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A AfD a «farmar aura» na Alemanha? Tudo é possível
Farmar aura, a nova tendência entre a geração digital, é a explicação ideal para a política do segundo milénio.
Primeiro pela sua componente de gaming, universo de onde o termo é originário e ao qual a política se encontra reduzida, tanto por vontade própria como pela estrutura da análise mediática dos debates, assente em tabelas de pontuação em que se decreta um vencedor, socorrendo-se de opiniões como se fossem critérios concretos.
Quando se farma aura, o vencedor é quem conseguir ter maior aura, independentemente do que fizer, num maquiavelismo maior que Maquiavel, carregando, de forma inconsciente, a meritocracia para a esfera do concurso de popularidade, modus operandi político na era do seu esvaziamento absoluto.
Embora farmar aura pareça um abandono do meio digital e um regresso ao offline, na realidade é outra manifestação da forma como as redes sociais deixaram de reflectir o real para primeiro modulá-lo e agora capturá-lo.
Ulrich Siegmund, o vencedor pela AfD das eleições regionais na Saxónia-Anhalt, foi tanto um produto destes tempos como também seu produtor, funcionando como braço proletário para credibilização das ideias totalitárias de Musk – a quem agradeceu -, frequentemente rejeitadas devido à sua fortuna e à nacionalidade norte-americana.
A campanha de Siegmund, ex-vendedor de perfumes, ao contrário do seu programa, foi feita com tónica positiva. De acordo com a imprensa independente alemã, isso contribuiu para uma vasta aceitação do seu discurso e da sua figura, geradora de um culto, provavelmente equiparável ao de um outro candidato de bigode que, há 100 anos, foi reunindo apoios nas cervejarias de Munique, e cuja aura Siegmund defende.
A campanha de Siegmund, ex-vendedor de perfumes, ao contrário do seu programa, foi feita com tónica positiva. De acordo com a imprensa independente alemã, isso contribuiu para uma vasta aceitação do seu discurso e da sua figura, geradora de um culto, provavelmente equiparável ao de um outro candidato de bigode que, há 100 anos, foi reunindo apoios nas cervejarias de Munique, e cuja aura Siegmund defende.
Neste ponto, Siegmund prova como as redes sociais são o game changer que a esquerda tem, em alguns casos, recusado, noutros sido incapaz de utilizar em seu proveito para dotar os candidatos de humanidade.
Siegmund cultivou a imagem de homem simpático, acessível, optimista e normal, recorrendo às selfies, ao contacto directo com eleitores e à nostalgia de uma Alemanha autónoma, saudosista do nacional-socialismo, seguindo na peugada de Trump e outros, com uma estratégia delineada sobre um enorme investimento nas redes sociais. Isso atirou para segundo plano o seu programa onde consta alterar profundamente a política migratória, reduzir estruturas governamentais, rever políticas da pandemia e alterar políticas de educação e identidade nacional.
O seu slogan, «Tudo é possível», entronca na linha de «Yes, we can», de Obama, demonstrando a enorme atenção e capacidade de aprendizagem da extrema-direita ao cooptar estética, estratégia e léxico, tradicionalmente antagónicos, mas para quem só a vitória interessa e tudo é sacrificável.
Essa cooptação foi também da esfera ideológica, já que a Saxónia histórica deixou marcas territoriais na actual Saxónia-Anhalt - ambas parte da antiga Alemanha de Leste – e esteve no centro da queda do Muro de Berlim. O ressentimento contra o comunismo da URSS constitui uma barreira previsível para os eleitores se reverem na esquerda, sobretudo de linha marxista. Simultaneamente, a Saxónia, tal como muitas zonas da ex-URSS depois da queda do bloco, foi atirada para uma crise, não só económica, mas também de valores e identitária, com os alemães de Leste, como os portugueses do Algarve, a sentirem-se arredados do acesso às instituições democráticas, autodefinindo-se como Bürger zweiter Klasse — cidadãos de segunda classe.
A Saxónia, tal como muitas zonas da ex-URSS depois da queda do bloco, foi atirada para uma crise, não só económica, mas também de valores e identitária, com os alemães de Leste, como os portugueses do Algarve, a sentirem-se arredados do acesso às instituições democráticas, autodefinindo-se como Bürger zweiter Klasse — cidadãos de segunda classe.
Esse é o paralelismo entre Albufeira e a Saxónia, na medida em que funcionarão ambos como laboratório de extremismo, ambos com candidatos capazes de construir uma imagem de boy next door, afastada dos programas neofascistas dos partidos. Essa postura oferece possibilidade de representação ao eleitorado da AfD – como ofereceu ao do CH – pois, de acordo com o Público, metade dos votantes da AfD são homens brancos de meia idade.
Os problemas da Saxónia são afinal os mesmos problemas de toda a Europa envelhecida e decrépita, que permitiu a captura das instituições pelos centros económicos, conduzindo à quebra nos salários e no poder de compra, à crise habitacional, à destruição dos serviços públicos e infraestruturas, a uma sensação de abandono pelo governo central e à habitual procura de bodes expiatórios onde são mais visíveis e frágeis, como os imigrantes.
Os problemas da Saxónia são afinal os mesmos problemas de toda a Europa envelhecida e decrépita, que permitiu a captura das instituições pelos centros económicos, conduzindo à quebra nos salários e no poder de compra, à crise habitacional, à destruição dos serviços públicos e infraestruturas, a uma sensação de abandono pelo governo central e à habitual procura de bodes expiatórios onde são mais visíveis e frágeis, como os imigrantes.
Tal como Portugal abdicou das lições e da cultura do PREC, também a Saxónia existiu durante décadas sem a concretização do poder popular prometido no seu slogan «O Estado não representa o povo; nós somos o povo». Pelo menos, até Siegmund e a AfD se apropriarem da ideia, reclamando-se seus herdeiros e o verdadeiro povo alemão, caracterizando os outros como outros, sejam as elites, os imigrantes, Berlim ou Bruxelas. Ou seja, a afirmação velada do eurocentrismo através da negação da sua oposição.
Por cá, a extrema-direita ainda insiste no 25 de Novembro, mas depois da vitória da AfD, com circunstâncias e contexto semelhantes aos de Portugal, talvez não demore até se apresentarem como os verdadeiros herdeiros de Abril. A menos que o façamos primeiro.
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