não ameaça excessivamente as nossas convicções. É por isso que um mapa, uma capa de jornal, uma publicação viral ou uma frase aparentemente sensata podem reorganizar a nossa perceção mais rapidamente do que anos de investigação científica, séries temporais, medições, modelos e indicadores.
O problema agrava-se quando sistemas orientados para maximizar o lucro e o envolvimento recompensam conteúdos violentos, simplistas ou indignados. Quem diria que incentivos errados haveriam de produzir consequências nefastas? E o que acontece quando voltamos à falta de responsabilidade e de escrúpulos de outros tempos tenebrosos?
O mecanismo repete-se, aparece na crise climática, no debate sobre o papel do Estado, na política internacional ou na forma como os algoritmos nos servem indignação em doses curtas e lucrativas. Entre um polegar que scrolla mais uma receita italiana, estreitos bloqueados ou a realidade da habitação inacessível — mal isolada e a preços de casa passiva noutras latitudes — lá aparece mais um usurpador do espaço público, «servindo O cidadão», enquanto serve o interesse que realmente o move.
Poucos parecem dar-se conta disto, mas a falta de visão macro na compreensão dos fenómenos sociais, das políticas públicas e das narrativas políticas não pode limitar a nossa ambição de bem comum. Sobretudo quando se aceita com surpreendente facilidade a crença em conceitos tão rarefeitos como trickle-down economics, enquanto se desconfia de décadas de investigação climática, medições, modelos e indicadores que descrevem fenómenos reais. Não raro, são as mesmas pessoas. São KPIs, gente! São KPIs!
A falta de visão macro na compreensão dos fenómenos sociais, das políticas públicas e das narrativas políticas não pode limitar a nossa ambição de bem comum.
Gostaríamos de acreditar que todos somos capazes de identificar os interesses em causa ou, pelo menos, de perceber que aquilo que nos limita a visão também pode tranquilizar-nos, por nos manter incluídos numa leitura aceite e incentivada pelos mais fortes. Mas o quotidiano sem tempo, cultura e conhecimento condiciona-nos, enquanto interesses individualistas, máquinas de comunicação e enviesamentos multimilionários sabem moldar narrativas.
É precisamente por isso que não basta invocar a ciência, a visão macro e os dados. Precisamos de imaginação democrática para traduzir o complexo sem o falsificar, chegando às pessoas sem as tratar como incapazes e usando as linguagens e os veículos do presente — redes sociais, imagens, frases curtas e exemplos próximos — sem entregar a simplicidade apenas a quem a usa para mentir.
Quem fabrica deliberadamente a mentira deve ser responsabilizado – é possível e desejável. Quem nela encontrou ordem, segurança ou uma explicação confortável não pode, porém, ser simplesmente abandonado àqueles que o enganaram. Para dar esperança e motivação às pessoas, não basta dizer-lhes onde estão erradas. É necessário compreender o que as levou até ali, que segurança encontram nessa leitura do mundo e que futuro lhes podemos oferecer para que a abandonem sem sentirem que perdem tudo com ela.
A tarefa democrática e progressista do nosso tempo passa, assim, por disputar o terreno onde as pessoas realmente estão, com verdade, ciência e proporção, mas também com humanidade. Precisamos de uma simplicidade honrosa, capaz de falar de fenómenos imensos sem esmagar quem os ouve, de mostrar a escala sem perder as pessoas e de simplificar sem trair o real.
Quem fabrica deliberadamente a mentira deve ser responsabilizado – é possível e desejável. Quem nela encontrou ordem, segurança ou uma explicação confortável não pode, porém, ser simplesmente abandonado àqueles que o enganaram. Para dar esperança e motivação às pessoas, não basta dizer-lhes onde estão erradas. É necessário compreender o que as levou até ali, que segurança encontram nessa leitura do mundo e que futuro lhes podemos oferecer para que a abandonem sem sentirem que perdem tudo com ela.
E, por isso mesmo, este artigo não serve bem essa necessidade: é longo, denso e pouco ajustado ao modo como hoje a atenção pública se disputa. Que sirva, pelo menos, para lembrar que nem tudo o que precisa de chegar longe pode ser pensado à pressa e nem tudo o que precisa de ser simples pode nascer simplificado.
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